
A Cinelândia ainda em construção,já sem o Convento da Ajuda,fechado em 1911 — Foto: Autoria não identificada/ Acervo IMS
GERADO EM: 23/07/2026 - 22:19
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Não tinha jeito. Para a Avenida Presidente Vargas ser aberta,uma preciosidade do século XVIII precisava ser demolida. Por mais que houvesse protestos a favor da Igreja São Pedro dos Clérigos,nada e ninguém conseguiu convencer o Governo. No desespero,até foi proposto que tentassem colocar rodas na Igreja para tentar a locomoção. Não deu. Em 1944,um dos mais cortejados templos da fé no Brasil foi ao chão. Os registros nos levam a um povo inconsolável. De quebra,a nova avenida ainda destruiria a Praça Onze e isolaria diversas áreas do Centro,como a Marechal Floriano. Os pedestres teriam que fazer muito mais esforços para encontrar os dois lados de um mesmo bairro.
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Na hoje Cinelândia,o Convento da Ajuda começou a ser erguido no século XVII,mas só foi inaugurado no século XVIII. E ele viveu de tudo. Em 20 de março de 1816,a Rainha Dona Maria I morreu na hoje sede da Procuradoria Geral do Estado,em frente à Praça XV. A cidade se vestiu de preto. Onde ela foi enterrada? No Convento da Ajuda. Décadas depois,em 1893,a belíssima construção virou alvo de guerra. Durante a Revolta da Armada,marinheiros rebelados bombardearam a cidade e,ao invés de acertarem o Itamaraty,acertaram a igreja do convento. O teto foi atingido,o interior seriamente danificado,e as freiras,avisadas de que era melhor meter o pé,decidiram ficar. Em 1911,o convento foi fechado e demolido para dar lugar aos cinemas.
Ainda nessa região do Centro,cinco marrecas de bronze jorravam água pelo bico em um chafariz de 1785. O Chafariz das Marrecas acabou influenciando até a mudança do nome da rua. Deixou de ser “Rua das Belas Noites” e virou “Rua das Marrecas”. A obra do Mestre Valentim,uma das figuras mais importantes do barroco brasileiro,tinha as estátuas de Eco e Narciso — há pesquisadores que defendem que elas são as primeiras esculturas de metal fundidas no Brasil. Tudo isso foi demolido em 1896 para,entre tantos motivos,ampliar o quartel da Polícia Militar. No Jardim Botânico ainda é possível encontrar as estátuas.
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Especialmente nos últimos 150 anos,o Rio sofreu inúmeras mudanças no Centro. Morros foram destruídos,ruas e avenidas criadas,praias desapareceram do mapa,e por aí segue. A perda da capital para Brasília,em 1960,deixou também como herança o esvaziamento. Burocratas,embaixadas e políticos,de uma hora pra outra,já não mais zanzavam. Lojas e mais lojas foram fechadas e diversas empresas acompanharam o novo fluxo do dinheiro estatal. Da época,ainda temos alguns elefantes brancos,como o Palácio da Fazenda,na Antônio Carlos. Agora,estamos assistindo a novos planos para o Centro. Espero que não esqueçam o nosso passado. Ou será que vão demolir ou deixar cair como tantos outros fizeram?
O mar ia até a Igreja de Santa Luzia,no Centro,mas não se engane com o cenário sagrado: a vizinhança da praia de Santa Luzia era tudo,menos convidativa. Por volta de 1830,havia um matadouro de bois pertinho,trazendo cheiro forte,mosquitos e urubus. Um cemitério público estava a poucos metros. Mesmo assim,a moçada ia cedo para os banhos de mar,considerados bons para a saúde. O matadouro foi embora em 1853,e a praia virou memória em 1922,engolida pelo aterro da demolição do Morro do Castelo. Hoje,o que sobrou do mar de Santa Luzia é um resto de muro que continha a água — preservado,acredite,dentro de uma garagem.
Não é que bandidos arrombaram mais uma vez a Banca do André,na Cinelândia,e roubaram diversos produtos? Além de importante produtor cultural,André é um resiliente. Já perdemos as contas de quantas vezes foram. Nem parece que o 5º Batalhão de Polícia Militar está a poucos passos de distância.
Vale muito a visita ao antigo Convento do Carmo,lugar onde Dona Maria I morou e faleceu. A reforma do local foi na primeira gestão do procurador Bruno Dubaix,que retornou recentemente ao cargo de Procurador Geral do Estado.
Esta coluna é dedicada à memória de Rosa Perdigão,liderança fundamental das baianas de acarajé. A Cinelândia e o Largo da Prainha,em especial,jamais podem esquecer o legado. Já com saudade do “Cheirinho de Dendê”.