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Cessar-fogo oferece a EUA e Irã uma declaração de vitória, mas fim do conflito está mais distante do que ambos desejam

Apr 8, 2026 IDOPRESS
Prédio da Universidade Sharif,em Teerã,após ataque dos EUA e Israel — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times

Prédio da Universidade Sharif,em Teerã,após ataque dos EUA e Israel — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times

RESUMO

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GERADO EM: 07/04/2026 - 21:10

Cessar-fogo entre EUA,Irã e Israel: pausa nas hostilidades mediada pelo Paquistão

O cessar-fogo anunciado por Donald Trump entre EUA,Irã e Israel,mediado pelo Paquistão,oferece uma pausa nas hostilidades e a oportunidade de negociações de paz,apesar de suas ameaças anteriores de genocídio contra o Irã. Especialistas criticaram as declarações de Trump como crimes de guerra,enquanto a Anistia Internacional e líderes globais expressaram preocupação. A situação permanece tensa com ambos os lados sob pressão,mas o acordo temporário foi visto como uma vitória parcial para ambos.

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A menos de duas horas do fim do prazo dado para que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz,o presidente dos EUA,Donald Trump,anunciou um cessar-fogo de duas semanas,apoiado também por Teerã e Israel,e que negociações para um acordo mais amplo estão em curso. O discurso pacifista contrasta com suas declarações do começo do dia,quando afirmou que “toda uma civilização morrerá esta noite" caso os iranianos não atendessem suas demandas. A fala encontrou pouco apoio mesmo entre aliados,foi uma escalada poucas vezes vista em tempos modernos,e especialistas a consideram um crime de guerra por si só.

"Com base nas conversas com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o marechal de campo Asim Munir,do Paquistão,nas quais me solicitaram que suspendesse o envio de forças destrutivas ao Irã esta noite (terça-feira),e desde que a República Islâmica do Irã concorde com a ABERTURA COMPLETA,IMEDIATA e SEGURA do Estreito de Ormuz,concordo em suspender o bombardeio e o ataque ao Irã por um período de duas semanas",escreveu Trump na rede social Truth Social.

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Pouco depois,o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã confirmou o acordo,e o chanceler,Abbas Araghchi,disse que a retomada da navegação por Ormuz acontecerá se os bombardeios forem suspensos,e mediante "coordenação com as Forças Armadas do Irã e levando em consideração as limitações técnicas". Negociações de paz mais amplas estão marcadas para sexta-feira,e embora as demandas sejam amplas e apontem para um caminho longo até o fim da guerra— no plano de 10 pontos dos iranianos,eles exigem o fim de todas as sanções aplicadas desde o início do século —,a pausa nos combates deu aos dois lados uma vitória para chamar de sua.

"Em nome dos Estados Unidos da América,como presidente,e também representando os países do Oriente Médio,é uma honra ver este problema de longa data próximo de ser resolvido",declarou Trump.

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Mas a aura de "presidente da paz" do início da noite não poderia estar mais distante de suas palavras do início do dia.

“Uma civilização inteira morrerá esta noite,para nunca mais voltar. Eu não quero que isso aconteça,mas provavelmente acontecerá”,escreveu Trump,se referindo ao ultimato sobre Ormuz.

No fim de semana,ele estipulou que,até terça-feira,21h pelo horário de Brasília,o estreito deveria ser aberto incondicionalmente pelos iranianos. Era o prazo final de um de seus ultimatos para a retomada do tráfego naval pela passagem,interrompido no início do mês passado. Na segunda-feira,influenciado pelas negativas jocosas de Teerã,afirmou que atacaria as usinas elétricas e as pontes do país. No mesmo dia,enquanto participava de atividades ao lado de crianças e do Coelho da Páscoa na Casa Branca,disse não se preocupar se violaria as leis da guerra.

Presidente dos EUA,durante evento de Páscoa na Casa Branca — Foto: SAUL LOEB / AFP

Desde o início do conflito,Israel,EUA e Irã atingiram dezenas de infraestruturas civis ao redor do Oriente Médio,de instalações petrolíferas até pontes,embora garantam que seus objetivos são puramente militares. Mas a promessa de Trump de “acabar com uma civilização” cruzou uma linha: a de que ele passa a considerar os civis e os meios para sua sobrevivência alvos legítimos.

“A ameaça de extermínio e destruição irreparável feita pelo presidente dos EUA viola flagrantemente princípios fundamentais do direito internacional humanitário,com consequências potencialmente catastróficas para mais de 90 milhões de pessoas”,escreveu,em comunicado,a secretária-geral da Anistia Internacional,Agnès Callamard.

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Volker Turk,alto comissário para os direitos humanos da ONU,chamou de repugnantes as “as recentes ameaças de aniquilar toda uma civilização e de atacar infraestruturas civis”,e que “levar adiante tais ameaças configura os mais graves crimes internacionais”. Giorgia Meloni,premier italiana,condenou os ataques do Irã no Golfo,mas disse que os civis iranianos “não podem pagar o preço pelos feitos de seu governo”. O Papa Leão XIV chamou a ameaça de “verdadeiramente inaceitável”,e o chanceler francês,Jean-Noel Barrot,disse esperar que o republicano não cumpra sua promessa. Na véspera,António Guterres,secretário-geral da ONU,se declarou “alarmado”.

