
Candidato ao governo de Pernambuco,João Campos fala com a imprensa em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Ex-prefeito do Recife,o candidato ao governo pernambucano João Campos (PSB) tenta chegar ao mesmo Palácio do Campo das Princesas que foi comandado pelo pai,Eduardo Campos,e pelo bisavô Miguel Arraes. Para isso,conta agora com a associação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a nacionalização do jogo,além do mandato e meio bem avaliado na capital.
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A adversária Raquel Lyra (PSD),diz o político de 32 anos,é apoiada pelo bolsonarismo no estado,embora faça acenos a Lula. Outras acusações incluem o que considera o baixo volume de entregas por parte da atual gestão e a existência de um “gabinete do ódio” para atacá-lo nas redes — algo que Raquel também alega,mas com sinal trocado.
Uma das eleições estaduais mais acirradas do país,a disputa pelo governo de Pernambuco estreia a série de entrevistas do GLOBO com os principais candidatos nos maiores estados do país.
O senhor passou a evocar muito mais o apoio de Lula depois que a governadora cresceu nas pesquisas. É mero senso de necessidade?
Isso é parte de uma aliança nacional e local,além de ter um componente de história e de futuro. A aliança entre Lula e Geraldo Alckmin (PSB) resultou na vitória de 2022. Estou pronto para ganhar ao lado do presidente e governar ao lado dele,filho da nossa terra. Fizemos muitas parcerias no Recife,e chegou a hora de fazer no estado. Temos de destravar parcerias históricas como a Transnordestina,que Lula me disse que foi compromisso de campanha dele com Miguel Arraes (seu bisavô) em 1989,que depois começou e até hoje não foi concluída. Como governador,vou pedir que passe isso para o estado para fazermos a coordenação.
Raquel Lyra exalta a parceria institucional que diz já ter com o presidente. Colocar Lula na campanha parece ser uma aposta nítida sua.
Tenho orgulho de mostrar com quem ando,quem apoio. O Brasil tem dois lados na eleição,e aqui em Pernambuco também. Então é natural esse alinhamento.
Mas Raquel Lyra não é uma aliada do bolsonarismo.
Todos os bolsonaristas candidatos em Pernambuco fazem campanha para ela. Incluindo o ex-ministro (de Jair Bolsonaro) Gilson Machado,candidatos ligados ao militarismo,os do PL; pessoas que estavam no 8 de Janeiro,gente que defende a ditadura militar. A própria Michelle Bolsonaro repostou coisa dela esta semana.
Há um ano e meio,o senhor disse ao GLOBO que “eleição é comparação”,o que o colocaria em vantagem. No entanto,Raquel agora lidera as pesquisas. A comparação parece estar favorecendo a governadora?
Pernambuco pode fazer muito mais. Estamos sendo ultrapassados por outros estados do Nordeste. Precisamos criar projetos estruturantes. Não tem uma grande indústria que veio para Pernambuco nos últimos três anos e meio,não há grandes ciclos de investimento. Fábrica de automóveis foi para a Bahia; data center,para o Ceará; um supercomputador de IA com R$ 1 bilhão de investimentos vai para o Rio Grande do Norte. Se comparar a minha gestão (em Recife) com a do estado,não tenho dúvidas de quem se sai melhor. Fomos a cidade do Brasil que mais abriu vagas em creche por três anos seguidos. Não há um hospital novo construído em Pernambuco. No último semestre,60% dos empregos gerados em Pernambuco foram no Recife.
Raquel alega haver um gabinete do ódio com fake news contra ela,tem judicializado isso. Está partindo de aliados seus?
Há quase dois anos,o que existe é um gabinete do ódio liderado pela oposição a mim,ligada ao governo do estado,que passa manhã,tarde e noite me atacando nas redes sociais,com direito a deepfakes (imagens manipuladas por IA). Depois que fui reeleito,montou-se essa estrutura. Denunciei há mais de um ano e meio. Abriu-se até CPI na Assembleia,isso foi denunciado à Polícia Federal,ao Supremo Tribunal Federal,e há inquérito em curso investigando pessoas ligadas ao governo. São mais de 90 ações no TRE,com êxito de mais de 80% a meu favor. Há uma tentativa clara de mudança de retórica,que é uma prática da extrema direita e da direita para mudar os fatos.
Em 2022,o PSB não chegou sequer ao segundo turno em Pernambuco,mesmo com a máquina. Quando e onde o partido errou?
Antes,é bom lembrar que Raquel passou dez anos filiada ao PSB,foi deputada pelo partido,secretária e procuradora do Estado. O pai dela foi vice de Eduardo Campos (seu pai). As pessoas esquecem que em parte dessa caminhada havia um alinhamento. Eduardo Campos foi o maior líder da história de Pernambuco,mas depois o processo de alternância de poder é algo absolutamente normal,eleição se vence e se perde. Agora temos a oportunidade de construir um novo ciclo. Não serei um analista do passado.
Ao contrário de outros estados do Nordeste,a violência não é a principal preocupação em Pernambuco,segundo as pesquisas. Qual é a pauta central da campanha?
A segurança é,sim,uma preocupação,assim como a saúde,e o estado reduziu investimentos. Tem um cenário caótico,nenhum hospital novo construído,teto caindo,rato e escorpião nas unidades. E existe a presença das facções entrando em Pernambuco,tomando territórios. Temos um problema de abastecimento de água severo. A educação,que era referência no Brasil,perdeu qualidade. Precisamos de uma infraestrutura e grandes realizações que não estão chegando a Pernambuco.