
Nora Ney em vara criminal onde correu processo de tentativa de homicídio que sofreu — Foto: Arquivo O GLOBO/9-9-1953
Além do sucesso no samba-canção,a cantora foi pioneira ao registrar a primeira gravação de Tom Jobim,em 1954: "Solidão",parceria com Alcides Fernandes Após se unir ao cantor Jorge Goulart,Nora Ney intensificou sua militância política de esquerda,o que levou à sua demissão da Rádio Nacional e ao exílio após o golpe militar de 1964. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Há 25 anos,Raphael Fernandes Lopes Farias escutou Maysa (1936-1977) na abertura da minissérie “Presença de Anita”,na TV Globo,e se apaixonou por aquela voz. Na busca de mais informações sobre a autora de “Meu mundo caiu”,chegou a outra grande intérprete de sambas-canção: Nora Ney (1922-2003). O encantamento,transformado em devoção,desembocou em “Dossiê Nora Ney: Uma voz poética e política,100 anos” (Garota FM Books),que será lançado hoje,às 19h,na Livraria da Travessa,em Ipanema.
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O músico e professor paulista é o organizador do livro,que tem mais oito autores. Diante do pouco material que encontrou com a família de Nora – inclusive com a filha,Vera Lúcia –,Raphael avaliou que não conseguiria fazer uma biografia.
– Pensamos: “Vamos dividir isso aqui,para as pessoas poderem pegar suas áreas de expertise e,a partir da documentação que encontrarem,fazerem um levantamento. Uma biografia linear seria um sonho,mas não sei se ficaria fiel,devido às parcas possibilidades – acredita.
Ele usa a primeira pessoal do plural porque há outros fãs de Nora envolvidos,ambos entre os autores do livro. Com Rodrigo Vicente Rodrigues,criou em 2018 páginas dedicadas à cantora no Instagram e no Facebook. Com Daniel Saraiva,dividiu as inquietações sobre como montar o projeto.
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O “Dossiê” é um passo a mais na bibliografia sobre a artista,que foi tema em 1995 de uma obra do historiador Alcir Lenharo: “Cantores do rádio: A trajetória de Nora Ney e Jorge Goulart e o meio artístico de seu tempo”.
Raphael diz que a voz macia,sem vibratos,de Nora foi o que chamou sua atenção,mas admite que a vida atribulada da cantora aumentou muito o seu interesse.
Nascida em Olaria,na Zona Norte carioca,Iracema de Sousa Ferreira – que viria a adotar o codinome Nora Ney na vida profissional – suspendeu sua vocação artística aos 20 anos,quando se casou com Cleido Queiroz Maia. Voltou a cantar aos 29,até para sustentar os dois filhos,porque o marido vivia de bicos. Em maio de 1952,lançou seu primeiro disco em 78 rotações por minuto,que continha “Menino grande” (Antonio Maria),gravação marcante.
Dois meses depois,Cleido encostou uma faca no pescoço da esposa e a obrigou a engolir 30 comprimidos de tranquilizante. Ela sobreviveu.
– Embora fosse na época um homem de esquerda,era o que a gente chamaria hoje de esquerdomacho,porque não gostou nem um pouco da mulher trabalhando fora,sustentando a casa. E isso culminou na tentativa de feminicídio – diz Raphael.
A informação da inclinação política é relevante porque o marido deve ter influenciado para que Nora se interessasse por ideias de esquerda e se filiasse ao Partido Comunista Brasileiro.
– Acredito que a politização e a personalidade forte foram os combustíveis para que ela não sucumbisse à violência do marido e às imposições da época. Ela entendia que a mulher precisava ter voz ativa sobre seus desejos – afirma Raphael.
Depois que se desquitou de Cleido e se uniu ao cantor Jorge Goulart – embora este tenha demorado muito a se separar da primeira mulher –,Nora passou a ter atuação política mais relevante. Cantaram na União Soviética e na China. Com o golpe de 1964,foram demitidos da Rádio Nacional e tiveram que passar temporadas no exterior.
– Nora teve apenas oito anos de carreira importante – destaca o jornalista e pesquisador Rodrigo Faour,grande conhecedor da era do rádio. – Depois,foi meio que aposentada. Não só por questões políticas. A estética da Nora ficou ultrapassada,porque os anos 60 vieram com um excesso de novidades,e ela foi ficando para trás. Não só por causa da bossa nova,mas porque houve rock,MPB,tropicalismo.
O maior sucesso da cantora foi “Ninguém me ama” (Antonio Maria e Fernando Lobo),samba-canção para lá de triste,gravado em 1952.
– Nos anos seguintes,essa música ficou sendo o hino do que não se podia fazer – ressalta Raphael. – Era um Brasil em que estavam despontando movimentos jovens,como a bossa nova. O Brasil estava querendo ser o país do futuro.
Outra marca de Nora foi ter lançado o primeiro rock no país,em 1955: “Ronda das horas”,em que,apesar do título,ela cantava em inglês,língua original da música.
Mas a verdadeira Nora era a de canções sofridas como “De cigarro em cigarro”,“Preconceito” e “Bar da noite”.
– Por mais que a voz dela caísse mais para músicas de tristeza amorosa,de autocomiseração,a forma de cantar e o repertório eram mais ligados aos autores modernos – aponta Faour,lembrando que ela foi a primeira a gravar Tom Jobim: “Solidão” (com Alcides Fernandes),em 1954.
Os outros autores do “Dossiê”,além dos citados,são Yuri Behr,Chris Fuscaldo,Rita Gottardi van Opstal,Kamille Viola,Márcia Carvalho e André Domingues dos Santos.