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‘Boom’ da inteligência artificial na China amplia desigualdade econômica entre as cidades do país

Jul 31, 2026 IDOPRESS

Braços robóticos operam na linha de produção da unidade fabril da Fuyao Glass Industry Group em Hefei,na China — Foto: Qilai Shen/Bloomberg

Em Hefei,coração da indústria chinesa de chips de memória,as fábricas mal conseguem atender à demanda mundial por hardware para inteligência artificial (IA).

Em Changchun,polo industrial do nordeste conhecido pela produção de carros movidos a gasolina,autoridades admitiram enfrentar dificuldades “sem precedentes” — expressão que depois foi retirada do comunicado após chamar atenção nas redes sociais.

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As duas cidades retratam a economia de duas velocidades que surge com o boom global da inteligência artificial. Um pequeno grupo de polos tecnológicos respondeu pela maior fatia do crescimento da China em pelo menos duas décadas no primeiro semestre,segundo a Nomura Holdings,enquanto o restante do país desacelerou para o limite inferior da meta de crescimento estabelecida por Pequim para o ano.

No epicentro da transformação impulsionada pela IA na China estão cidades como Hefei,capital da província oriental de Anhui e sede da fabricante de chips de memória CXMT. Mas,mesmo nesses polos em expansão,pouco desse ganho chega às famílias.

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As vendas no varejo estão em queda em várias dessas cidades,prejudicadas pela automação e pelo uso de mão de obra temporária nas próprias fábricas que sustentam o avanço.

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“Os frutos do crescimento impulsionado pela IA são colhidos principalmente por algumas cidades "inteligentes",afirmaram os economistas Jing Wang e Ting Lu,da Nomura,em relatório publicado na quarta-feira. Como isso “dificilmente compensará os crescentes obstáculos ao crescimento no restante do país,acreditamos que Pequim provavelmente intensificará os esforços de estímulo no segundo semestre”.

Pessoas circulam por um dos muitos mercados de eletrônicos em Shenzhen,na China — Foto: Qilai Shen/The New York Times

O desempenho extraordinário evidencia tanto o potencial quanto os riscos da inteligência artificial para o crescimento econômico,sobretudo à medida que regiões dependentes de indústrias tradicionais perdem espaço rapidamente e a prolongada crise do setor imobiliário permanece sem solução.

Para a China,o peso desproporcional assumido por um grupo restrito de cidades para impulsionar a economia do país também representa um risco,à medida que importantes parceiros comerciais,como os EUA,restringem as importações de tecnologia e equipamentos avançados.

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Impulsionada pela onda global de investimentos em inteligência artificial no primeiro semestre,a média ponderada de crescimento do PIB das sete cidades classificadas como “inteligentes” pela Nomura — entre elas Pequim,Xangai e Shenzhen — acelerou para 5,6%.

Juntas,essas cidades — que também incluem Suzhou,Hangzhou,Hefei e Wuhan — responderam por um quinto da expansão nacional nos seis primeiros meses do ano,segundo a Nomura. No restante da China,o crescimento desacelerou para 4,5%.

China está promovendo a inteligência artificial como uma indústria estratégica,investindo pesadamente em novas tecnologias — Foto: Qilai Shen/Bloomberg

A ampliação dessa divisão pode dificultar a resposta das autoridades chinesas. Em reunião do Politburo do Partido Comunista realizada ontem,os principais dirigentes sinalizaram uma abordagem moderada diante da desaceleração da economia em geral,sem anunciar novas medidas de estímulo.

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De forma ainda mais preocupante,até mesmo as cidades que mais cresceram tiveram dificuldade para reaquecer a demanda do consumidor,refletindo os desafios enfrentados pela maior parte da China.

A disseminação da automação e a maior dependência de trabalhadores temporários na indústria eletrônica fazem com que a economia voltada ao consumo continue sem mostrar melhora em relação ao cenário observado desde o início da queda dos preços dos imóveis,há cerca de cinco anos.

A situação se repete em toda a Ásia,onde os benefícios da nova onda de riqueza mal chegam às famílias. Segundo os dados oficiais mais recentes,o setor emprega apenas 10 milhões de pessoas na China,o equivalente a 9% da força de trabalho industrial do país.

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“A Ásia foi a maior beneficiária do boom da IA,mas os ganhos em grande parte não chegaram às famílias”,afirmou Alexandra Hermann Prasad,economista-chefe para a região na Oxford Economics,em relatório. “Os ganhos do boom da IA ficaram concentrados de forma desproporcional no capital,e não no trabalho.”