Bandeira iraniana é colocada junto aos escombros de um prédio que desabou após ataques à Universidade de Tecnologia Sharif,em Teerã — Foto: Atta Kenare/AFP

A Convenção para a Prevenção do Crime de Genocídio,de 1951,diz em seu Artigo 3º que a incitação,a tentativa e a cumplicidade para cometer o ato de genocídio são crimes. O Estatuto de Roma,do qual os EUA não são signatários,vai na mesma linha.

— O Artigo 6º do Estatuto de Roma é claro ao afirmar que entende-se por “genocídio”,qualquer um dos atos que a seguir se enumeram,praticado com intenção de destruir,no todo ou em parte,um grupo nacional,étnico,racial ou religioso,enquanto tal: ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo — disse ao GLOBO Raquel Guerra,advogada e professora de Direito Internacional. — Ele se combina com o Artigo 25º (responsabilidade criminal individual) no caso de crime de genocídio na incitação,direta e publica,à sua prática

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Mas há brechas. Ataques contra pontes,usinas elétricas e fábricas podem ser justificados sob alegação de que esses locais são usados para fins civis e militares — a argumentação é similar à das sanções que impedem,há décadas,que o Irã adquira aeronaves civis e peças por meios legais.

Ilha Kharg: entenda relevância estratégica de polo petrolífero iraniano que foi alvo de bombardeio dos EUA no Golfo Pérsico — Foto: Agência Espacial Europeia via AFP

Nas horas que antecederam o ultimato,os EUA voltaram a bombardear instalações militares na Ilha de Kharg,principal terminal petrolífero iraniano e apontada como possível cenário para uma operação terrestre. Os israelenses atacaram pontes e emitiram um alerta para que os civis evitassem viajar de trem ou ir às estações. A Agência Internacional de Energia Atômica afirmou que projéteis caíram a menos de 80 metros da estrutura central da central nuclear de Bushehr,e a Organização Mundial da Saúde alerta para o risco de um “acidente radiológico grave”.

Entrada da central nuclear de Bushehr,no Irã — Foto: ATTA KENARE / AFP

As lideranças iranianas não soaram abaladas. O presidente Masoud Pezeshkian afirmou que “14 milhões” de civis declararam “sua prontidão para sacrificar a vida para defender o Irã”,e que ele também “sacrificou sua vida pelo Irã”. A Guarda Revolucionária ameaçou destruir as instalações de petróleo e gás no Golfo Pérsico e “responder além da região” se Trump ultrapassar suas “linhas vermelhas”. Em outra frente,civis atenderam a um pedido para formar correntes humanas ao redor de centrais elétricas,pontes e outras instalações que poderiam ser atingidas por bombardeios,um recurso usado no passado pelo regime quando ameaçado.

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Embora cantem vitória após a pausa nos combates,Irã e EUA (com Israel) chegaram até o dia do ultimato sob diferentes tipos de pressão.

O regime iraniano se via obrigado a resistir aos bombardeios e assassinato de lideranças sem dar sinais de que poderia capitular,sob risco de ser derrubado. Mas uma ofensiva de grande porte,como a prometida pelo republicano,poderia debilitar a infraestrutura básica e as capacidades de resposta. A guerra total contra seus vizinhos no Golfo os arrastaria de fato para o conflito — horas antes do cessar-fogo,o Bahrein apresentou uma resolução no Conselho de Segurança da ONU sobre a reabertura de Ormuz,mas o texto foi vetado por Rússia e China. Além da pausa nos ataques,o plano,mesmo que temporário,serviu para legitimar Mojtaba Khamenei como novo líder supremo.

Pelo lado americano,Trump obteve uma perspectiva,mesmo que distante,para encerrar uma guerra impopular e da qual não sabia sair. Sua popularidade jamais esteve tão baixa,e mais de 60% dos americanos não concordam com o conflito. Os efeitos domésticos da "Operação Fúria Épica",como a alta dos combustíveis,prometem assombrá-lo até as eleições de novembro. E a ameaça à existência do Irã não o ajudou a angariar mais apoio em Washington.

O presidente Trump e o vice-presidente JD Vance em um almoço com o primeiro-ministro Viktor Orban,ao centro à esquerda,na Casa Branca,em Washington — Foto: Tierney L. Cross/The New York Times

O senador progressista Bernie Sanders chamou o presidente de “indivíduo perigoso e mentalmente desequilibrado” e o democrata Jeff Merkely disse que os militares são obrigados a rejeitar ordens para cometer crimes. Lindsey Graham,senador republicano que há décadas defende um ataque a Teerã,afirmou que se o Irã recusar os termos de Trump,“ele tem razão em destruir sua infraestrutura crucial para que não possam voltar aos seus antigos hábitos". Outros colegas de partido não o pouparam.

"Para que fique claro: não apoio a destruição de uma 'civilização inteira'. Não é isso que somos,e não é compatível com os princípios que há muito guiam os Estados Unidos" disse o deputado Nathaniel Moran no X. "A forma como protegemos a vida dos inocentes é tão importante quanto a forma como combatemos o inimigo.

Outras vozes conservadoras foram mais ácidas,e sugeriram que o Congresso analise a aplicação da 25ª Emenda Constitucional,que trata,dentre outros temas,da inabilitação do presidente para continuar no cargo,ideia compartilhada por um número crescente de democratas. Tucker Carlson,ex-propagandista trumpista e hoje algoz do republicano,também sugeriu que ele seria o anticristo.

— Não podemos apoiar isso. Em hipótese alguma podemos apoiar isso. Isso é o Mal — declarou Carlson.