
Drone Campus Guardian Angel derruba um manequim durante demonstração na Memorial High School,em Houston,no Texas,em janeiro de 2026 — Foto: Cortesia/Campus Guardian Angel
Escolas de pelo menos três estados dos Estados Unidos começarão a contar ainda neste ano letivo com drones projetados para responder a ataques armados. As aeronaves,feitas de plástico e consideradas não letais,podem percorrer corredores em alta velocidade,quebrar janelas e lançar gel de pimenta contra um atirador caso professores relatem uma ameaça,antecipou o Washington Post (WP).
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Nove escolas — três na Flórida,cinco na Geórgia e uma no Colorado — receberão os equipamentos,produzidos pela empresa Mithril Defense,no Texas. Os drones,armazenados em caixas de segurança dentro das escolas,podem ser acionados por professores e,segundo a fabricante,são capazes de alcançar um atirador em até 15 segundos. Essa característica é potencialmente decisiva porque a maioria dos ataques em escolas dura dois ou três minutos,disse o CEO da companhia,Justin Marston,à CBS.
— Estas são as primeiras escolas em que estamos implantando o sistema — disse Marston sobre as instituições que adotarão os drones da empresa. — Acreditamos que toda escola deveria ter algum tipo de sistema para neutralizar atiradores em ataques. Daqui a cinco anos,você não mandaria seus filhos para uma escola que não tivesse um.

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Os aparelhos disparam gel de pimenta,emitem luzes estroboscópicas,acionam sirenes e colidem contra um alvo a até 97 km/h,numa tentativa de desorientá-lo até a chegada das forças de segurança. Os drones também podem entrar em salas de aula antes dos policiais,o que pode salvar vidas,disse Marston,acrescentando que dados mostram que agentes são baleados em cerca de metade dos ataques em massa.
— Depois que os drones estão atrás de você,simplesmente não há como escapar deles — disse ao WP Bill King,ex-integrante da unidade de elite da Marinha dos EUA e cofundador da Mithril Defense.
Os professores poderão acionar os equipamentos por meio de um aplicativo ou de botões de pânico instalados nas salas de aula. Depois disso,pilotos profissionais contratados pela Mithril Defense assumirão o controle remoto das aeronaves. Embora já tenham sido submetidos a simulações,os drones nunca foram utilizados em uma situação real.
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Ao GLOBO,Marston afirmou,em nota,que "os drones da Campus Guardian Angel são equipados com recursos não letais,operados por alguns dos melhores pilotos de drones do mundo e apoiados por uma equipe de elite formada por ex-militares,agentes das forças de segurança e socorristas,todos amplamente treinados para atuar em cenários reais e intervir quando cada segundo faz diferença,salvando vidas durante uma situação de ataque armado em uma escola".
Ataques armados em escolas atingiram um pico de 352 ocorrências em 2023,antes de diminuírem nos dois anos seguintes. Nas décadas de 1970 e 1980,normalmente havia menos de 30 ataques por ano,de acordo com os dados da K-12 School Shooting Database publicados pela CBS. Segundo levantamento do WP,quase 400 mil estudantes já foram expostos à violência armada em escolas desde o massacre de Columbine,em 1999. Nesse período,o jornal contabilizou 435 ataques a tiros.
Os drones fazem parte do crescente mercado de serviços de segurança para as milhares de escolas americanas de ensino básico. Instituições educacionais dos EUA gastam atualmente cerca de US$ 4 bilhões (R$ 20 bilhões) por ano em medidas para reforçar fisicamente suas instalações,com uso de tecnologias como detectores de metais e câmeras de vigilância,segundo o centro de pesquisa Learning Policy Institute.

