
Bandeiras de Portugal e Brasil — Foto: Mauricio Fonseca
Dizem que português é uma língua complicada. Eu acho que complicados somos nós. Criaturas deliciosamente complexas,que não se contentam com o que foi,é e será,e por isso se estendem em possibilidades,hipóteses,devaneios.
Tomemos como exemplo a Ana e um beijo. Fosse esta uma mulher simples,a ação se daria no passado (Ana beijou),presente (Ana beija) ou futuro (Ana beijará). Fim da história para nossa protagonista de claras intenções e ações concretas.
Ocorre no entanto que o beijo pode não ter sido dado. Em vez de um ato,ele se torna abstração. Nós criamos um tempo verbal exclusivo para tal conjectura,o futuro do pretérito. Nele,Ana beijaria. E não satisfeitos em definir o que foi potencialmente o maior erro da vida da Ana,ainda ressaltamos a coisa pelo futuro do pretérito composto,no qual três verbos validam o remorso: Ana poderia ter beijado.
Ana está satisfeita? Não está. Ela deixou de ter a vida interior do tamanho de uma ameba para se remoer por dentro. Ana não beija,beijou ou beijará,mas ela gostaria,deveria,poderia beijar ou ter beijado. O beijo sai da ação para habitar nossas mentes,e é justo a ausência no mundo real que faz com que criemos esta caixinha imaginária,onde o beijo que não foi dado se dá.
O futuro do pretérito é o mais filosófico dos tempos verbais. Nasceu da insatisfação com o presente e da necessidade de alimentar um segundo mundo,imaginário e intransferível. No aqui e agora é vida que segue,e no entanto para seguir precisamos escapar para este outro lugar com hipóteses.
Você estudaria se pudesse voltar no tempo. Deveria ter ido com a Débora para Floripa. Deveria ter pedido desculpas e poderia ter dito que gostava. Mas você não disse,não fez e não foi,e agora tem que arcar com o peso das escolhas,do remorso e da inércia,tangíveis pelo futuro do pretérito.
Cada um e todos nós,lidando diariamente com irrealizações. Construindo esta vida imaginária e paralela,onde se dá o que não se deu.
Portanto não foi um sádico gramático do tempo de Matusalém que criou a multitude de tempos verbais. Foram as angústias dos seus antepassados. Foi a necessidade humana por abstrações. O futuro do pretérito composto,ali para elaborar arrependimentos (você deveria ter amado). O futuro do presente para expressar otimismo e desejo (você amará). O infinitivo pessoal para quando o desejo for acanhado (você gostaria de amar). O imperativo para você deixar de ser besta e se enfiar na vida (ama tu). O gerúndio para provar que você entendeu a que veio e permanece amando. O pretérito mais que perfeito,que a esta altura só serve para provar que você é muito velho,do tempo em que você amara,talvez inspirado pelos poetas já não lidos das tertúlias da Rua do Ouvidor.
Fôssemos mais simples nós amaríamos e só.
Isso me lembra Millôr Fernandes,quando disse que o Brasil tem um longo passado pela frente. É frase altamente política e que pego emprestada para este breve tratado filosófico linguístico. Os 16 tempos verbais existem para expressar as complexidades da alma. Nós temos,como o Brasil,um passado pela frente e pelos lados. Complexas conjugações para lidar com o vasto universo além do presente. Com o que poderia ou poderá se dar.