
Jessie Inchauspé — Foto: Divulgação/Iulia Matei
GERADO EM: 31/05/2026 - 12:17
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O novo flagelo da saúde da nossa época parece ser a resistência à insulina. De acordo com uma meta-análise publicada na revista Nutrients,flutuações bruscas nos níveis de glicose no sangue estão associadas ao aumento da fadiga,irritabilidade e dificuldade de concentração,mesmo em pessoas sem diabetes. Outro estudo da Universidade de Stanford mostrou que picos e quedas rápidas de açúcar no sangue se correlacionam com o aumento da fome algumas horas após as refeições,independentemente das calorias consumidas. A conclusão é perturbadora: muitas das nossas "faltas de força de vontade" podem,na verdade,ser respostas fisiológicas previsíveis.
Jessie Inchauspé vivenciou isso em primeira mão. Nascida em Biarritz,no sul da França,mudou-se para Paris aos cinco anos de idade,após o divórcio dos pais. Na época,sonhava em ser cantora como Britney Spears. Aos 19 anos,sofreu um acidente que afetou sua saúde mental. Estudou matemática no King’s College London e,posteriormente,bioquímica na Universidade de Georgetown. Por curiosidade,colocou em si mesma um monitor contínuo de glicose. Ela não era diabética,mas o que viu mudou sua vida: cada pico coincidia com alterações em sua energia,clareza mental e humor.
Em "A Revolução da Glicose" e em sua obra mais recente,"9 Meses Que Contarão Para Sempre",ela desenvolve uma ideia simples,porém poderosa: não se trata de proibir alimentos,mas de entender como e quando os consumimos. Alterar a ordem,como escolher cafés da manhã salgados ou combinar carboidratos com outros alimentos para suavizar o impacto glicêmico,pode significar pequenos ajustes com efeitos profundos.
— Não se trata de ter mais disciplina,mas de entender o que sua biologia está fazendo — afirma.
Se você tivesse que resumir sua proposta em uma transformação concreta na vida cotidiana das pessoas,qual seria?
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Pare de se sentir vítima da sua energia,dos seus desejos e das suas oscilações de humor,e comece a sentir que finalmente entende o que está acontecendo dentro do seu corpo. Quando você descobre que algo simples pode reduzir os desejos e aumentar a energia ao longo do dia,tudo muda. É um grande passo da frustração para a compreensão,e não exige restrições ou dietas extremas. Trata-se de trabalhar com o seu corpo,não contra ele. Paramos de pensar "O que há de errado comigo?" e começamos a nos perguntar "O que está acontecendo dentro do meu corpo agora?". Essa mudança traz um alívio imenso. Ela nos permite parar de nos julgar e abre as portas para transformações que parecem sustentáveis. Quando entendemos a dimensão biológica,a culpa perde o seu poder.
Que padrões culturais relacionados à alimentação estão prejudicando nossa relação com o nosso corpo?
Inúmeras mensagens nos ensinam a desconfiar do nosso corpo. Rotulamos os alimentos como "bons" ou "ruins",glorificamos a força de vontade,ignoramos a fome e comemos de acordo com regras externas em vez de sensações internas. Além disso,somos levados a crer que se sentir cansado,inchado ou sem controle em relação à comida é uma falha pessoal. Na realidade,muitas vezes é uma resposta fisiológica. Tudo isso nos distancia do nosso corpo quando o que realmente precisamos é redescobrir a confiança de ouvi-lo.
Qual a diferença entre viver tentando controlar o próprio corpo e viver ouvindo-o?
Quando tentamos controlar nossos corpos,nos apoiamos na disciplina e em regras rígidas,muitas vezes lutando contra nossa própria biologia. Quando ouvimos nossos corpos,trocamos as regras por uma compreensão flexível. Os dados de glicose podem nos mostrar por que estamos cansados,por que desejamos açúcar ou por que perdemos o foco. Mas mesmo sem dispositivos,podemos aprender a interpretar os sintomas como sinais de como nossos corpos estão processando o que comemos. Quando percebemos esses padrões,começamos a fazer escolhas que nos apoiam,sem nos restringirmos. Isso permite uma mudança duradoura.
De que forma sua pesquisa impactou sua relação pessoal com o prazer e a culpa relacionados à comida?
Completamente. Troquei a culpa pela compreensão. Quando percebi que não era a comida em si,mas a ordem,as combinações e o contexto que influenciavam meus níveis de glicose,parei de moralizar sobre o que me dava prazer. Posso desfrutar dos mesmos alimentos com muito menos consequências negativas se os consumir de forma mais inteligente. O prazer deixou de ser visto como falta de força de vontade e se tornou algo que posso experimentar livremente,sabendo que estou cuidando do meu corpo com ferramentas simples.
Por que será que,mesmo sendo dicas simples,temos dificuldade em aplicá-las?
Porque estamos lutando contra hábitos profundamente enraizados,padrões emocionais e um ambiente alimentar projetado para nos levar a comprar produtos viciantes. O conhecimento por si só não desfaz anos de condicionamento. A mudança se torna mais fácil quando sentimos o impacto em nossos corpos: mais energia,menos desejos,um humor melhor. Esse feedback tangível cria uma motivação que a força de vontade sozinha não consegue sustentar. Não falhamos porque o conselho é difícil,mas porque ainda não construímos o ambiente e as rotinas que tornam a mudança automática.
