
Presidente dos EUA,Donald Trump (E),ao lado da primeira-dama,Melania Trump,durante evento de Páscoa na Casa Branca — Foto: Kent Nishimura / AFP
GERADO EM: 07/04/2026 - 21:12
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No dia 15 de janeiro,a líder da oposição venezuelana,María Corina Machado,deu de presente ao presidente dos EUA,Donald Trump,a medalha do Nobel da Paz,recebida por ela semanas antes,uma honraria a qual sempre se disse um justo merecedor. Exatos 82 dias depois,o mesmo Trump disse que se o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz até o fim desta terça-feira,“toda uma civilização morrerá”,adotando uma retórica que se encaixa em definições de crimes de guerra. Um cessar-fogo temporário acabou firmado menos de duas horas antes do fim do prazo,e não se sabe até quando a diplomacia estará em sua lista de opções.
“Uma civilização inteira morrerá esta noite,para nunca mais ser trazida de volta. Eu não quero que isso aconteça,mas provavelmente acontecerá”,escreveu na rede Truth Social..
A ameaça foi suspensa,ao menos por duas semanas,mas ao fazê-la Trump rasgou,de uma vez por todas,a roupagem de "presidente da paz" que foi base para sua vitória na última eleição.
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Durante a campanha para voltar à Casa Branca,em 2024,prometeu acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia “em 24 horas” e atacou o acordo nuclear com o Irã firmado por Barack Obama em 2015 (rasgado por ele três anos depois),afirmando que poderia obter um texto “ainda melhor” de Teerã. Também disse que um cessar-fogo em Gaza seria facilitado com seu retorno à Casa Branca — a pausa temporária nos combates veio dias antes da posse,mas foi quebrada semanas depois. A era das guerras intermináveis,repetia,estava encerrada.
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— Assim como em 2017,construiremos novamente as Forças Armadas mais poderosas que o mundo já viu. Mediremos nosso sucesso não apenas pelas batalhas que vencermos,mas também pelas guerras que encerrarmos e,talvez o mais importante,pelas guerras em que nunca entrarmos — disse em seu discurso de posse,em janeiro de 2025.


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ANTES: Estruturas no quartel-general da Força Aeroespacial do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech


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DEPOIS: em várias estruturas no quartel-general da Força Aeroespacial do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech
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ANTES: base de mísseis em Garmdarreh,a leste da cidade de Karaj — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech

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DEPOIS: base de mísseis em Garmdarreh,a leste da cidade de Karaj — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech
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ANTES: guarnição de Khorramabad e ao complexo de mísseis da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech

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DEPOIS: consequências dos ataques aéreos à guarnição de Khorramabad e ao complexo de mísseis da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech
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DEPOIS: consequências dos ataques aéreos à guarnição de Khorramabad e ao complexo de mísseis da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech

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Impacto nas instalações de drones no Aeroporto de Chabahar,em Konarak — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech
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Danos também em Konarak,no Aeroporto Internacional — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech

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Base Naval de Konarak: navios destruídos e afundando,além de vários prédios alvejados — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech
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ANTES: Sistema de radar,Base Aérea de Zahedan — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech

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DEPOIS: Sistema de radar destruído,Base Aérea de Zahedan — Foto: Reprodução/Redes Sociais/Vantor Tech
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Registros divulgados pela empresa de monitoramento Vantor mostram a extensão dos danos em bairros de Teerã após dias de bombardeios,enquanto o número de mortos no Irã já chega a pelo menos 787.
No primeiro ano de novo mandato,alegou ter encerrado oito conflitos,como entre Armênia e Azerbaijão; Tailândia e Camboja; e Ruanda e República Democrática do Congo. Alguns por meio de negociações,outros por pressão econômica,e outros com palavras vagas que,na prática,arrastaram uma definição para o futuro. Em outubro passado,um cessar-fogo em Gaza foi obtido,mas o território palestino segue parcialmente ocupado por forças israelenses,ainda sob ataques frequentes e sem qualquer perspectiva futura.
Mas havia duas grandes lacunas. Na Ucrânia,a Rússia não estava interessada em um cessar-fogo e exige termos como a cessão de territórios ocupados,limitações à capacidade de autodefesa de Kiev e o fim de sanções. Trump não esconde a admiração pelo líder russo,Vladimir Putin,a quem recebeu no Alasca em agosto passado,lhe dando um palanque no Ocidente sem contrapartidas. Por Volodymyr Zelensky,presidente ucraniano,não esconde um desdém que vai além da política.
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Com o Irã,a condescendência não estava à mesa. Os contatos iniciais com Teerã para um novo acordo destinado a evitar a militarização de seu programa nuclear foram feitos no começo de 2025. Em junho passado,quando as conversas pareciam avançar,Israel decidiu atacar o território iraniano,em um conflito de 12 dias que chegou ao fim depois de um inédito bombardeio americano contra o país. Trump contabilizou a pausa nas hostilidades em sua lista de “vitórias diplomáticas”.
“Partindo do pressuposto de que tudo correrá como deveria,o que certamente acontecerá,gostaria de parabenizar ambos os países,Israel e Irã,por terem a resistência,a coragem e a inteligência para pôr fim ao que deveria ser chamado de ‘GUERRA DOS 12 DIAS’”,disse Trump na rede Truth Social no dia 23 de junho de 2025. “Esta é uma guerra que poderia ter durado anos e destruído todo o Oriente Médio,mas não durou e jamais durará!”
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Mas um observador atento da política americana percebe que a retórica do pacificador contrasta com a política de militarização radical dos Estados Unidos. O Trump 2.0,em vez de “presidente da paz”,se mostra o “presidente da guerra”.
Internamente,ele defende uma expansão histórica do Orçamento de Defesa,que em 2027 pode chegar a US$ 1,5 trilhão. O republicano quebrou um tabu interno e ampliou a presença de tropas nas ruas,desde o policiamento da capital americana até o controle de protestos contra suas políticas migratórias. Em seu aniversário,ordenou que fosse realizada uma parada militar em Washington,como não se via há décadas — na ocasião,a Casa Branca disse que a escolha da data foi uma coincidência.

