
Turista caminha com guarda-chuva para se proteger do sol em frente à Catedral de Notre-Dame,em Paris — Foto: Simon WOHLFAHRT / AFP
Este conteúdo faz parte da newsletter de Michel Alcoforado,enviada todas as sextas-feiras gratuitamente. Inscreva-se e receba diretamente no seu e-mail.
Junho inaugura o verão no Hemisfério Norte,mas abre as portas do inferno na Europa. O mar azul da Riviera Francesa parece miragem para os milhares de profissionais recém-chegados ao mais tradicional festival de criatividade do mundo. Desde 1984,Cannes reúne publicitários e curiosos ansiosos por saber qual foi a melhor ideia,a mais grandiosa,da temporada. Apesar das disputas,os brasileiros com quem converso concordam: até agora,nenhuma sacada chega nem perto da invenção de uma ducha gelada e do ar-condicionado.
Nesta semana,o Velho Mundo foi tomado por uma onda de calor capaz de fazer qualquer negacionista climático duvidar da própria burrice. Desde 1947,quando começaram as medições,a França não via temperaturas tão altas. Paris,na última quarta-feira,enfrentou a onda de calor mais intensa da História,com dias e noites sufocantes. Tão sufocantes que as autoridades locais decidiram manter parques e praças abertos 24 horas para quem preferir o perigo de dormir ao relento ao risco de morrer desidratado dentro de casa.
Há tempos,os pesquisadores nos alertam para o caos. A estimativa de aumento da temperatura média global em 1,5°C até 2030 já chegou,confirmando o ritmo acelerado de transformações previstas por David Wallace-Wells no livro “A Terra inabitável: uma história do futuro”. O problema é maior do que suor na testa,camisas ensopadas ou desodorante vencido. Tais temperaturas já impactam severamente as cadeias alimentares,a infraestrutura costeira e os recursos hídricos,e darão fim a boa parte dos corais marinhos e a toneladas de peixes e frutos do mar. Sem falar no aumento vertiginoso de mortos por conta das ondas de calor ou dos desastres causados por ciclones tropicais.
O medo do futuro não é maior do que o desespero do presente. Pelas ruas de Cannes,o Norte Global deixa claro que a compostura e a finesse europeia não sobrevivem a altas temperaturas. Eles parecem pouco preparados para o fim do mundo. Não à toa,quando descobrem que sou brasileiro,me questionam sobre como suporto viver em um país tropical e me cobram dicas como se eu tivesse um guia de sobrevivência dentro de mim. De pronto,com deboche,respondo: para além da redefinição dos modos de produção e consumo,é preciso civilizar os hábitos. O jogo virou. Banho gelado e ar-condicionado já ajudam.
Continuar Lendo
Os brasileiros lideram o ranking mundial de higiene pessoal. Em comparação com outras nações,tomamos,em média,14 banhos por semana,contra apenas seis dos franceses,espanhóis e americanos,segundo estimativas do Instituto de Opinião de Marketing da França. Sabemos bem o valor de uma ducha gelada e de uma roupa limpa quando o desespero bate à porta e o calor frita os miolos. Além disso,é preciso acreditar no poder de um bom ar-condicionado. Eles desconfiam. A invenção do americano Willis Carrier,de 1902,ainda é tratada aqui com a mesma suspeição de um remédio sem bula. Corre solto o boato de que o ar-condicionado dá torcicolo,dor nos pulmões,sinusite e resfriados inesperados e de que o ar que sai da traquitana come anos de vida. Enquanto isso,eles fritam. Minha avó diria: “Quando a cabeça não pensa,o corpo paga.” No caso europeu,literalmente.