
A professora Michele Ramos denunciou aluno que colocou vidro em seu copo de àgua — Foto: Reprodução redes sociais
GERADO EM: 06/07/2026 - 17:35
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"Eu sou Michele Ramos,atualmente professora na rede municipal de ensino de São José dos Campos,São Paulo. Me formei em Biologia em 2010 e,a princípio,não fui para a área da educação. Tentei,mas não consegui seguir a carreira acadêmica. Depois,senti um chamado,uma vontade de trabalhar com educação e fazer alguma transformação na sociedade. Fiz a licenciatura,prestei concurso,fui chamada e tinha uma expectativa boa. Mas nada tinha me preparado para o ambiente da sala de aula. A gente estuda um monte de coisas,mas nada te prepara para o turbilhão que é pegar turmas de sexto e nono anos.
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Comecei a dar aula em 2020,no ano da pandemia. Fui pegando o jeito aos trancos e barrancos enquanto enfrentava a dura realidade dessas crianças. São elas as situações externas que os alunos passam,a ausência de família e as dificuldades de aprendizado. Um monte de coisas que eu não imaginei que fosse me impactar tanto.
Mesmo assim,dentro da sala,eu tento deixar um clima leve. Gosto de fazer experiências práticas,mas,às vezes,fico receosa e acabo desistindo,porque geralmente são os dias em que eles ficam mais agitados. As crianças se distraem com muita facilidade. O negócio deles é a dopamina o tempo inteiro. Se você pede uma leitura um pouco mais longa,parece que pediu algo absurdo. Eles não têm paciência com o próprio aprendizado,querem escolher o que fazer,não aceitam o método tradicional,e essa revolta acaba caindo sobre mim.
Antes desse episódio mais grave,eu já tinha passado por momentos de estresse e crises de ansiedade devido à falta de comprometimento e à muita bagunça. Sofri desrespeito e xingamentos de alguns estudantes e tive que ouvir coisas de familiares que eu não gostaria. Cheguei a sentir que não estava dando conta. Isso me levou a um estado de medo em que eu tive que me afastar por três ou quatro dias.
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O ponto de virada foi em 2022,só dois anos depois de iniciar na profissão. Comecei a sentir pânico ao sair de casa. Já estava ficando sem dormir,ruminando situações de forma excessiva. Não era só um dia difícil; meu cérebro estava sendo constantemente bombardeado. Percebi que estava em um estado de ansiedade muito alto e comecei a tomar medicações. Hoje,estou à base de remédios. Tentei ficar sem,mas no momento só conseguia dar aula medicada.
Essa turma do 8º ano onde o caso aconteceu,eu não avaliava como uma sala diferente ou que desse mais problemas do que outras. O embate era sobre não cumprirem atividades e fazerem bagunça. Nunca havia tido um conflito a ponto de gerar humilhação ou algo mais grave. Da mesma forma,com os três meninos envolvidos,não havia atrito. Eu apenas cobrava as entregas. Foi uma surpresa muito grande essa atitude deles. Tem alunos que eu até esperaria que fizessem algo,mas desse que fez,eu não esperava.
Naquela aula,planejei uma atividade sobre o sistema sanguíneo. Chamei cerca de seis alunos para sentarem bem na minha frente,pois eles não tinham entregado um trabalho há praticamente um mês. Eu estava dando mais uma chance para a nota deles,que estava baixa. Enquanto eles faziam a tarefa,comecei a montar um microscópio na minha mesa. Tirei uma gotinha de sangue e comecei a preparar a lâmina. A primeira e a segunda não deram certo.
Meu copo de água estava vazio,mas tinha uma gotinha no fundo. Usei essa água para limpar as lâminas de vidro que estavam embaçadas. Uma delas quebrou na minha mão,e eu a deixei no cantinho,certa de que ninguém ia mexer ali. Então,pedi para um dos alunos ir buscar água para mim naquele copo. Nesse momento que eu estava focada no microscópio,por uns 30 segundos,perdi a visão da turma.
