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Um pedido de ajuda

Jul 9, 2026 IDOPRESS

Celular utilizado à noite — Foto: Freepik

Na semana passada,fui ao teatro. A peça,que era uma adaptação de um livro que adoro,durava duas horas. Sentei,a campainha soou e a cortina se abriu. Passado um certo tempo,fui surpreendido. E não por algo que estava no palco,mas pelo impulso quase automático de pôr a mão no bolso e desbloquear o celular. Eu não fiz isso,até porque estava em modo avião. Mas tive vontade. Mais de uma vez,para ser sincero.

E o que mais me intriga é que já era noite e eu não estava esperando uma mensagem importante. Também não tenho filhos,o que até justificaria uma preocupação. Nada disso,mas ainda assim tive vontade. Um misto de curiosidade com o que poderia ter de notificação,urgência de estar perdendo algo importante e medo de que alguém precisasse de mim. Ou,talvez,só um hábito mesmo.

Se eu pegasse o celular,essa seria apenas mais uma das centenas de vezes em que o desbloqueio durante o dia,checo as redes sociais e percorro vários aplicativos,quase em um looping. Tudo igual,daqui a pouco repito.

Venho percebendo que o intervalo entre uma checagem e outra fica menor. Qualquer momento de pausa,celular na mão. Na verdade,não necessariamente pausa,porque às vezes,durante um filme ou uma conversa com alguém,a vontade aparece. E isso não é só comigo,basta ver que o hábito de usar um segundo dispositivo enquanto se consome outro conteúdo em tela tem até nome,second screening. Uma tela não basta mais.

Os números também assustam. O brasileiro passa,em média,nove horas e 13 minutos por dia diante de telas,o segundo maior índice do mundo. Passamos mais tempo olhando para telas do que dormindo. É claro que hoje o celular ou o computador são ferramentas de trabalho e comunicação,mas não há dúvidas de que boa parte desse tempo é excesso de informação. Uma forma quase que inconsciente de passar o tempo e buscar novos estímulos.

Já busquei aplicativos que bloqueiam redes sociais ao longo do dia. Alguns,inclusive,são pagos. Para piorar,há os que cobram multa em dinheiro de verdade se você furar o próprio bloqueio. Repare nessa engenharia: as plataformas criaram a demanda,e agora pagamos a terceiros para nos proteger delas.

E os efeitos desse fenômeno são cada vez mais claros. Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia mediu que,em 2004,conseguíamos manter o foco em uma única tela por dois minutos e meio. Em 2021,47 segundos. A pesquisa ainda mostra que interrompemos a nós mesmos com mais frequência do que somos interrompidos. Ou seja,é automático.

E esse pedido de ajuda é compartilhado. Em pesquisa feita pela Bain & Company,que perguntou a dois mil brasileiros qual hábito gostariam de mudar,o tempo de tela ficou em primeiro lugar (na frente da alimentação e do sedentarismo).

No teatro,eu não peguei o celular até o fim da peça. Mas,no dia seguinte,a vontade ganhou,dezenas de vezes,quase sem que eu percebesse. A existência do problema,portanto,não é mais uma dúvida. E a sensação que fica é a de que estamos perdidos,sem conseguir entender qual o limite do uso e o que passa a ser desperdício. Como tirar o celular da mão,se quem o controla sou eu? Não tenho respostas,só um pedido de ajuda.