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Três meses depois, guerra de Trump no Irã move peças no Oriente Médio e expõe desafios globais de segurança

May 28, 2026 IDOPRESS

Mulher caminha diante de faixa representando o presidente dos EUA,Donald Trump,em rua de Teerã — Foto: ATTA KENARE / AFP

RESUMO

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GERADO EM: 27/05/2026 - 12:23

"Operação Fúria Épica: Impasse no Oriente Médio após 3 meses"

Três meses após o início da "Operação Fúria Épica",a ofensiva de Trump contra o Irã não resultou na vitória rápida esperada. O Estreito de Ormuz permanece fechado,afetando o fluxo global de petróleo,enquanto negociações com Teerã ocorrem. O Irã,apesar dos danos,mostra resiliência,e a situação incerta reconfigura alianças no Oriente Médio,com países como Arábia Saudita e Emirados Árabes buscando novas parcerias de segurança.

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No final de fevereiro,quando anunciou o início da “Operação Fúria Épica” e lançou,ao lado de Israel,toneladas de bombas sobre o Irã,o presidente dos EUA,garantia que seria um conflito rápido,e que deixaria a República Islâmica de joelhos. Três meses depois,e em meio a um tenso cessar-fogo anunciado em abril,a “vitória completa” não se concretizou. O regime,embora ferido,segue em pé,pode conseguir um acordo favorável. O Estreito de Ormuz está praticamente fechado,e o status de outras passagens marítimas é reavaliado. E o Oriente Médio,que Trump prometeu remodelar,traça caminhos não necessariamente benéficos aos americanos.

— Trump se colocou em uma situação de xeque porque ele chamou para jogar xadrez um adversário,o Irã,que tem menos a perder. E eles aprenderam a gostar do conflito — explica ao GLOBO Gustavo Macedo,professor de Economia do Insper. — Depois dos primeiros dias,com a perda das lideranças políticas,os iranianos entenderam que a extensão de um conflito controlado joga a favor deles.

Diálogo em curso: Trump reúne gabinete em Washington em meio a negociações com o Irã e disputa sobre OrmuzRetórica bélica: Líder supremo do Irã afirma que países do Golfo não serão mais 'escudo' para os EUA enquanto ataques pressionam negociações

Nos primeiros atos da guerra,as perdas nos altos escalões em Teerã foram elevadas,a começar pelo líder supremo,Ali Khamenei. Mas um dos objetivos velados do republicano,a mudança de regime,sequer soou como uma possibilidade real. Como o próprio Trump reconheceu em seu discurso no dia 28 de fevereiro,essa era uma guerra para a qual Teerã se preparava desde 1979,quando a Revolução Islâmica afastou o governo pró-Washington do xá Reza Pahlevi.

A tática descentralizada de comando foi eficaz para superar as baixas nos altos escalões,e o uso de foguetes e drones de baixo custo foi crucial para manter o Estreito de Ormuz praticamente fechado. A passagem que dá acesso ao Golfo Pérsico se tornou arma estratégica contra a maior potência militar do planeta. As ameaças de "obliteração civilizacional" até hoje não passaram de retórica.

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— Para os iranianos,o poder de dissuasão dos EUA e de Israel acabou. O regime sobreviveu aos ataques,e isso torna a liderança iraniana que emerge desse conflito muito mais radical,e muito mais disposta a assumir riscos — afirmou ao GLOBO o professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) Sandro Teixeira Moita.

Irã aperta controle sobre Estreito de Ormuz e impõe vitória estratégica no conflito contra os EUA e Israel — Foto: Editoria de Arte/O Globo

Nas negociações com os EUA,a reabertura do estreito,por onde passavam 25% das exportações globais de petróleo e gás,é a principal meta. Mas o retorno a algo parecido ao status quo pré-conflito não virá de graça: os iranianos querem mais tempo para discutir o futuro do programa nuclear,não aceitam falar sobre seus mísseis ou milícias aliadas na região — o Eixo da Resistência — e exigem o fim do bloqueio econômico e o desbloqueio dos fundos congelados no exterior.

Com uma economia dilacerada,o dinheiro ajudaria na reconstrução e,em um ponto criticado por Israel,a reerguer as capacidades militares. Como demonstrado em alto-mar,os americanos não conseguiram reabrir Ormuz,e outros países — em especial os da Otan — tampouco querem assumir o risco.

