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Filhos de Caetano, de Gil, de Rita Lee e dos Novos Baianos contam da dor e da delícia de ser criança nos tempos do desbunde

Jun 17, 2026 IDOPRESS

Moreno Veloso,em cena do documentário 'Nem tudo é paz e amor',na programação do festival In-Edit de 2026 — Foto: Divulgação/Bruno Graziano

A história da contracultura brasileira já foi contada sob os mais diversos aspectos,em livros e filmes — mas nunca antes pelo olhar dos filhos dos desbravadores. Delícias e agruras das crianças que — para começo de conversa — tiveram uma educação bem diferente daquela dos seus coleguinhas estão em “Nem tudo é paz e amor”,documentário de Betão Aguiar,programado para estrear na 18ª edição do In-Edit Brasil — Festival Internacional do Documentário Musical,que começa hoje,em São Paulo.

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O doc tem sessões no sábado (às 20h30,no Cinesesc) e nos dias 25 (às 20h,na Cinemateca Brasileira) e 28 (às 14h,no Spcine Olido).

— Minha mãe falou que o filme devia ter um subtítulo,“os sem-sofá” — diverte-se Betão,filho de Paulinho Boca de Cantor (do grupo Novos Baianos) e de Marília Aguiar,que,por ser o caçula,não viveu tanto quanto a sua irmã,Maria Meneghini,a obsessão dos pais por abolir a mobília tradicional e sentar-se em qualquer canto. — Buchinha (a irmã) ficou dois anos e meio sem nome e vivia no sítio dos Novos Baianos,onde não tinha quarto só para ela,a comida dela era roubada... Minha mãe conta muito essa história (no livro “Caí na estrada com os Novos Baianos”).

Os primogênitos dos Novos Baianos,mais os de Caetano Veloso (Moreno Veloso),Gilberto Gil (Nara Gil),Rita Lee (Beto Lee),Rogério Duarte (Areia Duarte) e Itamar Assumpção (Anelis Assumpção) foram convocados para contar suas histórias de infância para este filme,que começou como um projeto de uma amiga de adolescência de Betão: a produtora Jasmin Pinho,falecida em 2020,ela mesma filha de hippies de Salvador.

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— Os pais dela tinham uma casa na Boca do Rio,praticamente em frente à praia dos artistas. Quando eu era criança,a gente ia muito lá,era onde a galera fumava um,porque tinha uma colina que tapava o cheiro da maconha — recorda-se Betão,que convocou para dar depoimento a “Nem tudo é paz e amor” a irmã mais velha de Jasmin,a produtora cinematográfica Minom Pinho (no filme,ela admite o grande sonho dos 8 anos de idade: “Ser careta”).

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Com imagens de arquivo tiradas de muitos dos filmes contraculturais brasileiros dos anos 1970 (e uma trilha que traz pérolas da época e músicas afins de artistas contemporâneos,como Fernando Catatau e Picanha de Chernobill),“Nem tudo é paz e amor” (que chega ao circuito comercial no segundo semestre,pela Pandora Filmes) dá voz aos filhos,boa parte dos quais se tornou também artistas,teve seus filhos e segue compartilhando das utopias dos pais.

Um dos depoimentos mais simbólicos é o de Sarah Sheeva,filha dos novos baianos Pepeu Gomes e Baby do Brasil. Ela fala dos traumas que teve ao ser batizada de Riroca e de sua vida,hoje totalmente afastada da contracultura,como missionária evangélica e cantora gospel.

— Tem um certo preconceito de quem é do nicho da música com a questão dos evangélicos,mas acho Sarah uma artista incrível,que faz uma parada muito de verdade. Quis evidenciar um pouco dessa lucidez dela,deixá-la falar da ausência dos pais de uma maneira bem clara,e de quanto ela se sentiu acolhida na igreja,onde poderia chorar,coisa que era difícil no meio da gente — conta o diretor.

Sarah Sheeva,em cena do documentário "Nem tudo é paz e amor",na programação do festival In-Edit de 2026 — Foto: Divulgação/Bruno Graziano

Para Betão Aguiar,que também é músico (há mais de 20 anos toca com Arnaldo Antunes),“os pais da gente erraram,mas erraram tentando fazer o melhor,tentando melhorar”:

— E,como diz a Ciça,filha do Moraes Moreira,os pais caretas também faziam muita merda. Mas eles eram os moralistas,os primeiros a querer esconder as coisas que faziam.