
Um navio de carga em um porto em Ningbo,na China. As maiores economias do mundo estão optando por barreiras comerciais em vez de uma maior integração econômica — Foto: The New York Times
GERADO EM: 05/06/2026 - 18:00
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A China está erguendo barreiras para impedir que dinheiro,tecnologia e empresas deixem o país. Nesta semana,o Conselho de Estado,o gabinete do governo chinês,anunciou novas regras que exigem uma análise de segurança nacional para empresas chinesas que desejem investir no exterior.
A medida vem na sequência de regulamentos introduzidos em abril que permitiram às autoridades intervir quando empresas estrangeiras tentassem transferir cadeias de suprimentos para fora da China.
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Em conjunto,essas iniciativas configuram um novo projeto da fortaleza econômica que a China está construindo em torno de sua tecnologia e de suas cadeias de suprimentos,em meio ao aumento das tensões com a Europa e os Estados Unidos.
As regras são mais um sinal de que os princípios econômicos de mercados abertos e livre comércio,que durante décadas orientaram grande parte da economia mundial e ajudaram a impulsionar a extraordinária ascensão da China,estão dando lugar a uma era mais fragmentada.
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De Washington a Bruxelas,as maiores economias do mundo estão optando por barreiras comerciais em vez de uma maior integração econômica. Essa mudança é motivada,em parte,pelas crescentes preocupações com a dominância global da China em matérias-primas,produtos manufaturados e tecnologia,além da enxurrada de produtos chineses que chega aos mercados internacionais.
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— Saímos de um mundo em que as leis facilitavam o fluxo de capital,pessoas,tecnologia e comércio — afirmou Ben Kostrzewa,sócio e especialista em comércio internacional da Hogan Lovells em Hong Kong.
— A economia ‘Chimerica’ imaginada há 20 anos acabou se revelando quimérica — disse ele,referindo-se ao termo que combinava China e América e que já foi amplamente utilizado para descrever a interdependência econômica entre os dois países.
A China já deu uma prévia de como essa nova era poderá funcionar. O país bloqueou a aquisição da Manus,empresa de inteligência artificial fundada por engenheiros chineses,pela Meta,em um negócio de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10 bi). Também orientou refinarias chinesas sancionadas pelos Estados Unidos a não cumprirem as determinações americanas e ordenou que uma empresa de equipamentos de segurança apoiada pelo Estado não cooperasse com investigadores da União Europeia.
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A cada nova medida,Pequim se aproxima de uma confrontação mais direta com os Estados Unidos e a Europa.
Os formuladores de políticas chineses vêm construindo um arsenal crescente de controles de exportação,contramedidas e sanções comerciais em resposta a tarifas e outras restrições impostas por governos estrangeiros.
As novas regras do Conselho de Estado ampliam esse esforço para as atividades internacionais das empresas chinesas e detalham como Pequim poderá retaliar empresas e indivíduos estrangeiros quando investimentos chineses forem restringidos.
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As normas também concedem novos poderes às autoridades para examinar empresas chinesas que buscam oportunidades no exterior,submetendo os investimentos a análises de segurança nacional que os enquadram em três categorias: incentivados,restritos ou proibidos.

Engenheiro testa robôs industriais nas instalações da Efort Intelligent Robot,em Wuhu,cidade da província de Anhui,na China — Foto: Qilai Shen/Bloomberg
Segundo advogados especializados,parte da motivação é impedir que capital,talentos e propriedade intelectual de setores nos quais a China possui vantagens competitivas deixem o país.
Empresas estrangeiras que operam na China temem que a medida seja interpretada de forma ampla o suficiente para abranger dados produzidos em suas operações chinesas,os quais precisam ser fornecidos a reguladores internacionais durante investigações ou análises de investimentos.
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Há cerca de uma década,a China já havia endurecido o controle sobre investimentos no exterior,classificando como “irracionais” algumas aquisições realizadas por grandes conglomerados que buscavam ativos de prestígio,como o hotel Waldorf Astoria. Na época,porém,o foco era reduzir riscos financeiros domésticos,e a supervisão ficava principalmente a cargo dos reguladores bancários.
O novo arcabouço é diferente. Seu foco é a segurança nacional,e a coordenação é muito mais ampla.
O principal elemento novo das regras anunciadas nesta semana é a tentativa de desacelerar a expansão internacional das empresas chinesas.
As medidas restringem a movimentação de determinados profissionais em setores considerados sensíveis,embora Pequim ainda não tenha definido claramente quais setores se enquadram nessa categoria. Também ampliam os poderes das autoridades para supervisionar fluxos de capital,incluindo a possibilidade de obrigar investidores a vender participações ou interromper investimentos caso surjam preocupações relacionadas à segurança nacional.
As regras ainda criam a base legal para que reguladores impeçam entidades estrangeiras de investir ou operar na China — inclusive expulsando-as do país — como forma de retaliação a medidas adotadas por seus governos contra investimentos chineses.
Para alguns especialistas,o aspecto mais marcante dessas regras é que elas podem limitar as ambições internacionais das empresas chinesas justamente quando elas enfrentam forte pressão para encontrar novos mercados e quando as exportações do país atingem níveis recordes.
— A China tem incentivado as empresas a se instalarem no exterior,investir e contornar restrições que possam existir à produção dentro do país — afirmou Lester Ross,especialista em China e consultor sênior do escritório Wilmer Hale.
Segundo ele,as novas regras podem dificultar esse movimento.
Autoridades chinesas classificam as medidas como um “marco” para os investimentos externos do país. Para muitos investidores,no entanto,a definição vaga do que constitui uma ameaça à segurança nacional tem gerado grande incerteza.
A ideia de que empresas ou indivíduos precisem de autorização para investir no exterior pode parecer incomum. No entanto,a China há muito tempo restringe a saída de recursos do país e atualmente limita cada cidadão a transferir até US$ 50 mil (cerca de R$ 250 mil) por ano para o exterior. Esse instrumento tornou-se ainda mais importante à medida que o crescimento econômico desacelerou.
A China também não é o primeiro país a examinar investimentos externos sob a ótica da segurança nacional. Em 2024,o governo Biden impôs restrições ao financiamento americano dos setores chineses de semicondutores,computação quântica e inteligência artificial.
A União Europeia também incentivou seus Estados-membros a revisar investimentos nesses mesmos setores considerados sensíveis.
Mas,diferentemente dos Estados Unidos e da Europa,Pequim adotou uma definição muito mais ampla de segurança nacional. Como consequência,suas regras também são mais abrangentes.
Para advogados e consultores especializados em comércio internacional,a sucessão de restrições adotadas por diferentes governos sinaliza o fim de uma era.
O governo chinês justificou as novas regras citando “mudanças profundas jamais vistas em um século”. O argumento encontra eco em Zhou Yong,advogado do escritório chinês Junhe.
— Do ponto de vista jurídico,a reestruturação das regras dos negócios internacionais foi provocada pela competição entre grandes potências e pelo progresso tecnológico — afirmou Zhou.
— A China espera ter suas próprias ferramentas — disse.