
Rótulos de vinhos da Europa tiveram alta de 12% nas importações em valor entre janeiro e abril deste ano,diz MDIC — Foto: Divulgação
GERADO EM: 06/06/2026 - 18:42
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Dos vinhos tintos de Bordeaux e da Toscana aos rótulos do Douro e do Alentejo,terroirs franceses,italianos e portugueses começam a ganhar ainda mais espaço no Brasil,um dos países com maior potencial de crescimento do setor.
A mudança é reflexo do acordo entre União Europeia e Mercosul,que reduziu,em maio,a alíquota de importação de 27% para 24% e prevê uma queda gradual até zerá-la em 2034. No mercado,importadoras já relatam um maior apetite das vinícolas europeias,que prometem acirrar a disputa com rótulos da Argentina e do Chile por um espaço na mesa dos brasileiros.
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Os primeiros efeitos nos preços devem ser sentidos nos próximos três meses,quando os estoques atuais forem substituídos por produtos com menor taxação e,sobretudo,câmbio mais favorável. Estima-se uma redução de preços de até 10% para o consumidor,patamar que deve turbinar as vendas até o fim do ano,principal período de compras. A projeção é que o setor registre alta geral de 2% a 4% nas vendas em 2026.
O maior interesse ocorre em um momento de alta de 12% em valor nas importações de vinhos europeus de janeiro a abril,segundo o Ministério do Desenvolvimento,Indústria,Comércio e Serviços (Mdic).
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No Grupo Wine,o interesse de produtores europeus é crescente,diz Alexandre Magno,CEO da companhia — Foto: Divulgação
No Grupo Wine,uma das maiores empresas de vinhos do Brasil,o interesse aumentou já no ano passado. Segundo Alexandre Magno,CEO da companhia,as vinícolas estrangeiras que saírem na frente ganharão espaço no mercado brasileiro:
— A Europa vem sofrendo muito com a retração do mercado chinês e com a instabilidade nos Estados Unidos,onde há tarifas elevadas para os produtos,o que afetou as exportações europeias. Com isso,há um estoque maior de produtos da Europa,e eles estão procurando países onde há potencial de crescimento e um mercado em evolução,como o Brasil.
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Ao mesmo tempo,Magno ressalta que a companhia vem reforçando o contato com novos fornecedores da Itália e da França:
— Esperamos um aumento de 5% neste ano na importação de rótulos europeus,o que deve se refletir em um crescimento de 5% nas vendas. Os preços vão cair nos próximos meses,com a substituição dos estoques. Se o câmbio permanecer no atual patamar mais baixo e a situação no Oriente Médio se normalizar,veremos reduções no varejo que podem chegar a 10% nos rótulos europeus.
Isso tende,dizem as empresas,a elevar a fatia dos importados,que hoje respondem por 35% do consumo no país,enquanto os nacionais detêm 65%. Da fatia de importados,os europeus hoje já entregam 42,4% das garrafas,mas Chile (38,4%) e Argentina (16,4%) respondem juntos por mais da metade dos vinhos que chegam de fora. A expectativa das importadoras é que,impulsionados pela maior disputa com os europeus,os estrangeiros cheguem a 2034 com metade do mercado brasileiro.
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— Além disso,com a redução das tarifas,os vinhos mais caros também tendem a ganhar espaço,já que possuem maior valor agregado e sofrem menos impacto proporcional do aumento do custo do frete provocado,por exemplo,pelos conflitos no Oriente Médio. Isso tende a ampliar ainda mais a 'premiumização' do consumo,fenômeno que já ocorre em outros segmentos,como o de cervejas. Os vinhos acima de US$ 25 cresceram 10% na última década,enquanto as versões abaixo desse valor tiveram vendas estagnadas — avalia Magno.

Na Quinta dos Murças,no Douro: vinhos portugueses ultrapassaram os da Argentina na lista de maiores importadores — Foto: Divulgação
Malu Sevieri,diretora da ProWine São Paulo,também ressalta a maior procura dos europeus,incluindo companhias que antes não eram atendidas pela importadora. Ela afirma que as empresas estão interessadas em participar de eventos para entender melhor o mercado brasileiro:
— A demanda já aumentou bastante. Os importadores estão ampliando seus portfólios porque também existe um interesse crescente por parte dos produtores europeus em entrar aqui. O Brasil passou a ganhar protagonismo e hoje é prioridade para esses produtores. Acho que existe muito entusiasmo no mercado e entre os consumidores. Todo mundo comenta que o vinho importado vai ficar mais barato. O impacto deve começar a aparecer aos poucos. Acredito que já no segundo semestre possamos ver algumas reduções de preço.
Quem também deve ganhar espaço são os rótulos portugueses e espanhóis. Para executivos do setor,o acordo com a UE aumentará a competição com os vinhos argentinos e chilenos,que também devem iniciar estratégia mais agressiva de preços. Dados do Mdic apontam que os rótulos de Portugal novamente se mantiveram acima dos da Argentina neste ano.
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André Martins,diretor de Expansão e Novos Negócios do restaurante Pobre Juan,com 23 unidades no país,aposta em queda de preços entre 5% e 8% nos próximos meses. Para ele,o movimento é benéfico para o consumidor,que terá acesso a mais rótulos com custo menor:
— Isso vai criar oportunidade de experimentar um vinho novo e ajudar na rentabilidade das nossas vendas. Já estamos tendo conversas com as importadoras para ampliar vinhos da Itália,França e Espanha — diz Martins,que vende 12 mil garrafas por mês.

