
Fundador da Esh Capital,Vladimir Timerman,durante depoimento à CPI do Crime Organizado em março de 2026 e o ex-CEO do Banco Master,Daniel Vorcaro — Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado e Ana Paula Paiva/Valor
O fundador e gestor da Esh Capital,acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) na última terça-feira (12) para pedir sua inclusão no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita). Como revelamos no blog em julho,a Polícia Federal (PF) descobriu que Daniel Vorcaro e seu comparsa Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão,o “Sicário”,monitoraram ilegalmente Timerman,que denunciou irregularidades em operações do Banco Master e travou uma batalha judicial com o ex-CEO.
Eleições: Plano de governo de Flávio Bolsonaro propõe quarentena de 1 ano para indicação ao STFSenado: A reação de Alcolumbre ao apelo de petistas para votar o fim da escala 6 por 1
Sicário,que se matou após ser preso pela PF em março passado,é tido pelos investigadores como operador do grupo “A Turma”,uma milícia privada que atuava a mando de Vorcaro. Em petição enviada ao relator do caso no STF,ministro André Mendonça,a defesa de Timerman pede para que a corporação apure se o braço armado do banqueiro o monitorou sob ordens do empresário Nelson Tanure,apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como possível sócio oculto do Master – o que ele nega.
Tanure e Timerman também têm um largo histórico de brigas na Justiça desde que o fundador da Esh passou a denunciar supostas irregularidades em operações com papéis da antiga Alliar e da Gafisa,efetuadas por Tanure com participação do Master. Em um dos processos,o gestor chegou a ser condenado na Justiça de São Paulo em 2025 por stalking contra o empresário,decisão da qual recorre até hoje. O investidor se diz perseguido e moveu um processo idêntico contra Tanure,ainda em curso.
Impasse: Quatro delações do caso INSS estão empacadas à espera de definição da PF e da PGR
Na peça enviada ao STF,a defesa de Timerman fala em risco “crescente”,argumenta que manifestou por escrito o receio em relação à sua integridade física em quatro ocasiões desde 2024 e diz que já solicitou sua inclusão no Provita em março deste ano,mas nenhuma diligência foi tomada.
O documento destaca um diálogo entre Vorcaro e Sicário em agosto de 2024 obtido pelos investigadores no qual o comparsa defende uma “medida mais drástica contra Vladimir” e “contra o advogado”.
Papo em dia: A lavagem de roupa suja entre Lula e Alcolumbre na casa de Alexandre de MoraesE mais: O nó que Alexandre de Moraes não conseguiu desatar na relação entre Lula e Alcolumbre
“Consegue falar com a Turma mais tarde? Tipo umas 15:00 estarei com eles lá na sede. Aí deixamos tudo ajustado com ele e a forma como você quer que eles façam”,escreveu Sicário.
O então dono do Master,então,envia mensagem com o selo “encaminhada”,em tom ameaçador: “E tem que mandar a turma pra SP pra matar esses negócios. Tá ridículo esse cara aqui”.
Bastidores: Resposta da Polícia Federal à crise com Mendonça enfrentou resistência de superintendentesEmbate no PE: O que explica a virada de Raquel Lyra sobre João Campos em Pernambuco
Timerman mora em São Paulo,teve seus dados pessoais rastreados pelo grupo no ano anterior e teria sido monitorado 24 horas por dia,segundo as mensagens obtidas pela PF.
Sua defesa argumenta que Vorcaro “não é o autor das mensagens que enviou” e que o selo de “encaminhada” do WhatsApp “leva a crer que Daniel Vorcaro,em tese,estaria agindo em benefício ou a mando” de outra pessoa. Afirma,ainda,que o gestor acredita que “A Turma” não seria de “uso e benefício exclusivo” do executivo.
Trama golpista: STF impõe derrota a Alexandre de Moraes e abre brecha para beneficiar réus do 8/1Master e INSS: Ministro da Justiça vai tentar acordo entre Mendonça e diretor-geral da PF
“O peticionante acredita,a partir de sua análise técnica,que Nelson Tanure seja um beneficiário final das operações realizadas pelo Banco Master,assim como crê que tudo que sofreu nos últimos quatro anos foi conduzido com auxílio da Turma de Daniel Vorcaro,e a d. Autoridade Policial deve apurar se,efetivamente,agia sempre a mando de Nelson Tanure”,diz o documento assinado pelo advogado Cássio de Assis.
Procurada pela equipe da coluna,a defesa de Nelson Tanure afirmou por meio de nota que o empresário “jamais havia ouvido falar no nome” de Luiz Phillipi Mourão,e que só tomou conhecimento da existência de Sicário “depois das informações veiculadas sobre ele na própria imprensa”.
