
A cantora espanhola Silvia Pérez Cruz,em passagem pelo Rio de Janeiro — Foto: Guito Moreto
A cantora espanhola inicia em setembro a turnê brasileira do disco "Oral_Abisal". As apresentações ocorrem em Porto Alegre,São Paulo e Rio de Janeiro. O novo trabalho traz duas faixas compostas no Rio de Janeiro. Entre elas está uma parceria com o cantor Jota.pê,intitulada "Gelando". Após a turnê,a artista planeja uma pausa de seis meses na carreira. Antes,ela assinará a trilha sonora de um filme na Europa. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Dos nomes mais consagrados da moderna/tradicional música espanhola,a cantora Silvia Pérez Cruz,de 43 anos,chegou ao Rio de Janeiro,de férias,no último dia 9,para ver muitos de seus amigos músicos na cidade e espairecer um pouco. Mal saiu do avião,já estava no show de Caetano Veloso e Emicida no festival Doce Maravilha.
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Até a última terça,dia 19,quando correu para o México,a fim de começar a turnê latino-americana do disco “Oral_Abisal”,ela foi assistir ao show da amiga Rosalía (do disco “Lux”,no qual gravou uma participação na faixa “La Rumba Del Perdón”),cantou com o sambista Mosquito no Beco do Rato e,com ele de novo,no Circo Voador no festival Medio y Medio (no qual encontraria ainda no palco a cantora Maria Gadú). No Rio,Silvia ainda gravou com o produtor Lucas Nunes e,andando pela Praia do Leme (um de seus programas favoritos no Rio),trombou com uma roda de candombe uruguaia — da qual não conseguiu escapar sem cantar.
— Já tenho muitas histórias com o Brasil,ele faz mais parte da minha geografia emocional — alegra-se a cantora,que já fez shows brasileiros com Gadú,Zé Ibarra,Hamilton de Holanda,entre outros; e que agora volta ao país para “fechar o círculo” (depois de passar por México,EUA,Cuba,República Dominicana,Chile e Argentina) com uma rodada de shows de “Oral_ Abisal”.
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O giro começa no próximo dia 2 em Porto Alegre (no Teatro Bourbon Country),passa dias 5 e 6 por São Paulo (no Sesc Pompeia) e chega dia 8 ao Rio (no Teatro Riachuelo).
Lançado em maio,o álbum de Silvia Pérez Cruz transita por diferentes universos.
— Há dois anos comecei a compor e percebi que estava trabalhando com dois sons. Um,que mais tarde se tornaria “Oral”,mas ainda não sabia,era mais um som de madeira,de violão,com mais acordes,mais músicas tradicionais — conta. — Mas também queria explorar sons,com instrumentos de sopro e uma abordagem mais de estúdio. Olhando para isso,pensei: “Estou trabalhando com duas coisas,preciso de dois núcleos,tenho que aceitar isso.” Então comecei a mergulhar nessa dualidade,para chegar à síntese que considero a resposta.
“Oral_ Abisal”,mais uma vez em sua obra,remete ao mar. Desta vez,não como “uma inspiração romântica”,e sim “como imagem de um mergulho profundo”.
— E ele também aparece como um líquido,como aquele desejo de se tornar parte de algo,de se dissolver no resto — define a artista,que diz ter passado por um “processo de cura e transformação” nas gravações. — Para mim,“Oral” é o conhecido,o familiar; e “Abisal”,o desconhecido. Acho que,quando alguém tem coragem e enfrenta seus medos,o desconhecido,depois,há um renascimento. Consegui atravessar meus medos e isso traz presentes muito pequenos,mas imortais. É um renascimento absoluto,mais um na vida.
A parte “Abisal”,diz Silvia,é a que traz a parte mais social do disco. E,entre os temas abordados,está o feminismo,“para dizer que as mulheres não são apenas inspiração,cuidado ou espera,também somos pensadoras,criadoras e líderes”. Não por acaso,ela trouxe para o disco,como cantora,a filha de 18 anos,Lola.
— Nos últimos shows na Europa,ela veio cantar comigo. Ah,foi uma emoção,eu nem conseguia olhar para ela! — diz a mãe coruja,que,no entanto,não terá a filha nos shows no Brasil (“Ela já veio muitas vezes comigo,ela adora o país,mas agora tem que estudar!”). — Construí toda a minha carreira como mãe solteira,e não tive nenhum modelo a seguir. Estou muito feliz por ter conseguido ganhar a vida com a música,e agora começo um novo capítulo na vida,a Lola me lembra de como eu era antes de me tornar mãe,aos 24 anos. Agora estou aprendendo a cuidar de mim mesma também. A minha filha viu tudo isso,viveu tudo isso,e é lindo vê-la agora,não na plateia,mas comigo no palco.
Recentemente,Rosalía confessou que as duas vozes mais importantes para ela em sua vida eram as de Silvia Pérez Cruz e da diva espanhola do flamenco Estrella Morente — e as levou para “Lux”,ambas em “La Rumba Del Perdón”.
— Sei que fui uma influência para Rosalía,e acho que nós duas temos,sim,uma forma de entender a arte e música como algo sem limites. Cada uma com seu estilo,com seu gosto. Esse álbum que ela fez é tão lindo,e as apresentações ao vivo são a catedral inteira que ela imaginou — elogia Silvia. — Sabe que três anos atrás nós nos encontramos em Los Angeles e eu contei que tinha tido um sonho em que ela estava gravando um álbum com uma orquestra sinfônica,música eletrônica e Estrella Morente? E Rosalía falou: “Como é que você sabe que é isso que estou fazendo?” Dois meses depois,me chamou para cantar na faixa... ela poderia ter escolhido quaisquer pessoas que quisesse,mais famosas até. É uma honra que ela me tenha escolhido,dentro desses caminhos possíveis.
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Para Sílvia Pérez Cruz,o show de “Oral_Abisal” é “um animal vivo”,com o qual ela busca “dissonâncias,contraponto” e tenta “alcançar todos os aspectos do som”. Ela se apresenta com Carlos Montfort (“um violinista mexicano,com quem toco há 14 anos”),Marta Roma (violoncelo,trompete e backing vocals) e Bori Albero (contrabaixo e backing vocals).
— Somos quatro,e ainda toco violão,mas às vezes nos sentimos como se fôsssemos 20. Quando você compõe sozinha,pensa muito,organiza as coisas,está com os músicos,e sabe o que está fazendo. Mas aí sobe ao palco e existe uma pulsação que não depende de você,depende das pessoas,do público,como se a arte se manifestasse,encontrasse seu espaço e lhe dissesse o que precisa — explica. — Nesse show,realmente percebi a independência da performance,é como se ele fosse uma entidade viva que lhe diz o que precisa. Quando o show termina,sinto que não importa se estou lá ou não. É algo que transcende o artista.
“Oral_Abisal” tem duas músicas que Silvia Pérez Cruz compôs no Rio: a bossa nova “É triste viver sem seu amor” e “Gelando”,parceria com Jota.pê,gravada com o próprio.
Depois do giro latino-americano,Silvia vai cuidar da trilha sonora de um filme e fazer um show com uma formação de cordas para a inauguração do Teatro Nacional de Barcelona.
— E depois,pela primeira vez na vida,vou parar por seis meses,não terei uma data definida para fazer nada. Vou compor o que precisar ser composto,mas apenas farei concertos improvisados,não vou mais viajar como uma louca.