
Da favela para o mundo. Baile Cria,projeto que leva repertório do funk carioca para o público em Berlim,ganha espaço na programação da capital alemã — Foto: Divulgação
GERADO EM: 13/06/2026 - 18:54
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Com sol a pino,na tarde de um sábado recente,os termômetros marcavam 28°C. Pouco para quem está acostumado com o calor do Rio,mas quente o suficiente para suar em bicas em Berlim. Na área externa da cervejaria Berliner Berg,em Neukölln (Nova Colônia),na zona sudoeste da capital alemã,gente de diferentes nacionalidades — alguns com a camisa do Brasil — dançava,cada um a seu modo,na pista de areia. No cenário praiano,entre os gêneros musicais ouvidos,destacou-se aquele batidão carioca inconfundível,de Bonde do Tigrão a 150 BPM.
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Os responsáveis pela façanha são DJs forjados nas ruas do Rio que,com o projeto Baile Cria,se dedicam a espalhar a cultura funkeira na capital alemã.
O coletivo foi fundado pelo designer e produtor cultural Ricardo Cortês,de 41 anos. Cria da Ilha do Governador,ele reuniu outros DJs cariocas para tocar em festas temáticas de funk e afrofunk na cidade alemã. Há pelo menos quatro anos,bota a galera para ouvir música brasileira em eventos como o Samba de Sarjeta,em 2022,e o projeto Maloca,em 2023,de repertório mais amplo. Em abril deste ano,nasceu oficialmente o Baile Cria.
— A ideia é disseminar a cultura do funk em outros contextos. Nossa música não é mero produto de exportação,mas uma potência da nossa cultura. Para os brasileiros,é comunidade e pertencimento. A gente quer dar dignidade a quem criou essa música,ao território de onde ela veio,e contar essa história para as pessoas na Europa — conta Ricardo,mais conhecido como DJ MDZN,sigla para Maloca da Zona Norte.
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Naquele sábado calorento para os padrões locais,o estilo musical variava: ouvia-se amapiano,que é o eletrônico sul-africano,afrohouse e pop. Na hora do funk,no entanto,a coisa mudava de figura. As pessoas balançavam os braços e mexiam os quadris tentando entender como a coisa funcionava. Pelo menos uma rebolava até o chão,de bermuda verde-bandeira,mas logo a surpresa se desfez: era o niteroiense Douglas Oliveira,de 30 anos,que mora na Alemanha e estava a passeio por Berlim.
— É muito louco ver festa de funk aqui,mas é isso,eles também apreciam o que a gente tem. Já vi vários com a camisa do Brasil e a maioria era gringa — contou o dançarino,que caprichou no passinho.
Em outro ponto da pista,as amigas Calli Müller,de 26 anos,e Yenne Strauss,de 25,dançavam com um sorriso no rosto.
—A gente estava procurando alguma coisa diferente de techno,que Berlim já tem muito. Eu gosto,mas nem sempre é a vibe. O funk é muito divertido de curtir,a energia é totalmente diferente,acho mais amigável,dá para dançar e curtir com outras pessoas,é ótimo — opinou Calli. A amiga acompanhou o argumento:
— Em boates techno as pessoas geralmente estão mais focadas em si,a energia é mais introspectiva e talvez mais séria. O funk é uma expressão mais alegre — conta Yenne.
Ricardo Cortês pisou em Berlim pela primeira vez em 2012,durante uma viagem de mochilão pela Europa,e se encantou. A porta de entrada foi a carreira como desenvolvedor de TI,área de formação em que atuou até 2022,quando começou a despontar o desejo de trazer o gingado da musicalidade brasileira.
— Foram muitos anos trabalhando em áreas diferentes e muita luta para hoje conseguir viver fazendo cultura brasileira por aqui — conta ele,que foi reunindo,aos poucos,outros cariocas para integrar o conjunto.
Foi o caso de Angélica Xavier,de 35 anos,ou DJ Yandra Furiosa. Cria do bairro de Santa Teresa,ela mora na Alemanha há quatro anos. Tocar funk em Berlim,para a DJ,é missão diplomática:
— O funk do Rio nasceu em um lugar onde as pessoas tinham poucos recursos,mas com uma potência cultural muito forte. É muito mais que música. É identidade,sobrevivência,criatividade.
*Reportagem produzida durante o programa Internationale Journalisten-Programme (IJP),apoiado pelo Ministério de Relações Exteriores da Alemanha