Sondagem: A conversa reservada de Valdemar com Michelle antes do anúncio do vice de FlávioAnálise: Mesmo com interferência estrangeira,disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro cheira a mofo
Afirmou,que Tanure “não é parte dos autos da investigação que tramita sob sigilo no STF sobre esse tema”. Em relação aos processos movidos contra Timerman,enfatizou que o empresário “em todas as oportunidades que seus direitos foram violados,recorreu ao Poder Judiciário,de forma responsável e seguindo o devido processo legal” (leia a íntegra da nota ao final da matéria).
Procurado,Timerman não retornou. O espaço segue aberto.
Eleições: O fator inédito que as convenções dos partidos produziram na disputa presidencial de 2026Bastidores: Julgamento de Buzzi no STJ teve impedimentos,voto de 156 páginas e presença do próprio acusado
Além de pedir a identificação de quem teria tido as mensagens encaminhadas por Vorcaro,a defesa pede a prisão preventiva do interlocutor do banqueiro,caso seu nome seja descoberto pela PF.
A peça aponta ainda que a morte de Sicário diminuiu as possibilidades de identificar o remetente original das mensagens encaminhadas pelo banqueiro,o que torna “a prova documental e a oitiva de Vladimir insubstituíveis e urgentes”.
Dark Horse: A má notícia do governo Lula para o filme sobre Jair BolsonaroPesquisa: O que explica a melhora de Flávio Bolsonaro contra Lula na Genial/Quaest
Assis argumenta a Mendonça que a decisão que levou à prisão de Vorcaro e de Sicário destacou o risco à “segurança e à própria vida” de alvos do grupo enquanto o “braço armado” não fosse neutralizado e que os autos da investigação registram ameaças de morte de sete milicianos em nome de Daniel Vorcaro a terceiros não relacionados ao seu cliente,o que reforçaria o risco ao qual ele estaria submetido.
A equipe de Timerman acionou o Supremo porque,em março passado,a 4ª Vara Federal Criminal de São Paulo remeteu à Corte dois inquéritos abertos a partir de denúncias dele contra Tanure e pediu para o Supremo avaliar possível conexão dos processos com a Compliance Zero. A defesa do investidor pediu para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) seja intimada a se pronunciar e reconheça a competência do STF nesses casos.
Planalto: Saída de Marcola para campanha foi tentativa de blindar Lula do escândalo do INSSGenial/Quaest: Vantagem de Flávio sobre Lula entre evangélicos cai pela metade,mas senador reduz distância entre independentes
O advogado de Timerman apresenta três argumentos para sustentar uma possível ligação entre Tanure e os esforços de Vorcaro e Sicário para fustigar e vigiar o gestor.
O primeiro seria o fato de a dupla ter tido acesso a inquéritos policiais relativos ao imbróglio da Gafisa – no qual o gestor da Esh acusou fundos ligados ao Master e a Nelson Tanure de manipular operações fraudulentas na companhia,o que levou à abertura de um inquérito da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – e às fraudes do banco vários meses antes do empresário,seja pelas vias oficiais ou pelo acesso ilegal a sistemas judiciais,como apontou a investigação da PF.
Judiciário: O duro voto de 156 páginas que pode levar à perda de cargo de BuzziMaster: O pedido da PF que André Mendonça negou na operação sobre Cláudio Castro
No caso da Gafisa,Nelson Tanure solicitou acesso aos autos em outubro de 2024,mas,segundo a defesa de Timerman,Vorcaro já tinha os documentos oito meses antes,em fevereiro. Já no inquérito do Master,Tanure pediu acesso em junho de 2025,enquanto,de acordo com o que já se tornou público,o banqueiro e Sicário já vinham acessando documentos sigilosos das investigações havia um ano.
“Não se pode descartar a hipótese de Tanure ter conhecimento da existência das investigações por uso do mecanismo de Daniel Vorcaro”,argumenta a defesa de Timerman.
Sem Desconto: PF aponta apreensão de R$ 1 milhão em dinheiro vivo em investigação que mira senadorE mais: Máquina de dinheiro apreendida no escritório de advogado conta até 1200 notas por minuto
Além disso,o time jurídico do investidor cita mensagens com a marcação de “encaminhada” compartilhadas pelo dono do Master com Sicário em dezembro de 2023 com dossiês sobre a Esh Capital. O nome dos arquivos sugere que os materiais foram elaborados em 27 e 30 de janeiro de 2023,embora a primeira denúncia de Vladimir Timerman contra o banco de Vorcaro tenha sido realizada dois meses depois,em março,o que indicaria a troca de informações sigilosas entre o grupo e Tanure.