Presidente dos EUA,Donald Trump (C),faz saudação a tropas durante parada militar em Washington — Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP
A nova Estratégia de Segurança Nacional ressuscitou a Doutrina Monroe,estabelecendo a América Latina como zona de controle dos EUA. A operação contra barcos acusados de estarem à serviço do narcotráfico levou um contingente militar sem precedentes à região e afundou mais de 20 embarcações,deixando dezenas de mortos. Até hoje,não foram dados detalhes sobre a ofensiva.
Em janeiro,lançou um inédito ataque a um país da América do Sul,invadindo a capital venezuelana,Caracas,capturando o presidente Nicolás Maduro e o levando para Nova York,onde está preso aguardando julgamento. A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o poder,e o chavismo passou a seguir a cartilha da Casa Branca. Cuba,desde os anos 1960 sob embargo e agora som bloqueio naval,deve ser o próximo alvo.

Comando Sul das Forças Armadas dos EUA divulgaram imagens de novas ações contra lanchas no Caribe e Pacífico — Foto: Reprodução/ X/ SouthCom
A relativa facilidade com que virou a mesa na Venezuela e com que convenceu Havana a conversar lhe deu confiança para avançar sobre o Irã,há 47 anos um algoz de presidentes americanos de ambos partidos. No começo de janeiro,em meio à repressão aos protestos nas ruas,disse que poderia ajudar,e por pouco não lançou seus mísseis. No final de fevereiro,quando os iranianos pareciam perto de fazer concessões sobre seu programa nuclear,optou pela guerra total.
— Este regime logo aprenderá que ninguém deve desafiar a força e o poderio das Forças Armadas dos Estados Unidos. Eu construí e reconstruí nossas Forças Armadas durante meu primeiro mandato e não existe nenhuma força militar no mundo que sequer se aproxime de seu poder,força ou sofisticação — disse na madrugada do dia 28 de fevereiro,ao confirmar o início da “Operação Fúria Épica”.

Prédios residenciais são atingidos por mísseis no sul de Teerã
O “Cenário Venezuela” não se confirmou. O regime sofreu duras baixas,mas segue no controle. As retaliações não se restringiram às forças dos EUA e Israel e atingem as monarquias árabes do Golfo Pérsico. O fechamento do Estreito de Ormuz provocou impactos globais. As autoridades iranianas hoje querem impor aos americanos um acordo amplo para encerrar as hostilidades,incluindo o fim das sanções e o direito ao enriquecimento de urânio.
A chance de se tornar mais uma das “guerras eternas” criticadas por ele no passado assusta Trump. A forte objeção interna,impulsionada por seu discurso vago e pela alta dos combustíveis,pode lhe render uma derrota nas eleições legislativas de novembro. A falta de um caminho de saída ajuda a explicar a crescente agressividade em suas declarações. Como a desta terça-feira,quando ameaçou "eliminar a civilização iraniana" caso Ormuz não fosse reaberto até as 21h desta terça-feira (pelo horário de Brasília) — uma fala interpretada como um potencial crime de guerra.
"Contudo,agora que temos uma mudança de regime completa e total,onde mentes diferentes,mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem,talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer. Quem sabe?",escreveu na Truth Social. "Quarenta e sete anos de extorsão,corrupção e morte finalmente chegarão ao fim."
Sem contenção: Irã ameaça privar os EUA e seus aliados de petróleo e gás 'por anos'
Mas o regime em Teerã não dava sinais de que cederia. Tampouco se sabia o que Trump tinha em mente. Daria aos iranianos mais tempo,como o fez em duas ocasiões? Atacaria as instalações de geração de energia e o setor petrolífero? Adotaria uma estratégia de terra arrasada,como a do Bombardeio a Tóquio,de março de 1945? Daria início a uma ofensiva terrestre,rejeitada até por seus aliados? Ou declararia a vitória unilateralmente?
— Somente Trump sabe a situação final e o que ele fará — disse a porta-voz da Casa Branca,Karoline Leavitt,no começo da terça-feira.
A menos de duas horas do fim do prazo,Trump anunciou a suspensão "dos bombardeios e ataques ao Irã por um período de duas semanas",um cessar-fogo condicionado à reabertura de Ormuz,e que estava em negociações com Teerã sobre um "um acordo definitivo sobre a paz a longo prazo com o Irã e a paz no Oriente Médio". Mas a faceta pacificadora pode ter prazo de validade.