
Os participantes vivenciam o “Lincoln Center Moments”,um programa inédito baseado em performances,criado especificamente para pessoas com demência e seus cuidadores — Foto: ANGELA WEISS / AFP
GERADO EM: 15/06/2026 - 10:23
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No início dos seus 60 anos,Rob Kaufman sofreu uma emergência médica que o fez desmaiar e bater a cabeça em um piso de madeira,resultando em uma lesão cerebral traumática.
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Ele foi colocado em coma induzido,contou sua esposa,Ellen,à AFP,e permaneceu na unidade de terapia intensiva por cerca de um mês. Em seguida,passou por nove semanas de intensa reabilitação,incluindo terapia da fala. Hoje,convive com uma perda significativa da memória de curto prazo.
A musicoterapia se mostrou uma ferramenta valiosa na recuperação do ex-músico de estúdio,que afirma ter tocado com nomes como Jimi Hendrix.
Atualmente,os Kaufman frequentam regularmente um programa de concertos em Manhattan voltado para pessoas que apresentam sintomas de demência.
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Recentemente,o casal participou de uma apresentação comemorativa pelos dez anos da iniciativa,que contou com a participação do Quarteto de Cordas Calidore.
Os músicos encerraram a temporada de primavera diante de uma plateia lotada,formada por cerca de 100 pessoas.

Os participantes vivenciam o “Lincoln Center Moments”,criado especificamente para pessoas com demência e seus cuidadores — Foto: ANGELA WEISS / AFP
Uma espectadora fechou os olhos e simulou reger a orquestra enquanto os artistas tocavam Mozart. Outra batucava no braço de sua cuidadora,como se estivesse tocando teclas de piano.
O Lincoln Center,famoso complexo artístico localizado no Upper West Side de Nova York,criou a série em resposta a uma necessidade identificada pela instituição,explicou Miranda Hoffner,diretora de acessibilidade do local.
— Estávamos ouvindo cada vez mais de nossos assinantes da Filarmônica e da Sociedade de Música de Câmara que eles não estavam renovando suas assinaturas por causa da demência,já que seus familiares tinham sido afetados — disse ela à AFP.
— Era um público que realmente nos apoiava havia,em alguns casos,décadas — continuou.
— Sentimos a responsabilidade de preencher essa lacuna.

Os participantes vivenciam o “Lincoln Center Moments”,criado especificamente para pessoas com demência e seus cuidadores — Foto: ANGELA WEISS / AFP
Demência é um termo abrangente utilizado para descrever sintomas debilitantes que podem provocar perda de memória e comprometer os movimentos e as atividades da vida cotidiana.
A doença de Alzheimer responde pela maioria dos casos,mas diferentes fatores de risco e condições podem desencadear o quadro.
Segundo a Organização Mundial da Saúde,cerca de 57 milhões de pessoas viviam com demência em todo o mundo em 2021,com aproximadamente 10 milhões de novos casos registrados a cada ano. A condição é progressiva e não tem cura.
Os casos vêm aumentando,em parte,porque a geração dos baby boomers — pessoas nascidas durante o crescimento populacional após a Segunda Guerra Mundial — atingiu a terceira idade e,de modo geral,está vivendo mais do que as gerações anteriores.
Isso significa que essas pessoas estão enfrentando mais doenças crônicas e outros problemas de saúde associados ao envelhecimento.
Entre eles está a demência,afirmou Emily Finkelstein,especialista em geriatria do centro médico NewYork-Presbyterian.
E,especialmente nos Estados Unidos — onde o sistema de saúde é caro e complexo —,faltam estruturas sociais mais amplas para atender essa crescente população de pessoas com demência,disse a médica à AFP.
— É um problema enorme — declarou.
Finkelstein destacou a ampla quantidade de evidências que demonstram os benefícios de terapias baseadas em arte,música e dança para pessoas com comprometimento cognitivo.
Nos Estados Unidos,porém,esses programas costumam ser localizados e,para muitas pessoas,de difícil acesso.
— Não temos um programa nacional de saúde. É muito mais complicado estruturar e ampliar esse tipo de iniciativa,embora saibamos que elas são benéficas — afirmou Finkelstein.
No Lincoln Center,a programação voltada para pessoas com demência e seus cuidadores é oferecida gratuitamente.
Uma organização sem fins lucrativos dedicada ao apoio de cuidadores de pacientes com Alzheimer treinou os funcionários sobre a melhor forma de acolher o público e desenvolver apresentações acessíveis conduzidas por artistas de nível internacional.
— Você verá pessoas de mãos dadas,verá pessoas batendo o pé no ritmo,verá pessoas participando vocalmente da música — disse Hoffner.
Os concertos são menos formais e mais descontraídos do que as apresentações tradicionais de música clássica. Além disso,contam com workshops conduzidos por musicoterapeutas e educadores artísticos para estimular a participação e o envolvimento criativo dos participantes.
Hoffner afirmou que parte do objetivo é oferecer recursos para que os idosos possam “envelhecer em casa”,apesar de viverem em uma cidade notoriamente agitada.
Para Rob Kaufman,hoje com 73 anos e ex-professor de matemática e ciências,os concertos proporcionaram uma forma de,como define sua esposa,“sair da própria concha”.

Os participantes vivenciam o “Lincoln Center Moments”,criado especificamente para pessoas com demência e seus cuidadores — Foto: ANGELA WEISS / AFP
— Todos nós somos diferentes de quase todas as outras pessoas lá fora,então,quando estamos em uma comunidade como esta,podemos ser diferentes,e aceitamos isso — disse ele.
Ellen Kaufman afirmou que,quando começou a lidar com a nova realidade do marido,havia menos programas disponíveis.
— Significa muito para nós ter isso. Para todos aqui,não é fácil. Vejo o que meus amigos estão enfrentando. Eles estão vendo seus maridos mudarem — disse ela.
— Mas eles fazem isso junto com eles — saem com eles e fazem parte disso.