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Um exame pode evitar um cateterismo. Por que ele ainda não está no SUS?

Aug 14, 2026 IDOPRESS

Infarto? — Foto: Freepik

A dor no peito é uma das queixas que mais assustam pacientes e médicos. A pergunta parece simples: há ou não uma obstrução nas artérias do coração? Mas,para milhares de brasileiros,chegar a essa resposta ainda pode significar uma longa sequência de consultas,exames e,algumas vezes,um procedimento invasivo que poderia ter sido evitado. Além do mais,30-40% das pessoas que tem doença obstrutiva coronariana não têm sintomas. Neste mês,o Brasil tem a oportunidade de começar a mudar essa realidade.

Está aberta uma consulta pública da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec),entre 5 e 24 de agosto de 2026,para avaliar a inclusão da angiotomografia das artérias coronárias como exame de primeira linha para determinados pacientes com sintomas e suspeita de doença arterial coronariana. O nome é complicado. O conceito não.

A angiotomografia coronariana permite enxergar,de maneira não invasiva,as artérias que levam sangue ao coração. Com uma tomografia computadorizada,contraste e protocolos específicos,é possível identificar placas de aterosclerose e verificar se existem estreitamentos importantes nas coronárias. Isso é especialmente útil naquele enorme grupo de pacientes em que a doença é possível,mas não suficientemente provável para justificar partir diretamente para um exame invasivo,como o cateterismo.

Durante décadas,investigar dor torácica significava frequentemente percorrer uma sequência de testes indiretos ou recorrer ao cateterismo cardíaco,a cinecoronariografia. O cateterismo é extraordinário quando bem indicado e indispensável para inúmeros pacientes. Mas continua sendo um procedimento invasivo e não deveria ser utilizado simplesmente para descobrir que as coronárias são normais sempre que essa resposta puder ser obtida com segurança por outro caminho. É exatamente aí que a angiotomografia mudou a cardiologia moderna.

Grandes estudos demonstraram que ela aumenta a precisão do diagnóstico e ajuda o médico a classificar melhor o risco do paciente. Ao mostrar não apenas obstruções,mas também a presença de aterosclerose ainda não obstrutiva,o exame pode modificar a prevenção,levando ao uso mais apropriado de medicamentos e ao controle mais intenso dos fatores de risco.

Em estudos como o SCOT-HEART,pacientes investigados com uma estratégia que incluiu angiotomografia tiveram melhor definição diagnóstica e mudanças importantes no tratamento preventivo. No seguimento de cinco anos,houve redução de infarto e morte por doença coronariana no grupo submetido à estratégia com tomografia.

Por isso,importantes diretrizes internacionais incorporaram a angiotomografia coronariana à avaliação inicial de pacientes selecionados com dor torácica estável. A própria diretriz brasileira de tomografia e ressonância cardiovascular recomenda seu uso como método inicial em pacientes sintomáticos adequadamente selecionados. Curiosamente,a discussão brasileira não é mais fundamentalmente sobre saber se o exame funciona.

O próprio relatório da Conitec reconhece a relevância clínica da tecnologia,sua capacidade de apoiar o diagnóstico anatômico e seu potencial para reduzir procedimentos invasivos. As dúvidas que levaram à recomendação preliminar contrária à incorporação estão concentradas principalmente na avaliação econômica,no impacto orçamentário,na capacidade de implementação pelo SUS e na necessidade de definir melhor quem deve realizar o exame. São preocupações legítimas. O SUS precisa avaliar não apenas se uma tecnologia funciona,mas quanto custa,onde poderá ser realizada e qual será o impacto de oferecê-la a uma população de mais de 200 milhões de habitantes. Mas aqui existe uma distinção essencial. Dificuldade de implantação não significa ausência de benefício.

E talvez estejamos olhando para o problema com uma lógica antiga. Incorporar a angiotomografia ao SUS não significa exigir que cada hospital brasileiro disponha de uma equipe altamente especializada capaz de interpretar esses exames de forma independente. Podemos construir uma rede nacional.

