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Diante da guerra, lealistas do Irã promovem nacionalismo mais amplo, incluindo mulheres

Jun 25, 2026 IDOPRESS

Mulher caminha ao lado de um outdoor com a bandeira nacional do Irã na Praça Enghelab,em Teerã — Foto: AFP

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GERADO EM: 24/06/2026 - 18:54

Irã Promove Nacionalismo Inclusivo em Meio a Tensões Externas

Diante da guerra,o Irã adota um nacionalismo mais inclusivo,visando unir lealistas e ex-dissidentes contra agressões externas. O governo promove uma imagem de unidade,destacando mulheres sem véu em manifestações pró-governo,desafiando normas conservadoras. No entanto,a sociedade permanece dividida,com ceticismo sobre a autenticidade desse apoio. A crise econômica e os protestos passados ainda impactam o cenário nacional.

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Ao não apenas sobreviver à guerra,mas também emergir com uma posição de destaque nas negociações de paz em curso,o governo iraniano sente-se fortalecido. Ainda assim,um ajuste de contas nacional se avizinha,à medida que o país mergulha cada vez mais na crise econômica e sua população permanece profundamente dividida após os protestos antigovernamentais que varreram o país pouco antes da guerra. Para evitar esses desafios,o governo iraniano está explorando a indignação popular com o ataque sofrido pelo país por potências estrangeiras. O Estado e seus apoiadores projetam um senso de unidade que acreditam poder alcançar grupos muito além de sua base de apoio mais radical.

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Sua mensagem é que lealistas e dissidentes podem encontrar um terreno comum na luta contra a agressão estrangeira. E eles visam apresentar uma face mais amigável e inclusiva do regime — mesmo enquanto este continua a reprimir críticos,confiscando suas propriedades e executando pessoas na maior taxa em décadas,segundo ativistas de direitos humanos.

Vestida com uma blusa rosa e jeans desbotados,uma jovem num vídeo dificilmente parecia uma devota fiel aos governantes religiosos do Irã,em meio a uma multidão de mulheres vestidas de preto da cabeça aos pés. Essa era exatamente a intenção.

— Eu não apoiava a República Islâmica,nem o líder supremo — disse ela a Hossein Shamaghdari,cineasta pró-governo,que publicou a conversa gravada na internet. Após os ataques dos Estados Unidos e de Israel em fevereiro,ela contou que passou a admirar as forças linha-dura do Irã,que lutavam contra duas das forças armadas mais poderosas do mundo.

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— Se a Guarda Revolucionária e os Basijis não estivessem lutando,não estaríamos aqui — afirmou a mulher no vídeo,contendo as lágrimas e elogiando as mesmas forças que antes reprimiam mulheres sem véu e manifestantes. — Estou me lembrando do início da guerra e repensando minhas opiniões sobre a República Islâmica.

A mulher nunca é identificada no vídeo,e não está claro quem ela é — muito menos se ela realmente mudou de opinião sobre o governo autocrático do Irã. O que é inegável no vídeo,porém,é um novo tipo de nacionalismo que o governo iraniano e seus apoiadores estão formulando — um nacionalismo que acolhe aqueles que antes se rebelaram contra ele.

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Há semanas,apoiadores do governo vêm publicando vídeos online que alegam mostrar ex-manifestantes argumentando que,após a guerra,“não há alternativa” à República Islâmica. Outros vídeos mostram jovens descolados com piercings — antes malvistos pelo governo teocrático do Irã — expressando sua admiração pelo novo líder supremo,o aiatolá Mojtaba Khamenei.

É impossível saber o quão genuínos são esses sentimentos,mas há poucos indícios nos vídeos de que suas aparições sejam forçadas,e muitos iranianos liberais manifestaram forte oposição à guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Talvez o mais surpreendente nesse gênero de vídeos sejam aqueles feitos por Shamaghdari,que apresentam mulheres sem véu,frequentemente retratadas como o epítome da resistência contra o regime.

O hijab ainda é uma exigência legal para as mulheres no Irã,e elas podem ser presas ou açoitadas por não o usarem. Na semana passada,a cantora iraniana Parastoo Ahmadi foi condenada a 74 chibatadas por se apresentar sem véu em um show em 2024,segundo um grupo de direitos humanos. Muitas agora desrespeitam abertamente a regra,e mulheres sem véu se tornaram uma visão comum nas ruas de Teerã e em cidades rurais. Mas nunca na mídia estatal,até agora.

— Por décadas,o hijab obrigatório tem sido uma das principais linhas divisórias entre os apoiadores da República Islâmica e seus oponentes — afirmou Omid Memarian,analista do Irã no DAWN,um think tank com sede em Washington focado no Oriente Médio.

No passado,a posição dos iranianos sobre o uso obrigatório do hijab muitas vezes refletia suas opiniões sobre as liberdades sociais,disse ele,mas agora os unionistas estão dispostos a ignorar essas diferenças entre aqueles que se opõem ao conflito.