Você descobriu uma relação entre o equilíbrio glicêmico e a tomada de decisões importantes. Do que se trata?
Níveis estáveis de glicose influenciam profundamente a qualidade de nossas decisões,pois afetam a base do nosso estado mental: foco,paciência e estabilidade emocional. Quando os níveis de glicose estão instáveis,podemos ficar mais reativos,impulsivos ou sobrecarregados. Isso faz com que decisões importantes pareçam mais difíceis e estressantes. Cuidar do equilíbrio glicêmico também significa cuidar da clareza mental.
Quais erros bem-intencionados você observa com mais frequência entre aqueles que buscam uma vida mais saudável?
O mais comum é focar na restrição. Eles eliminam alimentos que amam e seguem regras rígidas,acreditando que a saúde depende da força de vontade. Outro erro é buscar a perfeição: pensar que,se não conseguirem fazer tudo perfeitamente,não vale a pena tentar. Quando paramos de nos punir e começamos a aprender como nossos corpos funcionam,a saúde se torna mais eficaz e muito mais prazerosa.
Como podemos ensinar as crianças a se relacionarem com sua energia de uma forma mais gentil?
Podemos ajudá-las a perceber os sinais internos em vez de rotular os comportamentos. Em vez de dizer: "Você está insuportável",pergunte: "Como seu corpo está se sentindo agora? Você está com fome,sono,sem energia?". Quando aprendem a conectar sensações com necessidades fisiológicas,desenvolvem autoconhecimento em vez de julgamento. Também podemos dar o exemplo com hábitos como tomar café da manhã salgado ou dar uma caminhada depois de comer,sem transformá-los em pressão moral. O objetivo não é criar crianças que comem perfeitamente,mas sim crianças curiosas e compassivas com seus próprios corpos.
Você sugere que muitos momentos de baixa emocional podem não ser falhas de caráter,mas respostas químicas. O que muda quando aceitamos isso?
Tudo muda. Durante anos,nos ensinaram que,se estamos irritáveis,tristes ou com pouca energia,é porque não somos disciplinados ou positivos o suficiente. Mas se um pico de açúcar seguido por uma queda brusca pode causar fadiga,ansiedade ou uma necessidade urgente de açúcar,então não estamos lidando com uma falha moral. Estamos lidando com biologia. Essa compreensão restaura a dignidade. Ela nos permite agir de forma inteligente em vez de por vergonha.
Você diria que vivemos em uma cultura obcecada por autocontrole?
Com certeza. A disciplina extrema é glorificada: levantar às cinco,não comer isso,não desejar aquilo,resistir a tudo. Mas o autocontrole constante é exaustivo e muitas vezes desnecessário. Se entendermos como nossa biologia funciona,podemos projetar nosso ambiente para facilitar escolhas saudáveis. Não é falta de caráter comer algo doce depois de um pico e queda de açúcar no sangue; é uma reação previsível. A solução não é se punir,mas se estabilizar.
Como o equilíbrio do açúcar no sangue se conecta à saúde mental a longo prazo?
A estabilidade metabólica influencia o equilíbrio emocional. Se experimentamos múltiplas montanhas-russas químicas todos os dias,nosso sistema nervoso fica sobrecarregado. Isso pode amplificar a ansiedade,a irritabilidade e a dificuldade de concentração. Não estou dizendo que a glicose explica tudo,mas é uma peça importante do quebra-cabeça.
Você mencionou repetidamente o café da manhã como um sinal de alerta a ser considerado. Qual o papel dele nessa revolução?
É um ponto de partida muito importante. Um café da manhã doce pode causar um pico rápido e uma queda brusca no meio da manhã,que desencadeia fome e desejos. Um café da manhã salgado,com proteínas e gorduras,tende a estabilizar a glicose e fornecer energia sustentada. Não é uma regra moral; é uma ferramenta fisiológica.
Você também fala sobre a ordem em que comemos. Por que isso importa?
Porque afeta a velocidade com que a glicose entra na corrente sanguínea. Se começarmos com fibras,vegetais,por exemplo,depois proteínas e gorduras,e deixarmos os carboidratos por último,o pico tende a ser mais suave. Não mudamos o que comemos,mas como comemos. Essa sutileza torna a proposta sustentável.
Sua abordagem parece quase simplista demais.
Simples não significa superficial. Às vezes,a coisa mais transformadora é aquilo que pode ser repetido todos os dias sem sofrimento. Não estou propondo a eliminação de grupos alimentares inteiros ou a contagem obsessiva de calorias. Estou propondo pequenos ajustes com um grande impacto.
Qual a ideia central que você gostaria que os leitores do seu trabalho absorvessem?
Que eles não estão quebrados. Que seus corpos não são inimigos que precisam ser dominados. Que muitos comportamentos que geram culpa têm uma explicação biológica. E que,com a informação correta,eles podem se sentir mais livres,mais energéticos e mais em paz. Não se trata de perfeição. Trata-se de compreensão.