Os exames podem ser realizados em serviços habilitados,seguindo protocolos técnicos padronizados,e suas imagens podem ser transmitidas digitalmente para centros de referência capazes de atender diferentes regiões do país. Por meio da telemedicina,especialistas localizados a centenas ou milhares de quilômetros podem analisar os exames,discutir casos com as equipes locais e devolver rapidamente a interpretação e a orientação clínica.

A inteligência artificial pode ampliar ainda mais essa capacidade. Algoritmos já são capazes de auxiliar na análise das imagens,quantificar placas de aterosclerose,identificar possíveis obstruções e priorizar exames potencialmente graves para revisão médica. A decisão final continua sendo do profissional de saúde,mas a tecnologia pode aumentar velocidade,padronização e escala. Isso muda completamente a discussão sobre acesso.

Um paciente no interior da Amazônia,no Nordeste ou em uma pequena cidade brasileira não deveria precisar morar próximo a um grande centro de cardiologia para receber um diagnóstico cardiovascular moderno. O exame pode ser feito onde existe capacidade técnica adequada; a inteligência pode estar em outro lugar.

Podemos imaginar centros nacionais e regionais habilitados para interpretar angiotomografias coronarianas de todo o país,funcionando como verdadeiros hubs de diagnóstico cardiovascular do SUS. Uma rede conectada,com protocolos comuns,telemedicina,inteligência artificial,controle de qualidade e especialistas disponíveis para apoiar as equipes locais.

Essa é precisamente uma das grandes possibilidades da transformação digital da saúde: separar a localização do paciente da localização do conhecimento. Se faltam protocolos,devemos criá-los. Se é preciso definir a população,devemos estabelecer critérios rigorosos. Se nem todo tomógrafo ou hospital está preparado para realizar o exame,devemos criar centros habilitados,estabelecer padrões de qualidade,capacitar profissionais e organizar uma rede regionalizada e nacional.

O que não deveríamos fazer é transformar uma deficiência atual de organização do sistema em justificativa permanente para negar ao paciente uma tecnologia já incorporada à prática cardiovascular moderna. E há ainda uma dimensão que precisa ser discutida: equidade.

A angiotomografia coronariana já faz parte da realidade diagnóstica de muitos brasileiros atendidos no setor privado. Quando uma tecnologia comprovadamente útil passa a orientar a medicina de quem pode pagar,enquanto quem depende exclusivamente do SUS percorre caminhos diagnósticos mais longos ou mais invasivos,a desigualdade deixa de ser apenas econômica. Passa a ser também tecnológica. O SUS nasceu exatamente para combater essa lógica. Incorporar uma tecnologia ao SUS não significa utilizá-la indiscriminadamente. Boa medicina é justamente o contrário. É oferecer o exame certo,para o paciente certo,no momento certo.

E,no século XXI,significa também levar o conhecimento certo até onde o paciente está. A consulta pública aberta neste mês é uma oportunidade para médicos,pesquisadores,gestores e cidadãos contribuírem para essa decisão. A pergunta não deveria ser simplesmente se o Brasil pode pagar pela angiotomografia coronariana. Precisamos perguntar também quanto custa continuar investigando de maneira menos eficiente,repetir exames,realizar procedimentos invasivos desnecessários e descobrir tarde uma doença que poderíamos ter identificado antes.

O Brasil tem tomógrafos,profissionais altamente qualificados,uma das maiores redes públicas de saúde do mundo e hoje dispõe de ferramentas que não existiam há uma década: conectividade,telemedicina e inteligência artificial. Não precisamos colocar um especialista em cada cidade. Precisamos conectar cada cidade aos especialistas.

Tecnologia em saúde só faz sentido quando melhora a vida das pessoas. Mas,quando ela faz isso,o CEP,a renda ou a posse de um plano de saúde não podem determinar quem terá acesso. Essa é uma das promessas fundamentais do SUS: a melhor medicina possível não pode ser privilégio. Deve chegar a qualquer brasileiro,onde quer que ele esteja.