
Lula e Trump: Presidentes defendem preservação dos laços comerciais e acertam nova reunião entre suas equipes — Foto: Ricardo Stuckert / PR
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou na manhã de ontem para o presidente dos Estados Unidos,Donald Trump,e defendeu a negociação sobre o tarifaço imposto ao Brasil,além de classificar as alegações americanas para aplicação das taxas como “infundadas”,informou o Palácio do Planalto. Eles conversaram sobre temas como as novas taxas do governo americano,de 25% e 12,5%,o combate ao crime organizado e conflitos internacionais.
De ‘química excelente’ a tarifaço:as idas e vindas da relação entre Lula e TrumpComércio exterior: Trump amplia cota para importação de carne moída sem tarifa; Brasil é beneficiado
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) afirmou em nota que a conversa ocorreu em “tom amistoso e cordial” e durou uma hora e 20 minutos — a mais extensa ligação telefônica entre os dois presidentes até hoje. O tempo foi considerado longo para os padrões de conversa entre chefes de Estado.
No começo do mês,Lula havia indicado a aliados políticos que buscaria uma conversa com o presidente americano nos próximos dias. Foi o brasileiro que pediu a ligação,a terceira entre os dois desde outubro. Seus auxiliares só tiveram a confirmação na véspera,quando a equipe técnica da Casa Branca procurou-os para combinar a chamada para as 9h30 (horário de Brasília).
Ao fim da conversa,segundo testemunhas,Trump disse a Lula que os dois tinham um canal direto de contato e que o brasileiro poderia ficar à vontade para procurá-lo,sem a necessidade de intermediários.
Continuar Lendo
Sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil,segundo o Planalto,Lula enfatizou que as alegações para a medida — desmatamento,acordos preferenciais,propriedade intelectual,combate à corrupção,Pix,etanol e importações de produtos com trabalho forçado — “são infundadas”.
Desde o começo,o governo brasileiro tem defendido essa linha. A avaliação é que as tarifas têm teor político,e aliados do presidente têm denunciado a atuação de opositores para provocar essa taxação.
Em conversa com Trump: Lula defende sistema eleitoral brasileiro; temas controversos foram deixados de lado
“Ao observar que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil,quanto os Estados Unidos,(Lula) afirmou que seguir na mesa de negociação é a melhor opção para os dois países. Reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil. O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível”,afirma a nota do governo.
Após a divulgação do telefonema pela Secom,Lula comentou,nas redes sociais,sobre a conversa com Trump. Ele reforçou o conteúdo que havia sido previamente divulgado.
Mais tarde,no lançamento da candidatura de Patrus Ananias ao governo de Minas Gerais,Lula falou sobre a conversa com Trump:
— Falei para ele: “A taxação que vocês fizeram ao Brasil,não só é irreal,foi feita com base na mentira,você disse que tinha desmatamento no Brasil,mas temos a menor taxa de desmatamento da história. Você disse que tinha trabalho escravo,mas nós combatemos” — disse o presidente em Belo Horizonte.
O ministro do Desenvolvimento,Indústria,Comércio e Serviços (Mdic),Márcio Elias Rosa,afirmou que se reunirá na próxima semana com Jamieson Greer,representante de Comércio dos EUA,para discutir o tarifaço.
Após ligação entre Lula e Trump,negociadores de Brasil e EUA voltarão a se reunir para discutir tarifaço,diz ministro
— O embaixador Greer fez contato ao término da ligação,dizendo que após a conversa dos dois presidentes ele gostaria de marcar uma reunião — disse o ministro ao GLOBO. — Vejo isso como um bom sinal porque precisávamos,de fato,retomar as negociações,era isso o que o Brasil sempre buscou,trazer ele (Trump) de volta à mesa.
“A ligação do presidente Lula e a sinalização do presidente Donald Trump para a retomada das conversas abrem um novo canal de diálogo e reforçam a perspectiva de uma solução negociada,como sempre foi buscado pelo governo brasileiro”,reforçou o governo em nota.
