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'Odisseia', a mãe de todas as histórias

Aug 6, 2026 IDOPRESS

Cena de 'A Odisseia',adaptação de poema de Homero por Christopher Nolan — Foto: Divulgação

RESUMO

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Apesar de apontar liberdades criativas e anacronismos históricos na adaptação,'Odisseia' é um espetáculo envolvente que revive o interesse pelo clássico de Homero. O longa adapta a moralidade de Ulisses para a sensibilidade contemporânea,atenuando as características astutas e complexas do herói original de Homero. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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Os créditos finais mal tinham começado a rolar na tela quando me virei para os meus netos:

— Quem quer assistir de novo na semana que vem?

Duas mãos se ergueram no escuro. Fábio já tinha assistido uma vez e topou sem pestanejar o convite; Nina tinha acabado de ver e queria começar toda a jornada novamente.

“Odisseia”,claro.

'O pior pode estar por vir': George R. R. Martin fala da depressão que enfrentaAgualusa: Quando minha filha media um metro e 36 segundos

Sim,gostei esse tanto — e eles,gêmeos de 17 anos,também. Tenho algumas restrições,mas há tempos não via um cinemão tão cinemão,uma super-superprodução hollywoodiana tão bem filmada e envolvente.

Três horas de duração e nós queríamos ver de novo.

Tirando logo as restrições do caminho: o Cavalo,sobretudo. No nosso imaginário,o Cavalo de Troia é uma estrutura de madeira bastante tosca,feita às pressas por guerreiros que participavam há anos do cerco a uma cidade,não por um coletivo de artes plásticas.

Aí,em vez daquele cavalo às portas da cidade que habita o inconsciente coletivo ocidental,aparece um cavalo meio encoberto pela areia,numa homenagem declarada à Estátua da Liberdade de “Planeta dos Macacos”,um cavalo-instalação de bienal,empinado nas patas traseiras,presumivelmente feito com as tábuas sinuosas dos cascos de navios naufragados.

Homero não diz se o cavalo tinha rodas ou não,mas Virgílio,na “Eneida”,afirma com todas as letras: sub pedibusque rotarum / subiciunt lapsus — “e sob seus pés põem o rolamento das rodas”. Há ainda uma representação bastante clara do bicho num vaso feito por volta de 700 a.C.,na ilha de Mykonos.

Clichês funcionam porque são decantados ao longo do tempo. O cavalo tosco de madeira com rodas nas patas é o que sobrou depois de Virgílio,do Vaso de Mykonos,da ideia do que guerreiros em cerco conseguiriam construir. Não é fato,claro,mas é um consenso de três mil anos.

Passa porque quem faz um filmãozão desses pode fazer qualquer coisa.

As reverências à sensibilidade contemporânea,por sua vez,tiram de Ulisses camadas do “homem complicado”,o homem de muitos caminhos e expedientes,astuto,versátil,escorregadio. Em Homero,ele sofre profundamente as consequências da Guerra de Troia,mas não questiona a legitimidade dessa guerra nem tem crises de consciência por sua participação nela. É um homem do seu mundo,não um herói atual. É outra lógica moral.

Também não gostei das constantes referências aos “povos do mar”,nem da conclusão de Ulisses de que a Guerra de Troia foi uma disputa por rotas comerciais. Essas são leituras da arqueologia contemporânea que,postas na boca de personagens homéricos,soam anacrônicas.

Mas,no fundo,nada disso tem importância. O poema é uma coisa,o filme,forçosamente,outra. O fato de um estar chamando a atenção para o outro é um verdadeiro milagre: não é o máximo que todo mundo esteja discutindo personagens criados há mais de três mil anos?

O filme é uma ode ao poema,à Mãe de Todas as Histórias.

Está à altura.

Em tempo: ninguém fala sobre o colapso das civilizações da Idade do Bronze como Eric Cline,professor de Clássicas e Antropologia da George Washington University. Há várias palestras dele no YouTube sobre o assunto; a minha favorita fica em cronai.s.gy/odisseia.