
DNA — Foto: Freepik
GERADO EM: 29/06/2026 - 18:50
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Bactérias se defendem recortando o material genético dos invasores. O sistema CRISPR foi reconhecido como um destes mecanismos imunológicos em 2006,e em 2012 Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier adaptaram estes conhecimentos criando um sistema simples para programar CRISPR visando encontrar qualquer sequência de DNA de interesse.
Entre outras aplicações,vislumbraram corrigir defeitos genéticos em humanos de modo controlável. A proposta era provocar o corte do material genético em uma região específica desejada por conter um erro genético,e permitir que a natureza corrija o corte e o erro adicionando sequências genéticas corretas.
A tecnologia rapidamente se tornou barata e simples,porém com limitações. Em algumas células as moléculas CRISPR não conseguem encontrar seus alvos,e mesmo quando encontram,como CRISPR provoca o corte de ambas as fitas da dupla hélice do DNA,as células nem sempre reparam essas quebras adequadamente,causando também alterações genéticas grosseiras e indesejáveis.
Em 2016 a equipe do geneticista David Liu desenvolveu uma nova geração de editores genéticos,a edição de bases. Em vez de alterar as duas fitas do DNA,provocam um pequeno corte específico em apenas uma das fitas,levando a uma alteração mais minuciosa e não resultando em anormalidades genéticas grosseiras. No ano seguinte a técnica já foi usada em pesquisa com embriões humanos.
Agora o grupo de Dieter Egli,da Universidade de Columbia,nos Estados Unidos,publicou um experimento de edição de bases em embriões humanos,com resultados que dão um passo importante a frente. Descobriram que a viabilidade dos embriões pós-experimento pode ser aumentada sintetizando e introduzindo previamente uma das moléculas,poupando a célula embrionária desta tarefa. Mesmo com estes avanços,não se conseguiu evitar pequenas alterações genéticas fora do alvo específico,nem a formação de embriões com mistura de células editadas e não editadas,o mosaicismo. Eles acreditam que podem evitar o mosaicismo se a edição de bases for aplicada em óvulos ou espermatozoides ou embriões no máximo até 5 a 12 horas após a fertilização.
Os avanços são relevantes,mas não conferem à técnica a possibilidade de utilização imediata,até porque além das limitações técnicas,não são conhecidos seus efeitos a longo prazo,e as implicações éticas são múltiplas.
Importante lembrar que em 2018,as limitações,que eram ainda maiores,não impediram o cientista He Jiankui de usar CRISPR não apenas para alterar o DNA de embriões humanos no ambiente de pesquisa,mas implantá-los levando ao nascimento de duas crianças gêmeas. Jiankui foi preso por três anos e atualmente está livre. Sua ex-esposa,Cathy Tie,uma empreendedora canadense,tem empresa com o único objetivo de editar embriões e apoia os experimentos de Egli.
Como pesquisas com embriões não podem receber verbas federais nos EUA,ele buscou investidores na iniciativa privada. Coautores da pesquisa de Egli exercem atividades que beiram o limite da ética,se é que estas barreiras já não foram ultrapassadas. São acionistas e funcionários de empresas que declaradamente buscam o “bebê geneticamente perfeito”,não apenas prometendo reduzir o risco de crianças com doenças genéticas (como a talassemia e doença falciforme),mas também condições para as quais ainda não se conhecem completamente as bases genéticas (como diabetes e esquizofrenia). Ficou em dúvida sobre os limites éticos? Estas mesmas empresas já oferecem testes genéticos imprecisos nos embriões com promessa de selecionar cor dos olhos,altura e QI alto.
Curar erros genéticos sempre foi o sonho dos geneticistas,e o experimento de Egli tornou mais próximo. Mas qual será o limite entre a cura e a eugenia?