
Abelhas zumbem ao redor de dois estudantes de medicina veterinária da Universidade da Geórgia enquanto eles retiram quadros de favos no apiário,durante a colheita anual de mel em Athens,Geórgia,em 14 de junho de 2025 — Foto: Will Crooks / The New York Times
No hospital veterinário universitário da Universidade da Geórgia,futuros médicos-veterinários aprendem a cuidar de uma grande variedade de animais: cães com dermatite e cavalos com cólica,gatos diabéticos e papagaios desnutridos,coelhos com hemorragias e cobras com problemas respiratórios.
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— Tudo o que entra pulando pela porta — diz o veterinário de animais exóticos Jörg Mayer,que atua no hospital. — Ou rastejando.
Mas,em uma manhã de domingo de abril,com uma brisa leve,Mayer estava em um pequeno campo tomado pelo mato,ensinando seus alunos a fazer visitas de campo a um grupo de pacientes que raramente passa pelas portas do hospital — ou aparece no currículo tradicional de veterinária. Os estudantes vestiram macacões brancos,colocaram capuzes de proteção com tela e se prepararam para examinar centenas de milhares de abelhas.

Estudantes de medicina veterinária da Universidade da Geórgia ouvem o Dr. Jörg Mayer durante uma inspeção de primavera em colmeias na Universidade da Geórgia,em Athens,em 19 de abril de 2026 — Foto: Will Crooks / The New York Times
— Todos prontos? — perguntou Mayer.
Nas duas horas seguintes,os estudantes inspecionaram mais de uma dúzia de colmeias,erguendo os favos de cera contra a luz do sol em busca de sinais de doenças: asas atrofiadas,larvas descoloridas ou minúsculos ácaros que podem indicar sérios problemas para as abelhas e,consequentemente,para o abastecimento de alimentos.
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As abelhas são protagonistas da agricultura,responsáveis pela polinização de culturas avaliadas em cerca de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 76,9 bilhões) por ano — mais de 130 tipos de frutas,verduras,legumes e oleaginosas. Mas esses insetos estão cada vez mais ameaçados,afetados por parasitas e patógenos e enfraquecidos pelas mudanças climáticas,pelos pesticidas e pela má nutrição.

Um estudante de medicina veterinária da Universidade da Geórgia segura uma caixa contendo uma rainha recém-vacinada,que será introduzida em uma colmeia em Athens,em 19 de junho de 2025 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Mortes em massa de colônias se tornaram frequentes. Na temporada de 2024 a 2025,os Estados Unidos perderam mais da metade de suas colmeias manejadas.
— (Os apicultores estão) travando uma guerra para manter suas abelhas vivas — observa Bob Binnie,apicultor comercial e proprietário da Blue Ridge Honey Co.,em Lakemont,no estado da Geórgia.
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O programa de medicina para abelhas da Universidade da Geórgia faz parte de um esforço ainda incipiente,mas em expansão,para envolver veterinários nessa batalha. Atualmente,estudantes de veterinária já precisam dominar os fundamentos biológicos de diversas espécies domésticas,como cães,gatos,cavalos,vacas e porcos.
— Acho que as abelhas merecem um status semelhante — afirma Mayer,professor da Faculdade de Medicina Veterinária da universidade.


Se metade dos cães — ou gatos,vacas ou cavalos — do país morresse inesperadamente a cada inverno,isso seria tratado como uma emergência de saúde animal.
— Mas,na apicultura,isso é basicamente chamado de quarta-feira — diz Mayer. — É considerado totalmente normal.
Mayer,que cresceu em uma pequena cidade agrícola no sudoeste da Alemanha,passou boa parte da infância cercado por animais de fazenda. Mas,quando ingressou na faculdade de Medicina Veterinária,em Budapeste,na Hungria,descobriu que tinha uma afinidade especial por aves,lagartos e outros animais exóticos,sobre os quais havia muito menos conhecimento científico.

Jörg Mayer,professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Geórgia,está próximo ao apiário da universidade em Athens,em 18 de junho de 2025 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Foi nessa época que também se apaixonou pelas abelhas. Ao contrário do que ocorre nos EUA,muitas faculdades de veterinária da Europa incluem a saúde das abelhas na grade curricular,tratando esses invertebrados como "basicamente um microgado",explica Mayer.
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A medicina voltada às abelhas era incomum o suficiente para despertar sua curiosidade.
— Também achei aquilo muito romântico: ter minhas próprias abelhas,produzir meu próprio mel — conta.
No início dos anos 2000,depois de assumir um cargo como veterinário especializado em animais exóticos nos EUA,ele montou suas próprias colmeias.

Abelhas em um quadro com alvéolos de mel abertos durante uma inspeção de colmeia na primavera em Athens,em 19 de abril de 2026 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Naquela época,já estava claro que as abelhas enfrentavam ameaças graves. No topo da lista estava o Varroa destructor,um ácaro invasor e parasita que se alimenta de abelhas vivas. Mas havia muitos outros perigos: traças-da-cera,besouros das colmeias,fungos que comprometem a digestão,vírus capazes de provocar paralisia ou deformações nas asas e bactérias que podem exterminar toda a cria de uma colônia.
Durante anos,os apicultores americanos lidaram com esses surtos praticamente sozinhos,diagnosticando muitas doenças apenas pela observação e aplicando os tratamentos que consideravam mais adequados. A possibilidade de comprar antibióticos sem receita,sem consultar um veterinário,favorecia essa autonomia.
Mas,em 2017,diante da crescente preocupação com o avanço de microrganismos resistentes aos antibióticos,as autoridades federais endureceram as regras para a venda desses medicamentos. De uma hora para outra,os apicultores que precisavam recorrer aos antibióticos passaram a depender da prescrição de veterinários.
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Havia apenas um problema.
— Nos EUA,nós não fomos treinados adequadamente para cuidar de abelhas — afirma Tracy Farone,veterinária do Grove City College,na Pensilvânia,que chegou a passar um período sabático na Europa para aprofundar seus conhecimentos sobre o tema.
Desde 2017,diversas organizações profissionais — entre elas o recém-criado Honey Bee Veterinary Consortium — vêm tentando atualizar veterinários em atividade,oferecendo cursos de educação continuada e certificações específicas. Segundo especialistas,o interesse pela área tem crescido.