Robô policial utilizado no controle do trânsito em Hangzhou atua em cruzamentos da cidade chinesa com apoio de inteligência artificial e integração aos semáforos urbanos — Foto: Reprodução

Enquanto isso,a disparada da demanda global por chips e outros componentes eletrônicos necessários para a construção de data centers impulsiona megaofertas públicas de ações e permite que a indústria de semicondutores registre um salto de 2.580% nos lucros neste ano.

Em Hefei,a economia cresceu 6,8% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano anterior,segundo dados regionais divulgados neste mês,acima da expansão de 6,1% registrada em todo o ano de 2025.

A produção industrial avançou 26% nos seis primeiros meses,ritmo inédito nos últimos anos,afirmou o departamento de estatísticas da cidade,enquanto a produção do setor eletrônico disparou 93%.

Shenzhen,o polo tecnológico vizinho a Hong Kong,registrou crescimento de 5,8% do PIB. Logo atrás veio Wuhan,conhecida pela fabricação de chips de memória e componentes ópticos usados em centros de dados de IA,cuja economia avançou 5,7%,enquanto a produção de eletrônicos disparou 91%.

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Em Suzhou,polo industrial próximo de Xangai que abriga as principais operações da fabricante de módulos ópticos Zhongji Innolight,o PIB cresceu 5,6% e as exportações de chips saltaram 188%.

Já as regiões que ficaram para trás ampliam ainda mais a distância. Talvez em nenhum lugar esse contraste seja tão evidente quanto em Changchun,cidade dependente da fabricação de veículos movidos a gasolina,cujo crescimento desacelerou para apenas 1,6%,ante 4,9% registrados em todo o ano de 2025.

Além de Changchun,diversas outras economias regionais enfrentam dificuldades neste ano. A província central de Hunan,afetada pela desaceleração de indústrias tradicionais,como a petroquímica,registrou crescimento de 2,7% do PIB,enquanto sua capital,Changsha,avançou apenas 2,5%.

No oeste do país,a província de Shanxi,importante polo de mineração de carvão,cresceu somente 2,1%,após a explosão em uma mina,a mais letal desde 2009,provocar uma forte queda da produção.

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A concentração dos benefícios econômicos em torno de cidades como Hefei e Wuhan pode se tornar ainda mais intensa à medida que uma série de empresas em forte expansão,originárias dessas regiões,gera bilhões de dólares no mercado acionário.

A CXMT,que acaba de concluir a segunda maior oferta pública inicial de ações da história da China,proporcionou um ganho extraordinário de US$ 192 bilhões à província de Anhui,que detém uma participação de cerca de 40% na fabricante de chips DRAM,segundo cálculos da Bloomberg. Diversas outras ofertas públicas iniciais estão em preparação.

As disparidades econômicas estão se tornando mais acentuadas. Um exemplo é Changchun,pressionado polo de fabricação de automóveis localizado no nordeste da China.

À medida que o choque global do petróleo atingiu em cheio seu principal setor e as vendas de veículos no mercado doméstico despencaram,a cidade tornou-se um exemplo das dificuldades enfrentadas por muitas economias locais que demoraram a migrar para os novos setores que hoje impulsionam o crescimento da China.

A produção industrial de Changchun recuou 4,4% nos primeiros cinco meses deste ano em relação ao mesmo período do ano anterior,após crescer 6,2% em todo o ano de 2025. O setor automotivo responde por cerca de 60% da produção industrial da cidade.

Com a pressão sobre a economia se intensificando,o governo local fez neste mês uma rara admissão pública de que enfrenta dificuldades.

Embora essa expressão — e a maior parte das reportagens que a destacavam — tenha sido rapidamente removida de sites e redes sociais da China continental,um texto resumindo a reunião conduzida pela principal autoridade da cidade continua disponível no Sing Tao Daily,de Hong Kong,e no jornal em língua chinesa Lianhe Zaobao,de Cingapura.

Procurada pela Bloomberg para comentar o caso,a assessoria de imprensa do governo de Changchun não atendeu às ligações.

O trecho que permaneceu na nota deixa claro que o tempo está se esgotando.

Ao responder aos “desafios maiores do que o esperado”,as autoridades afirmaram que vão “fazer do desenvolvimento econômico a tarefa central e a principal prioridade,envidar todos os esforços e enfrentar os desafios de frente”.