Depois que o aluno voltou com o copo,o clima estava estranho. Começaram a me falar: 'Professora,não é muito seguro você beber essa água'. Eu nem imaginei o que era. Pensei: alguém cuspiu? Jogaram um cabelo? Quando perguntei o que tinham colocado,alguém respondeu: 'Um vidro'.
Perguntei quem tinha sido e eles não falaram. Peguei o copo,fui até a direção,pedi para acessarem a câmera e avisei que faria um boletim de ocorrência. Quando voltei para a sala e falei isso,eles ficaram em silêncio. Nisso,comecei a refletir e a chorar. Eu chorava desesperadamente. O que eu estava fazendo ali? Por que estava passando por isso? Fiquei com um sentimento de desesperança e pensei: 'Eu não dou conta,tenho que ir embora daqui.' Entrei em desespero.
Dez minutos depois,veio outra turma. Eu ainda estava aos prantos. Uma professora viu meu estado,avisou a diretora,que me substituiu e mandou eu beber água e lavar o rosto. Falei que precisava sair,ir ao médico,fazer o boletim de ocorrência e abrir uma CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) devido ao colapso nervoso. Naquele momento,o estresse se configurou como um acidente de trabalho.
Na saída,o menino que colocou o vidro veio falar comigo: 'Professora,fui eu'. Ele tentou explicar,mas eu não quis conversar. Fiquei muito decepcionada porque tinha acolhido ele uma semana antes,quando ele estava mal. Só depois fui saber toda a história: um deu a ideia,ele colocou,e outro acobertou tudo na minha frente.
Como eles não têm a dimensão de que isso foi uma violência,e não uma brincadeira,eu tive que registrar o B.O.. Eles precisam entender a consequência de uma tentativa de violência física. Não imaginei que seriam presos — quando surgiu esse boato,chorei,porque a última coisa que a gente quer é ver um aluno preso,seria o atestado de que tudo falhou. Mas foi difícil,tive que ter coragem.
Quando ainda estava no hospital,senti que precisava fazer um desabafo. Fiz um vídeo que repercutiu muito. Eu estava muito mal,mas muita gente veio me apoiar. Vários ex-alunos mandaram mensagens,e muitas escolas em outros estados fizeram manifestações em apoio. Acabei virando uma porta-voz. Ouvi relatos absurdos de professores: agressões físicas,quedas causadas por portas batidas de propósito e até outros cinco casos de envenenamento. É o apagamento dos professores acontecendo.
Após o episódio,a prefeitura ofereceu uma transferência,mas estou pensando muito. Meu maior medo é passar mal de novo. Se eu voltar,terei que lidar novamente com a sensação de não ter o controle da sala e enfrentar os mesmos gatilhos de desrespeito. Abandonar a sala de aula é uma opção em que vou pensar; não gostaria,mas preciso planejar minha saída,pois estou com muito medo de passar por isso outra vez. Nenhuma terapia vai me preparar para aguentar tanto rojão.
Em todo esse processo,chama atenção a ausência das famílias. A gente faz reunião,e muitos não vão. Não olham cadernos,não buscam boletins. A falta de respaldo empodera as crianças a nos violentarem. O que eu clamo ao poder público,urgentemente,é um mapeamento dessa situação. Sem dados,não se faz política pública. O psicólogo da escola não dá conta de ações coletivas,está sobrecarregado com as tragédias diárias de alguns alunos.
Do trauma e violência,o que eu tiro como lição é que o que faz a gente sofrer tem que ser dito. Nós,professores,estamos acostumados a relevar,a não denunciar,a seguir em frente em prol da missão,mas não pode ser assim. Ninguém merece passar por esse nível de sofrimento. E expor tudo isso ensina sobre saúde mental. Exercemos uma profissão que precisa ser devidamente valorizada e olhada com mais respeito. Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro,que passou pelas nossas escolas. Mas e a gente? Quem cuida de quem cuida das nossas crianças?"
* Em depoimento ao repórter Filipe Vidon