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Marché du Film de Cannes envolve esforço de produtores por seus filmes, gastando sapato e trajes de gala

Jun 7, 2026 IDOPRESS

Entrada do Marché du Film,do Festival de Cannes — Foto: Mathilde Gardel/FDC

RESUMO

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O maior mercado de cinema do mundo movimentou um bilhão de dólares. Produtores brasileiros enfrentam altos custos pessoais e rotinas exaustivas em busca de parcerias internacionais. A cinebiografia de Carolina Maria de Jesus recebeu prêmio de distribuição no evento. Iniciativas como o Rio Goes to Cannes ajudam a promover projetos nacionais em pós-produção. Profissionais defendem maior apoio financeiro estatal para internacionalizar o cinema brasileiro. O programa Cinema do Brasil planeja subsidiar distribuidores estrangeiros que comprem produções nacionais. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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Era o ano de 2004 e,com uma passagem de avião oferecida pelo programa Produire au Sud (oficina de coprodução cinematográfica promovida pelo Festival des 3 Continents,em Nantes) e a promessa de hospedagem de uma amiga,a produtora Vânia Catani decidiu que era hora de conhecer o Marché du Film,o grandioso e tão falado mercado do Festival de Cannes. Mas,desde o momento em que pisou pela primeira vez na cidade francesa,a produtora só encontrou dissabores. A amiga que a abrigaria acabara de se separar do marido e sair de casa,obrigando-a a procurar um hotel que coubesse nos poucos recursos de que dispunha. Ao ser apresentada por um produtor amigo a um grupo de produtores franceses,ouviu de um deles: “Está vendo essa gente aqui? Ninguém estava interessado no que você tem para falar,ninguém está interessado em nada que você esteja fazendo”.

Seria motivo suficiente para pegar as malas e voltar para casa,mas Catani continuou voltando a Cannes e ao seu mercado por 21 edições.

— Era mentira daquele francês,claro. E eu me apaixonei por estar num lugar em que todos são apaixonados por cinema,como eu,apesar de todos os percalços — diz a produtora mineira,que na edição de 2008 emplacou o filme “A festa da menina morta”,dirigido pelo ator Matheus Nachtergaele,na seção paralela Un Certain Regard. — Para você ver: naquele meu primeiro ano em Cannes,o Walter Salles me convidou para a première de “Diários de motocicleta” e eu havia arranjado um hotelzinho tão fuleiro que sequer tinha espelho no quarto para me arrumar direito. Eu me aprontei toda para a minha primeira gala no festival na vida e só me dei conta de como estava vestida quando passava pelas vitrines das lojas,na rua — lembra,rindo.

Evento no Marché du Film,do Festival de Cannes — Foto: Divulgação

16 mil pessoas e US$ 1 bi

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Casos de conquistas e frustrações como as da produtora brasileira se misturam na memória das centenas de cineastas que anualmente se encontram no Marché du Film,o mercado oficial do Festival de Cannes,que este ano recebeu o número recorde de 16 mil profissionais,vindos de 140 países. Gente que chega de todo canto do planeta para tentar a sorte naquele evento que é considerado a maior feira do audiovisual do mundo,que movimenta US$ 1 bilhão em acordos comerciais,atrás de parceiros de produção,distribuição e venda de seus projetos,em diferentes estágios de realização. E que,até por todos os números que envolve,é um espaço associado ao glamour das sessões de gala,às inúmeras festas e coquetéis que movimentam os bastidores das negociações,ao luxo e aos excessos. Mas que também envolve muito suor,noites sem dormir direito e sola de sapato gasta.

— A gente espera encontrar vida em torno do cinema independente autoral,um convívio mais fluido entre as pessoas,sair do cinema e ir para um coquetel,conhecer curadores de festivais de todo o mundo. Mas,na realidade,a gente precisa acordar às 7h para pegar um ingresso no site do festival,agendar de seis a sete reuniões por dia. Quando se vai pela primeira vez ao Marché,é como se não houvesse portas abertas para você,precisa encontrar essas entradas,porque tem que conhecer as pessoas certas — resume a diretora Jô Serfaty sobre sua estreia em Cannes,para onde levou dez minutos de “Borda do mundo”,seu primeiro longa-metragem de ficção,em busca de oportunidades no mercado. — Agora,só volto a Cannes com filme na seleção,porque você se sente insignificante rodando bolsinha na feira. O que ficou é a sensação de estar realmente no centro do mundo onde o cinema é celebrado,vê-se que o cinema está vivo e muito forte.

