
O senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — Foto: Cristiano Mariz/O Globo e Ana Paula Paiva/Valor
GERADO EM: 26/06/2026 - 21:01
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Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim,tal é a conversa em Brasília,melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.
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Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos,gente graúda,a crise já está instalada e precisa ser resolvida,com ampla apuração e punição dos culpados,tudo dentro da lei. Faz sentido,mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá,funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita,de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.
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Vorcaro foi bem esperto. Distribuiu dinheiro e favores com as duas mãos. Formou uma legião não de “amigos de vida”,mas de autoridades interessadas em abafar o caso,por puro instinto de sobrevivência. Mas o que fazer com o próprio? A mesma coisa que ele,Vorcaro,está fazendo. Vai enrolando. Oferece uma delação fajuta,depois outra,quem sabe uma terceira — e assim vai ganhando tempo à espera de que o caso esfrie. Daí pode receber uma pena pequena,quem sabe uma domiciliar,salvando uns trocados. Moral da história: se todos estão envolvidos,então ninguém está envolvido.


Esse tipo de lógica,que faz desaparecer o problema,vale para diversas situações. O leitor pode estranhar,mas considere o caso da taxa de juros e das metas de inflação. A inflação está em alta sob qualquer medida que se considere. As projeções também. Pela regra do regime de metas,o Banco Central deveria elevar a taxa de juros (a Selic) e não reduzi-la,como fez há duas semanas. Mas,sabe como é,a Selic já está muito alta,há bastante tempo. E se a gente olhar mais à frente,lá por 2028,a inflação se aproxima da meta de 3% ao ano. Ao adiar o cumprimento da meta,o BC está,de certo modo,mudando o alvo. E tem gente dizendo que essa meta de 3% é muito baixa. Elevando-a para,digamos,5% ao ano,está tudo resolvido. Já estamos lá,os juros podem ser derrubados.


Não é mesmo uma manobra parecida,suprimir o problema? Se bem que,nesse caso,tem outra lógica. Como diz o próprio BC,uma causa básica da inflação está no frequente aumento de gastos do governo Lula,estimulando o consumo. O BC eleva juros para esfriar a economia e derrubar a inflação. Mas o governo acelera gastos e distribui créditos subsidiados,o que aquece a economia e pressiona a inflação. Além disso,os déficits seguidos do governo Lula elevam a dívida pública e,pois,os juros. Para os analistas de fora do governo,o déficit deste ano chegará a R$ 60 bilhões. Mas,quando se olha para as projeções do Ministério da Fazenda,lá se diz que o resultado das contas públicas será um superávit em torno de R$ 4 bilhões. E as duas aritméticas,acreditem,estão certas. Ocorre que a Fazenda tira várias despesas da contabilidade oficial,até chegar a um superávit,que é meta do arcabouço fiscal.
De novo,suprimiram o problema. Na real,tem déficit. No papel timbrado,sobra dinheiro. Vai por aí o caso dos penduricalhos. Pela Constituição,nenhum funcionário público pode receber mais de R$ 46.336,19,valor do subsídio mensal dos magistrados do Supremo Tribunal Federal. É o teto. Milhares de funcionários ganham muito mais que isso,com base em interpretações jurídicas construídas pelos próprios interessados. Surgiram assim os penduricalhos,auxílios diversos,vantagens,indenizações,que ultrapassam o teto,mas são considerados extrateto. O STF poderia simplesmente declarar que teto é teto — e ponto final. Em vez disso,está regularizando os penduricalhos. Na prática,suprimiu o teto.
E ficamos assim: na real,tem corruptos; a inflação está fora da meta; o déficit público sobe; a dívida aumenta; funcionários recebem acima do teto. No modo à brasileira,os corruptos escapam,a meta de inflação se ajeita,o buraco nas contas públicas desaparece,e o teto salarial não existe.