Um estudante de medicina veterinária da Universidade da Geórgia marca uma abelha-rainha com um ponto azul em Athens,em 18 de junho de 2025 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Apesar dos avanços,a lacuna de conhecimento ainda é grande. Em uma pesquisa realizada entre 2023 e 2024,74% dos veterinários disseram não saber como emitir prescrições para tratamentos de abelhas,enquanto 89% afirmaram que não conseguiriam identificar doenças nesses insetos.
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Por isso,algumas faculdades de Medicina Veterinária também passaram a investir na formação da próxima geração de profissionais.
— A participação dos veterinários é realmente necessária,porque este é um momento muito difícil tanto para as abelhas quanto para os apicultores — ressalta Meghan Milbrath,que ajudou a criar e hoje coordena um programa de medicina para abelhas na Universidade Estadual de Michigan e é uma das autoras da pesquisa. — Precisamos de toda ajuda possível.
Na Universidade da Geórgia,Mayer percebeu que estava em uma posição privilegiada para ajudar estudantes de veterinária a entender melhor as abelhas. Depois da mudança nas regras da FDA sobre a venda de antibióticos,ele conta que fez a si mesmo uma pergunta:
— Por que não unir meu hobby,a apicultura,ao meu trabalho?
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Ele se uniu a colegas da Faculdade de Agricultura da universidade,que já abrigava um renomado laboratório de pesquisa sobre abelhas e um programa de certificação para apicultores. Juntos,criaram um programa de medicina voltado às abelhas,que hoje inclui um clube de apicultura,uma equipe responsável pelo tratamento das colmeias e um estágio eletivo de três semanas.

Estudantes de veterinária assistem a uma aula de Jörg Mayer no campus da Universidade da Geórgia,em 3 de dezembro de 2025 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Madison Morgan,estudante do quarto ano de Medicina Veterinária e natural de Austell,no estado da Geórgia,surpreendeu a si mesma ao participar de todas essas atividades. Ela chegou à universidade sem qualquer interesse especial por abelhas.
— Elas simplesmente não faziam parte do meu radar — confessa.
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Mas,em alguns aspectos,as abelhas desafiam um dos princípios centrais da medicina veterinária,segundo o qual a vida de cada animal,individualmente,importa.
— Todos nós amamos os animais e pensamos: "Queremos salvar cada um deles" — afirma Morgan.

Um estudante de medicina veterinária da Universidade da Geórgia usa um fumigador para acalmar as abelhas durante uma colheita de mel em Athens,em 14 de junho de 2025 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Essa abordagem,porém,faz pouco sentido quando se trata de abelhas,cuja expectativa de vida pode ser medida em poucas semanas e que só conseguem sobreviver como parte de uma colônia. Por isso,as colmeias costumam ser descritas como "superorganismos",nos quais as abelhas trabalham coletivamente para desempenhar funções biológicas essenciais.
Na medicina voltada às abelhas,portanto,o paciente não é o inseto individual,mas a colmeia.
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O apiário utilizado pela Faculdade de Veterinária para o ensino conta com 13 colmeias,cada uma instalada em uma torre formada por caixas empilhadas,que aumenta de altura à medida que a colônia cresce.
Naquela manhã de domingo de abril,as inspeções identificaram dois ácaros Varroa,mas isso não foi motivo para alarme. Esses parasitas se tornaram tão comuns que encontrar alguns deles em uma colmeia já não é incomum. O tratamento só seria necessário caso a população de ácaros aumentasse.

Um quadro de uma colmeia com infestação de traças-da-cera em Athens,em 19 de abril de 2026 — Foto: Will Crooks / The New York Times
Embora o Varroa seja capaz de destruir até mesmo as colmeias mais resistentes,colônias saudáveis e bem alimentadas conseguem manter parte das pragas e dos patógenos "sob controle" por conta própria,explica Lewis Bartlett,pesquisador responsável pelo laboratório de abelhas da Universidade da Geórgia e um dos criadores do programa de medicina voltado às abelhas.
— Mas,se deixamos de oferecer alimento de qualidade porque perdemos habitats de polinizadores,e ainda as envenenamos com inseticidas,fungicidas e outros produtos químicos agrícolas que sabemos comprometer o sistema imunológico delas,então surgem esses grandes surtos — afirma.
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Por isso,o programa incentiva os estudantes a adotar uma visão mais ampla da saúde das colmeias,ensinando princípios de nutrição e de manejo ambiental que podem proteger tanto as abelhas quanto os apicultores de perdas em larga escala.
— Se você for chamado para visitar um apiário,não pode ser aquele veterinário que apenas chega,receita um medicamento e diz "té mais" — diz Mayer.