
Queimada nas imediações da Transamazônica — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP/04/09/2024
GERADO EM: 21/07/2026 - 21:41
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A expectativa de chegada do Super El Niño,que pode trazer uma seca severa ao Norte do país,desafia a manutenção da queda no total de áreas queimadas no país. Disponibilizados na terça-feira pelo MapBiomas,dados coletados a partir de imagens de satélite mostram que 12,7 milhões de hectares do território brasileiro foram devastados pelo fogo em 2025. O total equivale a menos da metade dos mais de 30 milhões de hectares queimados em 2024. É também 31% abaixo da média histórica (18,4 milhões de hectares) mensurada desde 1985. Especialistas avaliam que a incidência de chuvas e a aplicação de políticas de combate ao desmatamento na Amazônia ajudam a explicar a redução.
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Um ano após a forte seca que levou ao pique de queimadas no bioma,a Amazônia apresentou queda acentuada na área queimada: passou de 15,8 milhões de hectares em 2024 para 3,1 milhões de hectares em 2025. Essa é a menor quantidade observada no bioma em 41 anos,quando foi iniciada a medição.
Para Ane Alencar,diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Fogo,essa redução da área queimada no bioma decorre das condições climáticas em 2025 e das políticas ambientais em vigor.
— A questão climática importa. Tivemos um processo de atraso do período chuvoso de 2024 para 2025. Em algumas regiões,a chuva não parou completamente. (Esse cenário) é importante para segurar o processo de queima. Não se criou a janela “ideal” para ter a queima em alguns lugares do país — explica Alencar,que completa: — O país registrou também uma redução muito importante do desmatamento.
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Os pesquisadores destacam que a queda,no ano passado,interrompe uma sequência de anos de expansão do fogo e “devolve o país a um patamar historicamente mais baixo de área queimada”. Mesmo em declínio,a dimensão do território consumido pelo fogo no Brasil em 2025 equivale a quase três vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro.

Levantamento do MapBiomas mostra dados de área queimada no Brasil — Foto: Editoria de Arte
Especialistas avaliam que,para que o país mantenha a redução nos próximos anos,é preciso agir na Amazônia. As frentes devem mirar o combate às possíveis consequências da seca severa e das altas temperaturas oriundas do Super El Niño que se aproxima.
— O ano seguinte ao El Niño é o que (tradicionalmente) tem o maior impacto na área queimada — alerta Alencar.
Mesmo com a queda,a Amazônia continua concentrando,ao lado do Cerrado,a maior parte de tudo o que já queimou no país desde 1985: os biomas respondem,juntos,por 86% da área atingida pelo fogo pelo menos uma vez nas últimas quatro décadas.
Em 2025,o Cerrado também recuou em relação à média histórica,mas permaneceu como o bioma mais afetado pelo fogo . Tanto no ano passado quanto na série histórica,com 8,7 milhões de hectares queimados em 2025 e uma média anual de 9,6 milhões de hectares.
O Pantanal,por sua vez,teve a maior queda proporcional entre os biomas,com apenas 121 mil hectares queimados no ano passado,uma redução de 85,6% na comparação com a média histórica. Essa também foi a menor área queimada já registrada no bioma nas quatro últimas décadas.
A Caatinga foi o único bioma cujo caminho foi inverso,tendo queimado mais em 2025 na comparação com a média histórica,com 505 mil hectares consumidos pelo fogo no ano passado.
— A expansão recente da fronteira agropecuária em zonas de transição com o Matopiba,somada à recorrência de secas severas e ao uso indiscriminado do fogo como ferramenta de manejo,mantém o bioma em um patamar de risco elevado. Isso se traduz em área queimada acima da média histórica mesmo em um ano de queda nacional — explica Nerivaldo Afonso,pesquisador da equipe Caatinga do MapBiomas.
Já o Pampa apresentou um crescimento na comparação com 2024,mas permaneceu abaixo da média histórica do bioma.
Os dados também permitem identificar a severidade potencial do fogo,que estima o grau de impacto das queimadas sobre a vegetação em cinco níveis (baixa,moderada,alta,muito alta e extrema). Outra frente mensurada é o intervalo de retorno do fogo,que quantifica o número de anos entre as ocorrências de fogo em uma mesma área.
O levantamento aponta que 64% da área queimada no país teve severidade moderada ou baixa. Há o alerta,entretanto,que,em biomas como Mata Atlântica,Pampa e Pantanal,as classes de severidade alta e muito alta já respondem por metade ou mais da área queimada.
Já quanto à recorrência das queimadas,os dados mostram também que 64% de toda a área queimada no Brasil desde 1985 pegou fogo mais de uma vez,e que 52% dos territórios com recorrência voltam a queimar em até quatro anos.
Os intervalos de recorrência são mais curtos na Amazônia,apontam os pesquisadores. No bioma,31,6% da área queimada volta a pegar fogo em até dois anos,um “sinal de que a vegetação tem cada vez menos tempo para se recuperar entre um evento e outro”.
— Na Amazônia,onde a vegetação não é adaptada ao fogo,intervalos tão curtos entre os eventos reduzem o tempo de recuperação da floresta e aumentam o risco de novos incêndios,mais intensos e degradantes. Esse processo pode comprometer progressivamente a regeneração e tornar a floresta cada vez mais vulnerável ao fogo — explica Luiz Felipe Martenexen,pesquisador do MapBiomas Fogo e do Ipam.
O Cerrado,concentra a maior proporção de área queimada mais de uma vez: 66% de tudo o que já queimou no bioma teve mais de uma ocorrência de fogo desde 1985.
— O fogo faz parte da dinâmica natural do Cerrado,mas a incidência atual,marcada por eventos mais frequentes e extensos,pode ultrapassar a capacidade de recuperação da vegetação. Quando esse regime se intensifica,aumentam os riscos de perda de biodiversidade — afirma Vera Laísa Arruda,pesquisadora da equipe MapBiomas Cerrado e do Ipam.
Os dados mostram que 47% de toda a área queimada no Brasil desde 1985 estão concentrados em três estados: Mato Grosso,Pará e Maranhão. Eles registraram 45,1 milhões,6 milhões e 20,7 milhões de hectares queimados,respectivamente,ao longo dos 41 anos analisados.
Já em nível municipal,11% de toda a área queimada do país está concentrada em 15 municípios. Os destaques são Corumbá (MS) e São Félix do Xingu (PA),que lideram o ranking histórico.
O levantamento também aponta que 71,5% de toda a área queimada no país nos 41 anos analisados ocorreu em vegetação nativa. Já 28,5% atingiram áreas de uso antrópico,como pastagens e áreas agrícolas.
A proporção,varia conforme o bioma. O MapBiomas destaca que,na Amazônia e na Mata Atlântica,o fogo em áreas antrópicas já é predominante,respondendo por mais da metade das queimadas,sobretudo nos territórios de pastagens.
O cenário é inverso na Caatinga,no Cerrado,no Pampa e no Pantanal,onde o fogo em vegetação nativa segue respondendo por mais de 80% de tudo o que já queimou.