
Agressões contra mulheres aumentam em dias de jogo de futebol,aponta estudo — Foto: Arte O Globo
Se confrontos entre torcidas e episódios de agressão nas arquibancadas e nos arredores dos estádios estão há anos no radar de autoridades,clubes e entidades esportivas,outra violência cresce de forma menos visível em dias de jogos de futebol. Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) identificou aumento nos registros de violência contra mulheres: as agressões sobem 28,8% e as ameaças,27,4%. O levantamento cruzou registros policiais com o calendário das principais competições de clubes brasileiros entre 2023 e 2025.
Brasil: AGU recebe proposta do Discord e avalia acordo para reforçar proteção de crianças e adolescentesAbalos sísmicos no Brasil: país registrou 416 tremores de terra nos últimos 12 meses
O estudo analisou dados de São Paulo,Rio de Janeiro,Belo Horizonte,Salvador e Porto Alegre,obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). As informações foram relacionadas às datas de partidas envolvendo todos os clubes do Campeonato Brasileiro,da Libertadores da América e da Copa Sul-Americana.
— A diferença estatística que estamos mostrando é altamente significativa — afirma Daniel Cerqueira,pesquisador do FBSP e coautor do estudo,divulgado ontem. — Isso não é uma coincidência,é algo que acontece.
Mais de um terço dos registros de lesão corporal considerados na pesquisa ocorreu dentro da residência das vítimas. O dado desloca a discussão sobre violência no futebol para além das arquibancadas: parte do problema aparece depois que a partida termina,no ambiente doméstico.
Continuar Lendo
— Esse é um tipo de violência que tem recrudescido e alcançado as mulheres jovens,especialmente,e num lugar especial: dentro de casa — diz Juliana Brandão,pesquisadora do FBSP e uma das autoras do trabalho.
Esta é a segunda vez que o fórum investiga a relação entre partidas de futebol e violência contra mulheres. A nova análise aponta intensificação do problema em relação ao período de 2015 a 2018,quando os registros de ameaça aumentavam 23,7%,e os de agressão,20,8%,em dias de jogos.
“Enquanto o futebol se consolidou como expressão máxima da identidade nacional,permeando todas as camadas sociais,centenas de milhares de mulheres brasileiras enfrentam violência doméstica todos os anos,e existe uma conexão entre esses dois fenômenos que permanecia invisível na literatura acadêmica brasileira”,escrevem os pesquisadores.
Para o ex-jogador Raí,a violência observada em torno do futebol não pode ser dissociada de comportamentos presentes na própria sociedade.
— O futebol é o reflexo da sociedade. Quando a gente vê racismo e quando a gente vê a violência,e no caso de gênero,esse é um reflexo piorado — opina. — E isso é só um aspecto da questão,sem falar na dificuldade enfrentada pelas meninas que querem jogar futebol e da violência nos estádios,que é um espaço hostil para as mulheres.
Os pesquisadores fazem uma ressalva: a análise não investigou estatisticamente a motivação dos agressores. Portanto,os dados não permitem afirmar que uma partida tenha provocado determinada agressão.
A relação observada é discutida pelos autores a partir de elementos culturais associados ao esporte. Rivalidade,virilidade,dominação e competição são apontadas como características que podem reafirmar estruturas de poder masculino e atravessar outros fatores relacionados à violência.
“O futebol não causa a violência doméstica. Mas deixa à mostra as dinâmicas violentas de quem já vive nela”,escrevem Brandão e os coautores.
A frustração com resultados negativos ou inesperados é citada como um dos elementos que podem intensificar comportamentos agressivos. Os pesquisadores descrevem o que acontece depois do jogo como uma espécie de prolongamento da partida dentro de casa.
“Isso faz com que,em dia de jogo,dentro de casa,se vivencie um terceiro tempo — o da violência contra as mulheres,que transborda para o espaço doméstico”,afirmam.
Mulheres entre 15 e 29 anos aparecem como mais expostas à elevação dos registros de agressão e ameaça. Outro resultado chamou a atenção: o crescimento das agressões foi maior entre mulheres brancas,de 30,9%,do que entre mulheres negras,de 23,2%.
— Nós ficamos pensando no que pode estar acontecendo,porque em outras pesquisas sobre violência,em todas as modalidades que estudamos,as negras sofrem mais que as brancas — frisa Brandão. — Uma coisa que nos perguntamos é: a mulher negra está em casa quando o jogo está rolando? Talvez não. A gente supõe que a realidade seja diferente nesse recorte racial.
Cerqueira aponta outra hipótese: mulheres negras podem estar menos propensas a registrar episódios de violência por estarem submetidas a uma pressão maior para não denunciar.
Para Juliana Brandão,torna-se mais difícil combater agressões de gênero ligadas ao ambiente de torcida porque muitos homens normalizaram essa atitude e a consideram “perdoável”:
— No ambiente do futebol existe a naturalização de uma masculinidade que opera pela violência. Pelo lugar que esse homem ocupa,ele acredita que tem um salvo-conduto para subjugar a mulher e impor o seu ponto de vista,ameaçar,bater,agredir,sem que isso tenha consequência jurídica. Depois que o apito final rola,atrás da porta,essa mulher suporta a proliferação de uma masculinidade que não dá espaço para uma relação saudável.
A partir dos resultados,o FBSP apresentou recomendações ao poder público,à sociedade civil e ao setor esportivo. Entre elas estão a criação de postos de denúncia dentro dos estádios e campanhas de educação sobre masculinidade tóxica,com iniciativas voltadas ao desenvolvimento socioemocional de jovens torcedores.
O grupo também propõe punições para atletas envolvidos em casos de agressão contra mulheres,incluindo o banimento dos condenados,e o afastamento de integrantes de torcidas condenados por violência doméstica.
Outra sugestão é desestimular o consumo de bebidas alcoólicas em estádios e ambientes de torcida onde a violência possa ocorrer. Os pesquisadores também citam as apostas esportivas como um elemento que pode ampliar frustrações associadas a comportamentos violentos.