“Como,em janeiro de 2023,inexistia conflito entre o peticionante e o Sr. Vorcaro — cujo antagonismo somente surgiria a partir da notícia de fato contra o Banco Master —,a posse,por este,de dossiê de ataque e devassa patrimonial produzido no período em que o único antagonismo do peticionante se dava com Nelson Tanure e Gafisa indica possível compartilhamento de inteligência entre os dois grupos”,diz trecho da petição.
Ex-chefe de gabinete: Quem é o assessor de Lula que está na mira do segundo inquérito sobre LulinhaRevés: Em decisão sigilosa,Kassio dá 24 horas para Presidência tirar do ar postagens que exaltam Lula
Por fim,a defesa cita outro diálogo entre Vorcaro e seu comparsa,de abril de 2025,no qual o banqueiro encaminha a publicação de um perfil com denúncias sobre o Master e atribui o post a um “perfil disfarçado” de Timerman,o que o gestor nega no documento enviado ao STF,e determina a Sicário “ir pra cima [para] tomar [apreender] telefone”.
O aliado do banqueiro então responde: “Pedi para puxar os dados (...) pois ele não pode fazer isto pois tem a condenação. Mandei tomar tel [telefone] dele e ir pra cima com tudo”.
Centrão: O erro de Flávio Bolsonaro que inviabilizou Tereza Cristina como vice,segundo aliadosE mais: O número que levou Ciro Nogueira a rejeitar coligação com Flávio Bolsonaro
Para o advogado de Timerman,a fala se refere à condenação do gestor da Esh por stalking contra Tanure no Tribunal de Justiça de São Paulo,que se deu no mês anterior,e é “reveladora”,uma vez que o processo não tem relação com o Banco Master e nem com o Vorcaro.
O Supremo não tem prazo para decidir sobre os pedidos da defesa do fundador da Esh Capital.
Confira abaixo a íntegra da nota da defesa de Nelson Tanure:
1) O empresário NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE não é sócio e jamais estabeleceu qualquer modalidade de participação societária no BANCO MASTER S/A,do qual foi cliente nas mesmas condições em que foi e segue sendo atendido por outras instituições financeiras do mercado;
2) O empresário NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE jamais havia ouvido falar no nome do senhor LUIZ PHILLIPI MACHADO DE MORAES MOURÃO,apelidado de “sicário” e cuja existência só foi conhecida depois das informações veiculadas sobre ele na própria imprensa;
3) O empresário NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE não é parte dos autos da investigação que tramita sob sigilo no STF sobre esse tema,e de onde teria sido retirada a informação de que seu nome foi aparentemente citado em conversa de terceiros,sem a sua participação e com indicativo de que o sigilo de processo em que era parte teria sido inclusive violado;
4) O empresário NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE,por fim,enfatiza que em todas as oportunidades que seus direitos foram violados,de forma responsável e seguindo o devido processo legal,tal como reconhecido pela 10ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo no dia 21 de maio de 2026,que por unanimidade ratificou a condenação criminal do senhor VLADIMIR JOELSAS TIMERMAN,citado na matéria,em razão de grave prática do crime tipificado no artigo 147-A,perseguição,do Código Penal;
5) Como indicado na própria decisão judicial,o senhor VLADIMIR JOELSAS TIMERMAN atuou como “verdadeiro justiceiro das redes sociais,valendo-se do amplo alcance de seus meios de comunicações e de um expressivo número de seguidores,muitos deles interessados no mercado de capitais” (...),“de posse de informações acerca de suposta conduta ilícita atribuída ao ofendido,passou a persegui-lo de forma contínua e reiterada nas redes sociais,com o claro intuito de lhe subtrair a tranquilidade e de afetar sua integridade psíquica. As postagens eram volumosas,chegando a ocorrer inclusive às vésperas de feriados tradicionalmente dedicados à convivência familiar. A menção expressa aos advogados da vítima revela inequívoco caráter intimidatório,funcionando como alerta de que seriam alvos de ataques futuros;
6) Essa circunstância apenas corrobora a gravidade do conteúdo das demais decisões judiciais condenatórias já transitadas em julgado que acarretaram a perda da primariedade penal do próprio senhor VLADIMIR JOELSAS TIMERMAN e onde constam ameaças,ofensas,disseminação de mentiras e perseguição de advogados,gestores e outros profissionais do mercado de valores mobiliários,com comprovado no processo nº 1025936-59.2023.8.26.0016,da 2ª Vara Cível do Butantã; no processo nº 1012140-16.2023.8.26.0011,da 1ª Vara Criminal de Pinheiros; e no processo nº 1025936-59.2023.8.26.0016,do 1º Juizado Especial Cível – Vergueiro,todas da Comarca de São Paulo.