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Uma vacina contra o esquecimento?

Jul 21, 2026 IDOPRESS

Novo imunizante para herpes-zóster chega ao Brasil e reforça importância de se vacinar os idosos. — Foto: FreePik

RESUMO

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GERADO EM: 17/07/2026 - 19:09

Vacina contra herpes-zóster pode ajudar na prevenção da demência,apontam estudos internacionais

Pesquisas sugerem que a vacina contra o herpes-zóster,além de prevenir a reativação do vírus,pode ter um efeito protetor sobre a memória,reduzindo a incidência de demência. Estudos no País de Gales e na Austrália indicam uma conexão entre a vacinação e menores diagnósticos de demência,possivelmente devido à redução de inflamações cerebrais e uma resposta imunológica mais equilibrada. Embora promissora,a hipótese ainda requer mais investigação.

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Há vírus que entram no corpo,causam doença e desaparecem. O da catapora prefere ficar. Depois que as manchas somem,ele se esconde nos nervos e pode permanecer ali,silencioso,durante décadas. Em algumas pessoas,desperta muitos anos depois na forma de herpes-zóster,provocando bolhas,ardor e uma dor que pode continuar mesmo depois que a pele melhora.

A vacina foi criada para impedir esse retorno. Mas pesquisas recentes levantaram uma possibilidade inesperada: ela talvez também ajude a proteger a memória.

A pista mais forte nasceu de uma regra burocrática no País de Gales. Em 2013,o governo iniciou um programa de vacinação contra o herpes-zóster. Quem havia nascido antes de 2 de setembro de 1933 não podia receber a vacina. Quem nasceu logo depois passou a ter esse direito.

Na prática,duas pessoas nascidas com poucos dias de diferença,praticamente da mesma idade e com histórias de saúde muito parecidas,ficaram em lados opostos da regra. Uma tinha grande chance de ser vacinada. A outra,não.

Para os pesquisadores,aquilo funcionou quase como um sorteio feito pela vida real. Em vez de comparar simplesmente quem escolheu se vacinar com quem não quis,foi possível analisar grupos muito semelhantes,separados por uma data no calendário.

O estudo acompanhou 282.541 adultos que ainda não tinham diagnóstico de demência. Ao longo de sete anos,o recebimento da vacina foi associado a uma redução de 3,5 pontos percentuais na chance de um novo diagnóstico. Em termos relativos,a queda foi de 20%. O efeito apareceu de maneira mais clara entre as mulheres.

O estudo,publicado na revista Nature,não foi um ensaio clínico tradicional,daqueles em que os participantes são sorteados desde o início. Ainda assim,seu desenho foi especialmente robusto,porque diminuiu uma dúvida comum nesse tipo de pesquisa: será que as pessoas vacinadas adoecem menos por causa da vacina ou porque,em geral,cuidam mais da saúde?

Depois veio a Austrália. Outro programa baseado em data de nascimento encontrou resultado semelhante. Em outro país,com outro sistema de saúde e outra população,quem teve acesso à vacinação também apresentou menos diagnósticos de demência.

Quando pesquisas diferentes chegam à mesma direção,a hipótese ganha força.

A história ganhou força com estudos sobre a vacina recombinante,mais recente,que também sugeriram menor risco de demência. Em uma análise,a redução inicial foi de 51%,mas caiu para 27% quando os vacinados foram comparados a outro grupo com hábitos semelhantes de prevenção. O benefício permaneceu relevante,em uma estimativa provavelmente mais próxima da realidade.

Ainda é cedo,portanto,para afirmar que existe uma vacina contra Alzheimer. Os estudos avaliaram principalmente demência de qualquer causa. Também não está claro por que a proteção aconteceria.

Uma possibilidade é que,ao impedir que o vírus volte a se multiplicar,a vacina reduza inflamações e pequenas agressões aos vasos e ao tecido cerebral. Outra hipótese é que ela ajude o sistema imunológico a responder de maneira mais equilibrada ao longo dos anos.

O próprio estudo da Nature considera plausíveis os dois caminhos: menos reativações do vírus e uma mudança mais ampla na resposta de defesa do organismo.

Isso não significa que a vacina deva ser indicada hoje com o objetivo específico de prevenir demência. Ela já tem uma função bem estabelecida: reduzir o risco de herpes-zóster e de uma de suas complicações mais temidas,a dor persistente que pode durar meses.

Mas a possível proteção da memória abre uma janela fascinante. Durante muito tempo,tratamos a demência como uma doença isolada dentro da cabeça. Hoje,sabemos que o cérebro envelhece em diálogo constante com o resto do corpo. Vasos,sono,audição,atividade física,metabolismo,inflamação e,talvez,alguns vírus participam dessa história.

A memória pode começar a ser protegida muito antes do primeiro esquecimento. Às vezes,não apenas com livros,palavras cruzadas ou exercícios mentais,mas evitando que um vírus antigo volte a despertar.