Contate-nos
Notícias do hotel

Os (poucos) 45 dias que decidem o Brasil

Aug 12, 2026 IDOPRESS

Cerimônia de lacração das urnas eletrônicas — Foto: Cristiano Mariz

Todo ciclo eleitoral brasileiro carrega o mesmo paradoxo: escolhemos quem vai administrar bilhões em orçamento público,definir políticas de segurança,saúde e educação para 215 milhões de pessoas,e o fazemos depois de um debate público oficial que dura,na prática,45 dias. É o tempo que a legislação eleitoral reserva para a propaganda nas ruas antes do primeiro turno,um intervalo que,comparado ao de outras democracias relevantes,é curto até para os padrões de um país que historicamente prefere resolver tudo em cima da hora.

Mauricio Moura: Minas,o espelho da eleiçãoEleições 2026: Após crise,Michelle e Flávio têm reencontro ‘leve’,oram e gravam juntos: os bastidores do evento

Não foi sempre assim. Até a minirreforma de 2015,a campanha oficial durava 90 dias. A justificativa para o corte foi legítima: reduzir custos,atenuar o desgaste institucional e coibir o abuso do poder econômico e de máquina. Só que a reforma resolveu um problema e criou outro: comprimiu radicalmente o tempo em que o eleitor tem contato formal,regulado e comparável entre propostas de governo,plataformas partidárias e planos de governo. Trocamos excesso de abusos por escassez de deliberação. E muitas vezes mantivemos ou ampliamos certos abusos.

Um sistema bastante diferente de outras democracias. Nos EUA,o processo eleitoral presidencial é extenso mesmo quando se conta apenas a fase pós-convenções: a campanha geral de 2024,por exemplo,se estendeu por cerca de dois meses e meio até a véspera da votação. Sem contar as prévias. No Reino Unido,o debate é contínuo já que primeiro-ministro e oposição disputam a opinião pública semana a semana no Parlamento. Nas recentes disputas presidenciais de Peru e Colômbia,as campanhas duraram meses. Na Argentina,teremos prévias e dois turnos durante todo o segundo semestre de 2027.

O ponto comum entre esses sistemas não é necessariamente “mais dias de propaganda”,mas sim mais tempo de exposição pública organizada: debates,escrutínio parlamentar,cobertura jornalística estruturada antes de o eleitor precisar decidir.

Um constante comportamento eleitoral se repete a cada ciclo: o eleitor brasileiro é primeiro exposto a uma avalanche de informação sobre eleição nacional. O volume de cobertura da presidencial é exponencialmente maior. Depois,se engaja na disputa dos governos estaduais,e por último nos pleitos legislativos. Desde 2018,esse processo todo se reduziu pela metade criando inúmeros desafios cognitivos na opinião pública. Não por desinteresse,mas porque o sistema simplesmente não lhe dá tempo hábil para digerir informação,comparar propostas e formar convicção.

O resultado,principalmente nas escolhas legislativas,é um eleitorado mais suscetível a atalhos cognitivos: recall,heurísticas de simpatia,polarização afetiva,viralização de conteúdo emocional e,cada vez mais,desinformação. E,claro,quando o tempo de deliberação encolhe,favorece fortemente quem já está no poder. A dimensão da importância do Congresso versus o tempo que o eleitor brasileiro se dedica a tal é extremamente desproporcional. E distorce inúmeros parâmetros democráticos.

No Brasil,especialmente parlamentares,quem já tem estrutura de comunicação digital ou cargo público consolidado debate o ano inteiro; quem depende do horário eleitoral formal ou de menor musculatura institucional tem,de fato,45 dias. E aí tem suas chances muito mais limitadas.

Em resumo,45 dias é pouco. Enquanto os congressistas discutirem minirreformas eleitorais a cada dois anos sem tocar nesse ponto,o Brasil continuará repetindo o mesmo ritual: um eleitorado que decide na última hora,decisões de governo com mandato frágil de legitimidade deliberativa,e um debate público que se resume,a 45 dias para escolher os próximos quatro anos do país.