Maria Gal como Carolina Maria de Jesus — Foto: Ana Branco

Coproduzido pela francesa Misia Films,responsável pelo curta-metragem “Two people exchanging saliva”,vencedor do Oscar da categoria este ano,“Borda do mundo” foi um dos cinco projetos que participaram do Rio Goes to Cannes,iniciativa do Festival do Rio,com apoio estratégico da RioFilme,que selecionou projetos brasileiros em fase de pós-produção para exibi-los a distribuidores,agentes de vendas e produtores internacionais. Entre eles estava “Carolina Maria de Jesus”,cinebiografia da escritora negra dirigida por Jeferson De,que acabou ganhando um prêmio de estímulo à distribuição do programa Goes do Cannes,promovido pelo Marché du Film — uma conquista significativa,se levada em consideração a ausência de filmes brasileiros na seleção oficial de Cannes em 2026. O longa é estrelado e produzido por Maria Gal,e tem entre seus coprodutores a Dezenove Som e Imagens,da gaúcha Sara Silveira,uma veterana do circuito de mercados de cinema e suas malícias.

— Frequento o mercado de Cannes há 25 anos,desde a primeira edição de Thierry Frémaux como diretor artístico do festival. Desbravei Cannes aos poucos,descobri coisas,aprendi a trabalhar de maneira silenciosa,porque não tenho nome maior dos filmes que faço. Não sou como muitos outros que vão para lá pensando só em glamour. Levo smoking,claro,mas minha prioridade é manter o networking que criei ao longo dos anos,e ver filmes,porque preciso saber como está o mercado. Meu recorde é de 26 por edição,mas este ano só consegui assistir a 13 — conta Sara,produtora de “Cinema,aspirinas e urubus”,exibido na mostra Un Certain Regard em 2005. — Todas as minhas idas foram produtivas. Faço malabarismos,mas a gente tem que aproveitar,porque a gente pode fechar o negócio numa festa,na porta do banheiro,na rua,na madrugada.

Contatos na madrugada

Nem todos os acordos começam nas reuniões nos cerca de 200 estandes espalhados pelo Palácio dos Festivais e do Village Internacional,o complexo que abriga 60 pavilhões com representações de mais de 90 países.

Frequentador do Festival de Cannes checa o celular durante a edição realizada no mês passado — Foto: Blanca Cruz/AFP

O diretor Rodrigo de Oliveira,que esteve no mercado de Cannes pela primeira vez em 2024,em busca de parceiros e de cenários para “A primavera do dragão”,cinebiografia do cineasta Glauber Rocha (1939-1981),uma coprodução da Globo Filmes ambientada entre Salvador e a Riviera Francesa,conta que já iniciou parcerias nos lugares menos prováveis.

— Marquei duas reuniões enquanto esperava o trem da madrugada na estação de Cannes. São pessoas com quem troco informações sobre projetos e futuras colaborações até hoje — reforça o cineasta fluminense,autor de “Os primeiros soldados”. — Esperava uma máquina de moer gente,mas o mercado de Cannes é a maior concentração de sonho por metro quadrado do cinema mundial. A maior parte dos smokings e dos vestidos de gala viaja pelos trens sujos e lotados para as cidades mais próximas,onde a hospedagem é mais barata,e eu conversava sobre projetos,esperança de financiamento,realidades regionais,desenhos de plateia diversos,o tempo inteiro e com gente do mundo inteiro. Talvez se conte nos dedos das mãos os negócios que são efetivamente fechados em Cannes. O sucesso,mesmo,é o número de conexões,a qualidade das trocas que você faz lá.