— Após a guerra,a principal linha divisória política e social do país mudou — esclareceu Memarian.

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Essa mensagem contrasta fortemente com a imagem da mulher que prevaleceu durante os oito anos da Guerra Irã-Iraque,na década de 1980,disse Memarian,quando as mulheres com véu representavam a idealização da piedade e do sacrifício revolucionário. Durante a guerra mais recente,a televisão estatal exibiu desfiles militares femininos,com armas e jipes cor-de-rosa.

Ainda mais comuns foram as imagens de mulheres sem véu em manifestações pró-governo. Alguns unionistas destacaram a presença delas como um sinal de reconciliação nacional após a repressão sangrenta aos protestos de janeiro,que deixou milhares de mortos.

"Fomos injustos com essas mesmas pessoas”,escreveu Amir Taha Hussein Khan,um comentarista pró-governo,em uma publicação nas redes sociais acompanhada de imagens de mulheres sem véu em manifestações pró-governo. “Hoje,essas mesmas pessoas,com toda a sua alma,se levantam altruisticamente contra o inimigo”.

Alguns iranianos entrevistados pelo Times se mostraram céticos quanto à ida de todas as pessoas aos protestos por convicção genuína,argumentando que refeições gratuitas e dinheiro eram,por vezes,oferecidos em troca da presença. Essas alegações não puderam ser verificadas de forma independente. De qualquer forma,críticos afirmam que as imagens revelam a hipocrisia do governo.

— Eles querem usar a ausência do hijab a seu favor — declarou Maryam,uma moradora de Teerã que pediu para não ser identificada pelo nome completo por medo de represálias. — De repente,em meio à guerra,o regime diz que somos todos iranianos.

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Representatividade conveniente

Alguns críticos publicaram imagens online mostrando mulheres sem véu em protestos recentes,ao lado de fotografias de Mahsa Amini,a jovem que morreu sob custódia policial em 2022,acusada de vestimenta inadequada,com o véu parcialmente coberto. Sua morte deu origem ao movimento “Mulheres,Vida,Liberdade”,no qual mulheres arrancaram seus véus e foram às ruas em protestos em massa.

O governo já promoveu ocasionalmente imagens de mulheres sem véu no passado,geralmente em comícios oficiais após períodos de dissidência,disse Shima Tadris,que estuda os movimentos pelos direitos das mulheres iranianas na Fundação Gerda Henkel,um instituto de pesquisa na Alemanha. Isso aconteceu depois dos protestos de janeiro,acrescentou ela,e se espalhou durante a guerra porque projetou uma imagem de amplo apoio ao governo.

Ao mesmo tempo,acrescentou Tadris,o governo quer desmoralizar os manifestantes de janeiro,que mergulharam a liderança do Irã em um de seus momentos mais precários desde a revolução que os levou ao poder em 1979. A República Islâmica,disse ela,quer sinalizar aos manifestantes: “Vocês são os únicos que estão sozinhos,cada vez mais pessoas estão se juntando a nós”.

As tentativas de promover a unidade nacional ocorrem em um momento em que a sociedade iraniana se sente mais fragmentada do que nunca. Antes da guerra,os iranianos estavam amplamente divididos em dois campos: pró e antigoverno,salientou Naghmeh Sohrabi,historiadora do Oriente Médio da Universidade Brandeis.

A oposição se fragmentou desde então entre aqueles que apoiam a guerra liderada pelos Estados Unidos,na esperança de derrubar o governo,e aqueles que são contra ela,temendo a destruição que causa. Os partidários do governo também estão divididos entre aqueles que querem continuar a guerra e aqueles que querem negociar um acordo para pôr fim a ela.

— O que está acontecendo no terreno é uma fragmentação da sociedade em um nível muito profundo — destacou ela. — A questão para eles é como reconstruir a sociedade?

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Roya Khoshnevis,acadêmica e analista cultural radicada em Teerã,afirmou que,embora essas divisões não pudessem ser sanadas com fervor nacionalista,havia um orgulho coletivo em sobreviver à guerra.

— As pessoas não se sentem necessariamente mais unidas — pontuou ela. — Apesar das ações erradas que a República Islâmica cometeu contra seu povo ao longo dos séculos,como muitos iranianos,tenho orgulho da força que demonstraram.

Alguns ativistas temem que o Estado não seja mais tão leniente quando a ameaça de guerra diminuir,ressaltou a pesquisadora Tadris. No mês passado,o Judiciário iraniano intimou o editor da agência de notícias estatal IRNA por causa de uma reportagem fotográfica que mostrava uma mulher sem véu em sua casa. No entanto,foi o presidente do Irã,Masoud Pezeshkian,quem saiu em sua defesa.

— As mesmas mulheres que dizem que um dia deveriam ser presas,você mostrou segurando fotos do líder supremo — declarou Pezeshkian durante uma entrevista à emissora estatal iraniana. — Precisamos aceitar as diferenças e não encará-las como hostis.