Diz jornal: EUA subestimaram eficiência militar do Irã,que atingiu 228 bases e equipamentos americanos na região

Neste cenário,a discussão sobre o futuro dos estreitos marítimos — que inclui a cobrança de pedágio,tal como quer o Irã — se pôs à mesa. Em abril,o ministro das Finanças da Indonésia levantou a ideia de cobrar pelo trânsito de navios pelo Estreito de Malaca,principal rota entre os oceanos Pacífico e Índico,sob críticas de outras duas nações da área,Malásia e Cingapura. A Somália e os houthis no Iêmen não raro ameaçam e barram embarcações que transitam pelo Estreito de Bab el-Mandeb,na entrada do Mar Vermelho. Um comentarista britânico afirmou recentemente que se cada navio que passar pelo Canal da Mancha pagar £ 1 milhão,geraria £ 288 bilhões anuais a Londres.

— Ficou evidente que os países continuam sendo reféns da geografia. É uma expressão clássica das relações internacionais,em um mundo hiperconectado e com uma cadeia de valor que depende da ligação entre os países. E essa cadeia de produção é mais sensível e vulnerável do que alguns atores econômicos gostariam de reconhecer — opina Macedo.

O caos em Ormuz não estava entre os desfechos apresentados pelo premier de Israel,Benjamin Netanyahu,quando tentou convencer Trump a atacar o Irã. Ele alegou que o regime estava em seu estado mais frágil desde 1979,e que era hora de agir. As mortes das lideranças nos primeiros dias pareciam confirmar os argumentos,mas a resiliência iraniana e as retaliações regionais soaram como surpresa. Especialmente para as monarquias árabes do Golfo,que desde o início tentam evitar confusão.

— Esse conflito trouxe uma insegurança estrutural na região,envolvendo países relativamente seguros e protegidos,e que recebiam um elevado fluxo de investimento de empresas estrangeiras,especialmente dos EUA — afirma Macedo.

O desmantelamento da imagem de ilhas de prosperidade impôs a países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos um custo difícil de estimar em termos econômicos e políticos. Segundo Moita,as monarquias começam a questionar se valia a pena abrigar bases americanas em troca de uma suposta segurança prometida por Washington — durante os 40 dias de conflito aberto,alvos como instalações civis e de energia sofreram danos.

— O que fica para alguns é que talvez a aliança não seja a melhor situação. Talvez seja hora de trabalhar em outros acordos de segurança e em outros arranjos — explica Moita.

Os Emirados Árabes Unidos ampliaram sua parceria com Israel,e foram o primeiro país a receber baterias do sistema de defesa aérea Domo de Ferro. Os sauditas,embora restritos por compromissos duradouros com Washington,dão passos consistentes rumo à China,país que,em 2023,mediou o processo de reaproximação entre Riad e Teerã. Catar e Omã,ambos atingidos durante a guerra,abrem conversas com os iranianos — nos últimos dias,os catarianos assumiram o papel de mediação nas conversas para o desbloqueio de fundos pelos EUA. E outros atores,como Ucrânia e Coreia do Sul,querem aproveitar o mal-estar local com os americanos para ampliar a venda de armamentos a uma região que deve ampliar os gastos com Defesa no futuro próximo.

— Esse conflito vai gerar uma reconfiguração de toda a arquitetura de poder da região — afirma Moita.

Na segunda-feira,Trump disse que qualquer acerto diplomático deveria prever a adesão de países como Jordânia,Paquistão e Catar aos Acordos de Abraão,destinados à normalização dos laços com o Estado israelense. No Oriente Médio e regiões próximas,apenas os Emirados e o Bahrein aderiram — os demais alegam já terem acordos próprios ou condicionam a assinatura à criação de um Estado palestino. A menção foi um aceno a Israel,no momento em que Netanyahu está insatisfeito com um potencial acordo com Teerã para cuja elaboração não foi chamado.

O premier usa a ofensiva no Líbano para atacar o Hezbollah,aliado de Teerã,e manter uma frente de guerra ativa,em paralelo a ataques na Faixa de Gaza e ao incentivo à violência de colonos na Cisjordânia. A retomada unilateral dos bombardeios contra o Irã não foi descartada,nem pela oposição,e é tratada sob uma das óticas favoritas de Netanyahu: a da ameaça existencial. Mesmo sem o aval da Casa Branca.

— Netanyahu tentará de diversas maneiras manter um estado de inimizade com o Irã,porque há uma percepção de que o momento do confronto é agora,quando o tabu de um ataque direto ao Irã foi rompido — aponta Moita. — Para Israel,o Irã é um problema que tem que ser resolvido logo. Senão,avaliam que poderá chegar o momento em que os iranianos conseguirão uma certa paridade em capacidades militares.