Drone Campus Guardian Angel derruba um manequim durante demonstração na Memorial High School,em janeiro de 2026 — Foto: Cortesia/Campus Guardian Angel
A Deltona High School,escola pública localizada ao norte de Orlando e que atende cerca de 1,7 mil estudantes,foi a primeira a instalar o sistema,no fim do último ano letivo. Outras duas escolas da Flórida — a Boyd H. Anderson High School,próxima a Fort Lauderdale,e a Godby High School,em Tallahassee — também participarão de um projeto-piloto de US$ 557 mil (R$ 2,8 milhões) financiado pelo governo estadual.
No Colorado,a John Adams Academy,escola pública localizada em Sterling Ranch e que atende estudantes da educação infantil ao ensino médio,financiará com recursos próprios um programa de drones em seu primeiro ano de funcionamento. Já na Geórgia,cinco escolas receberão os drones após a aprovação de um programa-piloto de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões). O governo estadual ainda não definiu quais unidades participarão,mas a Mithril Defense informou que os equipamentos entrarão em operação durante o próximo ano letivo.
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Para o deputado estadual Matt Dubnik,republicano que preside a subcomissão de Educação da Comissão de Orçamento da Câmara da Geórgia,a proposta busca ampliar a proteção de escolas que não contam com agentes de segurança armados no campus. O projeto será testado nas instituições que possuem esses profissionais e nas que não os têm.
— Eu acredito nessa tecnologia — disse Dubnik,acrescentando que centenas de parlamentares compartilharam dessa avaliação ao aprovarem o orçamento.
Marston afirmou que a ideia surgiu após o massacre ocorrido em uma escola primária de Uvalde,no Texas. Em 2022,19 alunos e duas professoras morreram enquanto policiais permaneceram mais de uma hora do lado de fora antes de entrar na sala de aula. O CEO contou que,ao acompanhar o uso de drones de baixo custo por forças russas e ucranianas na guerra entre os dois países,passou a considerar que uma versão não letal poderia ter reduzido o número de vítimas em Uvalde.
— Os primeiros 120 segundos são extremamente críticos,porque é nesse período que ocorre a maior parte dos disparos — afirmou,indicando que,embora possam ser acionados a qualquer momento,eles foram desenvolvidos para situações de ameaça letal. Eles não seriam usados para interromper uma briga entre estudantes,mas poderiam ser empregados caso um dos envolvidos estivesse armado com uma faca.

Drone Campus Guardian Angel quebra vidro de janela durante demonstração na Memorial High School,em janeiro de 2026 — Foto: Cortesia/Campus Guardian Angel
Nos últimos anos,escolas americanas vêm incorporando diferentes tecnologias de segurança diante da ameaça de ataques armados,como câmeras equipadas com inteligência artificial e detectores de armas. Para parte dos especialistas,porém,equipamentos com características de uso militar,como os drones,não deveriam fazer parte do ambiente escolar. Consultores da área de segurança vêm questionando há anos a eficácia de soluções de alta tecnologia para esse tipo de situação.
Segundo eles,medidas mais simples,como manter portas externas trancadas,podem oferecer proteção semelhante. Curtis Lavarello,diretor do School Safety Advocacy Council,empresa de consultoria em segurança escolar,disse temer que os drones possam atingir por engano um estudante que esteja fugindo ou um policial,especialmente caso um professor acione o sistema em razão de um falso alarme.
— É quase como se videogames e segurança escolar se encontrassem. Tenho preocupações realmente sérias sobre a implantação de drones em escolas — disse ao WP.
A Mithril Defense não é a primeira empresa a propor drones voltados para responder a ataques armados em escolas. Ainda em 2022,a Axon Enterprise interrompeu o desenvolvimento de aeronaves equipadas com armas de choque (tasers) após a renúncia coletiva de integrantes de seu conselho de ética,que temiam que os equipamentos pudessem atingir estudantes inocentes ou ser explorados por hackers.
Sobrevivente do ataque à Marjory Stoneman Douglas High School,em Parkland,na Flórida,em 2018,que deixou 17 mortos,Jaclyn Corin afirmou que considera mais importante priorizar políticas voltadas para a prevenção da violência armada do que investir em tecnologias destinadas a responder aos ataques depois que eles começam.
— Os distritos escolares têm orçamentos e capacidade de atenção limitados. Se destinarmos recursos significativos a tecnologias projetadas para responder depois que um ataque começa,precisamos perguntar em que estamos deixando de investir — disse Corin,diretora-executiva e cofundadora da March for Our Lives,organização liderada por jovens que defende regras mais rígidas para o controle de armas.
Na Flórida,o governo estadual pretende avaliar o número de ocorrências violentas nas escolas participantes e medir o tempo de resposta às ameaças. Também serão realizadas pesquisas com pais,estudantes e funcionários para verificar se eles se sentem mais seguros com a presença dos equipamentos. Ainda assim,segundo Marston,em geral basta uma demonstração das capacidades dos drones para convencer as pessoas.
— Todo mundo costuma dizer: “Mostre para mim”. E,quando mostramos,é quase como se tivéssemos inventado a eletricidade.