
Vitamina D: uso excessivo traz riscos — Foto: Pixabay
GERADO EM: 21/05/2026 - 16:39
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Tem frasco de vitamina D na casa de quase todo mundo. Na prateleira do banheiro,na gaveta da cozinha,ao lado do magnésio e do ômega-3. A receita,às vezes,nem existe: alguém ouviu no podcast,viu no feed,achou razoável tomar. É uma vitamina,afinal. O que pode dar errado?
Nada de dramático,provavelmente. Mas o que pode dar certo também é menos do que muita gente imagina.
A vitamina D não é uma vitamina comum. Funciona como um pró-hormônio,produzido pela pele quando exposta ao sol e depois ativado pelo organismo. Participa da absorção de cálcio,da saúde dos ossos,da função muscular e de processos do sistema imunológico. O nome vem de longe,de uma época em que ela foi identificada em estudos sobre raquitismo infantil e acabou entrando na família das vitaminas. O nome ficou. A biologia,porém,é outra.
E aí começa o paradoxo. Moramos em um país ensolarado,mas vivemos como se o sol fosse um item de paisagem. Passamos o dia entre apartamentos,escritórios e telas. Quando saímos,saímos cobertos,protegidos por filtro solar e pelo medo,legítimo,do câncer de pele. Pouca exposição solar,sedentarismo,excesso de peso,envelhecimento,doenças intestinais e dietas restritivas interferem nesses níveis.
Daí a lógica do suplemento parecer irresistível. Se falta sol,toma-se comprimido. A ideia é simples e sedutora. Mas a pergunta importante não é se a vitamina D importa. Ela importa. A pergunta é outra: o que exatamente se espera que ela resolva?
Nos últimos anos,ela foi apresentada quase como um seguro contra a fragilidade humana: proteção contra câncer,infarto,diabetes,depressão,cansaço. Uma parte da verdade foi esticada até virar promessa.
Grandes estudos clínicos ajudaram a colocar freio nessa empolgação. O mais abrangente deles,conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard com mais de 25 mil adultos acompanhados por anos,mostrou que suplementar vitamina D em quem já tinha níveis adequados não reduziu incidência de câncer nem de eventos cardiovasculares. O suplemento não se comportou como o escudo universal que muita gente gostaria que fosse.
Isso não torna a vitamina D inútil. Torna a conversa mais honesta. Em quem tem deficiência real,ela pode ser necessária. Níveis muito baixos prejudicam a saúde óssea,favorecem fraqueza muscular e aumentam a vulnerabilidade a quedas em idosos. Em crianças,podem levar ao raquitismo. Em pessoas com osteoporose,má absorção intestinal ou doença renal crônica,a avaliação faz ainda mais sentido. O problema começa quando a exceção vira hábito coletivo. Tomar vitamina D sem saber se há deficiência é transformar uma ferramenta médica em amuleto. Em doses altas e sem acompanhamento,pode causar excesso de cálcio no sangue,cálculo renal e arritmias. O fato de algo parecer inofensivo não significa que deva ser tomado sem critério.
O mais sensato é menos glamouroso do que o marketing dos suplementos. Um exame de sangue simples,o 25(OH)D,mede a reserva de vitamina D no organismo. Com esse resultado,o médico define se há necessidade de reposição,em que dose e por quanto tempo. Não é burocracia. É o único jeito de transformar intenção de cuidado em cuidado de verdade.
A boa notícia é que,quando há deficiência e ela é tratada,o corpo responde. Ossos mais sólidos,músculos mais estáveis,menor risco de queda Não é milagre,é fisiologia. E fisiologia,ao contrário de promessa de frasco,tem endereço certo no corpo.
Saúde começa pelo que é real. Não pelo que é fácil de acreditar,nem pelo que é fácil de comprar. O frasco pode estar na gaveta. A pergunta que vale é se ele precisa estar lá.