Diretora executiva do Festival do Rio,Ilda Santiago frequenta o Festival de Cannes há 30 anos,tanto no Marché,em iniciativas de promoção como Films from Rio e Rio Goes do Cannes,quanto em outros eventos da programação. Conta que já organizou festas,foi júri,“dormiu muito” em filmes,“corri e corro” entre reuniões,sempre “com a sensação de estar perdendo algo em algum outro lugar”. Virou “assistente de luxo” de Pelé,quando este compareceu à projeção do documentário “Pelé eterno”,de Aníbal Massaini,na edição de 2005,recebendo ligações dos assistentes de Mick Jagger,e do príncipe Albert de Mônaco. Celebrou quando Thierry Frémaux “pescou” “Cidade de Deus”,de Fernando Meirelles e Kátia Lund,para a seção Midnight Screenings da edição de 2002,em seu primeiro ano como correspondente brasileira junto ao comitê de seleção do festival.

Ela promete um livro sobre esses bastidores para “daqui a alguns anos”.

— Sempre digo que existem duas experiências imperdíveis na vida: desfilar em uma escola de samba e participar da cerimônia do tapete vermelho de Cannes — diz Ilda Santiago,categórica. — O Festival de Cannes é o maior circo do mundo,onde tudo se encontra: cinema em sua paixão máxima,em seu glamour máximo,em sua capacidade máxima de negócio,em sua crueldade máxima e em loucura igual. Tudo ecoa com muita força,tudo é violento e lindo. Com cansaço na mesma medida.

Marché du Film,no Festival de Cannes,também promove experiências imersivas — Foto: Michael Jan/Divulgação

Em busca de apoio

Parte dos cineastas e artistas brasileiros chega ao Marché du Film com apoio de programas e entidades de fomento do audiovisual,como a Spcine,da prefeitura de São Paulo,a RioFilme,da prefeitura carioca,a Apex Brasil,do governo federal,e o Cinema do Brasil. Mas,afirma Sara Silveira,quase todos acabam tirando dinheiro do próprio bolso para custear uma viagem que pode chegar a R$ 30 mil.

— Só a credencial de produtora,que permite que você circule pelos ambientes do festival,custa R$ 2 mil. Às vezes,consigo apoios para vir. Como coprodutora do “Maria Carolina de Jesus”,recebi R$ 8 mil da Spcine. O resto sai do meu bolso,porque minha produtora não tem condições de bancar isso tudo. É o preço que pago por minha internacionalização — explica a produtora gaúcha. — Acho que seria necessário aumentar esse aportes financeiros de promoção do audiovisual,para que mais realizadores pudessem ampliar seus contatos nos mercados estrangeiros.

Ilda Santiago concorda:

— Eu vejo e desejo que as políticas públicas reforcem essa presença nos mercados. Mas não falo somente de presença de produtores e sim de uma presença mais concreta dos projetos e outras categorias de profissionais: de roteiro a música,de direção a pós-produção. Toda a cadeia do audiovisual têm de ter mais visibilidade.

Além dos limites financeiros,Leonardo Edde,diretor-presidente da RioFilme,afirma que o maior desafio é conseguir uma “presença una do Brasil em Cannes”,a maior plataforma de negócios relacionados ao audiovisual do mundo.

— O Brasil é um país continental,com características regionais específicas. Precisamos pensar em como conseguir alinhar todos os interesses e iniciativas numa programação estratégica e bem construída para promovê-lo,trabalhar para vê-lo crescer como indústria forte,com presença no mundo inteiro — observa o executivo. — Exportar mais que é ponto-chave. Sempre com investimento do Estado brasileiro,que acontece no mundo inteiro.

É um ponto de vista compartilhado por André Sturm,presidente do Cinema do Brasil,programa de exportação de filmes brasileiros que é financiado pelo Ministério da Cultura:

— Este ano tivemos uma delegação brasileira com mais de 70 empresas no Festival de Cannes. É uma representação bastante grande. Acho que,mais do que aumentar a presença de produtores no mercado,o que precisamos,e estamos trabalhando para isso,é conseguir ampliar a venda de filmes brasileiros e o número de negócios. Então,uma das iniciativas que nós estamos negociando com a Apex é fazer um programa parecido com o que a Unifrance (órgão oficial responsável pela promoção do audiovisual francês no mundo) faz,que é apoiar os distribuidores que comprarem filmes brasileiros para lançar nos seus países,nas salas de cinema. É uma iniciativa que a Unifrance pratica há muitos anos e que justamente ajudou a ter tanto filme francês nos cinemas pelo mundo.