Rede de restaurantes Pobre Juan prevê queda nos preços dos vinhos europeus e maior rentabilidade — Foto: Divulgação
Frederico Falcão,presidente do ViniPortugal,que reúne mais de 500 produtores lusitanos,aposta em alta de até 10% neste ano com a redução tarifária. Ele lembra que,neste momento,com as tarifas maiores nos EUA,diversas empresas estão ampliando os olhares para o Brasil:
— Portugal deve ganhar mais espaço,embora haja uma perspectiva de avanço da Itália,Espanha e França. Neste primeiro momento,os vinhos mais baratos devem ganhar espaço,e os de média gama terão avanço nos próximos anos com a redução no preço. Esperamos um aumento do consumo no Brasil,porque a bebida ficará mais democrática. O Brasil tem um consumo per capital que não chega a3 litros por ano,bem menor que os 60 litros de Portugal — afirma ele,destacando o maior interesse das empresas em participar de eventos no Brasil como rótulos do Alentejo,Douro e Lisboa.
Para José Luis Moreira da Silva,CEO do Esporão,grupo com três vinícolas em Portugal,o acordo entre Mercosul e União Europeia deve impulsionar as vendas de vinhos no Brasil.
— A alíquota de importação hoje é de 24%. No fim de 2027,cairá para 21%,e,em 2028,para 18%. Nosso crescimento de vendas será claramente maior no Brasil,já que praticamente não comercializamos vinhos nos outros países do Mercosul. O Brasil é hoje o nosso segundo maior mercado,atrás apenas de Portugal.

José Luis Moreira da Silva,planeja rótulos especiais para o Brasil — Foto: Divulgação
Silva afirma ainda que o acordo entre os blocos já começa a influenciar a estratégia da companhia,que avalia ampliar o portfólio voltado ao consumidor brasileiro:
— Estamos pensando em produzir espumantes,categoria que ainda não vendemos no Brasil,além de vinhos com menor teor alcoólico. Temos um portfólio de inovação bastante amplo,que acredito que ajudará a impulsionar ainda mais as vendas.
Fernando Zamboni,CEO da Winelands,também prevê aumento das importações. Ele lembra que a competição será acelerada,pois os produtores europeus já são conhecidos por serem “muito agressivos na política de preços”. Ele destaca que,desde 1º de maio,iniciou uma busca por vinhos de maior valor agregado tentando pegar carona na nova política de impostos.
O executivo cita rótulos de regiões como Pimenonte e Toscana,na Itália,Riojas,da Espanha,e Bordeaux,na França. Além dos vinhos mais caros,Zamboni aposta em uma maior concorrência entre os rótulos de entrada:
— O maior volume continuará sendo de vinhos tintos de entrada,mas brancos e espumantes terão crescimento. Esses grandes produtores precisam escoar a produção,e o acordo facilitará isso. É praticamente uma obrigação para eles ingressar ou expandir presença no mercado brasileiro que,embora ainda tenha baixo consumo per capita,é hoje um dos poucos países onde o consumo de vinho continua crescendo,enquanto no resto do mundo despenca. Para este ano,projetamos um crescimento em torno de 11%.


Maria Maddalena Dal Grosso,diretora da Italian Trade Agency-Brasil,destaca uma alta de 13,9% nas importações de vinhos italianos pelo Brasil no ano passado. Segundo ela,o avanço é impulsionado pela redução das barreiras tarifárias e pelo consumo mais sofisticado. Para ela,o Brasil é hoje considerado uma prioridade estratégica global dentro dos planos internacionais de promoção do vinho italiano:
— A estratégia promocional italiana visa apresentar denominações de origem e terroirs ainda pouco explorados pelo grande público brasileiro. A combinação entre a desoneração tarifária gradual e uma taxa de câmbio favorável atua diretamente na redução dos custos de importação na alfândega. Isso não se traduz necessariamente em uma mera redução de preços nos produtos de massa,mas em uma forte aceleração na introdução de rótulos das categorias premium e superpremium a preços mais acessíveis e competitivos,favorecendo a diversificação da oferta comercial.
O avanço dos europeus,no entanto,acendeu o alerta entre as empresas nacionais. Luciano Rebellatto,presidente da Consevitis,que reúne os produtores do Rio Grande do Sul,lembra que o setor vem buscando,junto ao governo,formas de aumentar sua competitividade. Ele ressalta a importância da redução da carga tributária e critica a inclusão do vinho no chamado “imposto do pecado”,previsto para entrar em vigor em 2027:
— Estamos trabalhando nessa agenda para explicar que o produto tem uma cadeia importante de empregos no Brasil e que o setor será muito impactado com a redução da tarifa para os produtos europeus. As empresas europeias olham para o Brasil porque sabem que há aqui um potencial de crescimento muito grande. O consumo per capita no Brasil hoje gira em torno de dois litros por ano,enquanto na Europa chega a 50 litros. Isso mostra um pouco do potencial de crescimento do país e explica por que o Brasil é um mercado tão disputado — afirma Rebellatto.


Larissa Fin,criadora do evento Vinho na Vila e dona da Casa Vitis,lembra que o vilão é o “custo Brasil”,cuja carga tributária chega a mais da metade do valor de uma garrafa na prateleira. Por isso,ela também defende a criação de contrapartidas que possam desonerar o vinho brasileiro. Por isso,ela diz que,enquanto não houver mudança,as empresas precisam agir:
— O produtor tem que sair de trás do balcão e ir para a rua. Não dá mais para esperar o cliente achar o vinho na gôndola do supermercado,espremido entre dezenas de importados mais baratos. A Europa é um mercado saturado,tradicionalista e ultra protecionista. O nosso principal mercado consumidor continua sendo aqui dentro. Pensar em exportação de volume para lá no curto prazo é ilusão. Porém,o acordo abre uma janela para nichos e produtos de alta gama,como os nossos espumantes.