
Participantes reúnem-se no evento 'Code W/ Claude',da Anthropic,em São Francisco. O Departamento de Comércio dos EUA suspendeu as restrições a todos os modelos de inteligência artificial da Anthropic,permitindo que a empresa reativasse suas tecnologias de IA mais poderosas — Foto: Jason Henry/The New York Times
Sou hipocondríaco não diagnosticado. Desde criança,sei o nome de diversos remédios e suas funções,até porque esse meu traço foi herdado dos meus pais. Sempre viajei com vários tipos de remédios,tentando me proteger de qualquer patógeno que pudesse atravessar o meu roteiro. Por muitos anos,o Dr. Google foi meu companheiro (e que,por vezes,alimentou a minha ansiedade). Qualquer sintoma virava pesquisa,e as respostas nunca eram tranquilizadoras. A morte era quase iminente.
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Presenciamos uma grande mudança com as ferramentas de inteligência artificial. Elas são capazes de responder a qualquer pergunta sobre a minha saúde. Analisar exames,avaliar sintomas e até trazer recomendações. O problema: elas aparentam saber demais e,para quem busca ter o controle de tudo,isso pode ser perigoso e induzir a erros. O Google antes vinha com várias opções de resposta e possíveis divergências. Agora,recebemos uma resposta pronta e cheia de confiança.
E isso não se restringe a temas de saúde. Um dos problemas que venho percebendo é o uso quase instintivo de dar um novo comando para tentar buscar qualquer tipo de informação. Mas será que precisamos “saber tudo” a todo momento? Será que preciso saber quantos cachorros existem em São Paulo ou quantos grãos de arroz cabem em uma panela? A dúvida não vale mais nada?
Na verdade,estamos falando de uma sensação de saber,porque passamos a avaliar mal a nossa própria capacidade de absorver um conteúdo. O fato de uma informação estar disponível facilmente a partir de uma rápida pergunta não significa que eu tenho o conhecimento daquilo ou que consegui registrar as informações do que pesquisei. Perde-se,ainda,o esforço de procurar,comparar e até de duvidar dos próprios achados.
Fiz uma pergunta para o Claude,um dos modelos que oferecem respostas: “Você sabe tudo?” A resposta: “Não.” Continuei: “Então por que há resposta para tudo?” “Gerar uma resposta é o comportamento padrão (...) Consigo escrever com a mesma segurança algo verificável e algo inventado.” Ou seja,não só estamos com uma sensação inflada de conhecimento,como podemos estar consumindo informações equivocadas.
Até porque as consequências são sérias: ansiedade,disseminação de informações falsas,tomada de decisões sem respaldo adequado... Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia concluiu que participantes que recorreram à inteligência artificial demonstraram uma compreensão mais superficial do conteúdo do que aqueles que fizeram uma pesquisa tradicional. Sei mais nomes de doenças e sintomas do que nunca,mas continuo sem saber muito sobre o meu corpo.
A inteligência artificial já faz parte da realidade e não sei se vou deixar de fazer as minhas perguntas hipocondríacas para uma tela. Se a sua presença é irreversível,o que sobra é desconfiar,até porque uma informação não se torna verdadeira só pelo seu tom seguro.
No fim,tenho tentado ficar com mais dúvidas e evitar o impulso automático de fazer perguntas. Mas uma coisa é certa: continuo viajando com minha mala cheia de remédios.