Na semana passada,o governo brasileiro informou ter notificado os Estados Unidos sobre o início do processo de reciprocidade em razão do tarifaço imposto aos produtos do país. O Brasil foi atingido por duas tarifas pela gestão de Donald Trump: uma de 25%,específica para o país,e outra de 12,que atinge também outras nações.
As taxas se somam,embora haja exceções para determinados produtos da pauta exportadora. A avaliação do entorno petista,no entanto,é que o processo de reciprocidade não avance neste ano. Eles defendem cautela para não tomar decisões precipitadas.
O timing da conversa entre Lula e Trump é positivo,pois ocorreu logo após a abertura do processo de reciprocidade pelo Brasil,avalia Celso Figueiredo,sócio do escritório Barral Parente Pinheiro Advogados. Para ele,o telefonema mostra que o Brasil não abandonou as negociações.
Amcham: diálogo direto entre Lula e Trump é sinal importante para retomada das negociações
Do ponto de vista prático,porém,o especialista em comércio exterior não espera grandes avanços antes de novembro,já que os dois líderes estão voltados para eleições: as de meio de mandato nos Estados Unidos e as presidenciais no Brasil. Ainda assim,Figueiredo acredita que as negociações podem ganhar celeridade após esse período:
— O mais provável não seria a retirada completa da sobretaxa de 25% sobre o Brasil,mas a inclusão de mais produtos importantes da pauta exportadora brasileira que ainda estão sendo taxados,como máquinas e equipamentos e calçados.
Em nota,a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) classificou como “muito positiva” a disposição para retomar o diálogo.
“O diálogo direto entre os presidentes e a disposição para a retomada das negociações entre os dois governos são sinais importantes. O momento deve ser aproveitado para avançar em soluções concretas que reduzam barreiras,promovam mais comércio e investimento e tragam maior previsibilidade para as empresas”,afirmou Abrão Neto,presidente da Amcham Brasil,na nota.
A ligação também teve uma menção,por Trump,ao processo eleitoral brasileiro,segundo relatos. Temas controversos,como a autorização para o novo embaixador dos EUA no Brasil,Daniel Perez,assumir seu posto,foram deixados de lado.


De acordo com relatos,Trump falou sobre a eleição de outubro de maneira informal e superficial na introdução da conversa ao perguntar como andavam as coisas no Brasil. Lula então respondeu que o sistema eleitoral brasileiro era confiável,que havia muitos candidatos na disputa e tudo estava indo bem. Não foi discutido se os EUA reconhecerão o resultado.
Em seguida,ainda segundo as testemunhas,Lula mudou de assunto e apresentou os três temas que gostaria de tratar na conversa: questão tarifária,combate ao crime organizado e as guerras no Irã e na Ucrânia.
O governo brasileiro avalia que os EUA buscariam favorecer o principal candidato da oposição. Não se tocou no tema,porém. Também houve referência a uma eventual atuação das big techs americanas na eleição,fonte de preocupação da gestão Lula.
A avaliação de um integrante do governo brasileiro é que,com a ligação de ontem,ficará mais difícil para Trump questionar o resultado das eleições. Mesmo assim,o entendimento é que o Departamento de Estado,sob o comando de Marco Rubio,que é próximo da família Bolsonaro,possa ter uma postura diferente.
Na chamada,Lula reforçou o interesse em uma cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado,mas rejeitou que as facções PCC e CV possam ser classificadas como terroristas,como os EUA fizeram. O presidente brasileiro explicou as ações do governo para “asfixiar financeiramente a criminalidade”,além da intenção de transformar 138 presídios em prisões de segurança máxima.
De acordo com a Secom,Trump “se dispôs a reforçar a cooperação bilateral e indicou que mobilizaria funcionários de alto escalão para dar seguimento aos entendimentos nessa área”.
(Colaborou Rafaela Gama)