
Vitrine na areia. Ambulante oferece modelos próprios para cliente na praia — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo
GERADO EM: 19/04/2026 - 23:08
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Depois de uns dias de férias no Rio,Mahoro Seward,repórter da revista Vogue britânica,garantiu que mudou o “nível de determinação” em relação ao guarda-roupa de verão. Em reportagem escrita para a publicação inglesa sobre os biquínis mais usados pelas brasileiras nas praias cariocas,a jornalista descreveu com entusiasmo de fã não só o design das marcas brasileiras,mas a consciência corporal das mulheres locais e a fortíssima moda praia da “cidade do eterno verão”.
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O típico biquíni do Brasil é caracterizado na reportagem como uma variação em torno de modelos cavados que se adaptam às curvas do corpo. A revista cita várias marcas cariocas,como Farm,Osklen,Adriana Degreas e Haight,além da “própria praia”. A última grife citada,veja que curioso,é uma reunião das peças vendidas pelos próprios ambulantes que andam quilômetros carregando guarda-sóis repletos de itens.

Vendedora ambulante na Praia de Ipanema expõe biquínis em guarda-sol com peças penduradas — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo
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A origem dessas peças na vitrine da areia,no entanto,está espalhada por fábricas pelo estado do Rio. Alguns ambulantes contaram que produzem com costureiras parceiras,e mais não dizem — o segredo,às vezes,é a alma do negócio. Outros disseram que compram no atacado,com lojistas e fabricantes locais,e revendem nas areias.
Uma dessas fábricas é de Thalita Loroza,jovem gonçalense de 33 anos,em parceria com o marido,Magnum Vinicius Rodrigues,de 34,responsável pelo marketing. Vendedora nata,ela conta que tudo começou quando,grávida,foi demitida de um emprego no setor comercial. À época,Magnum fez uma parceria com uma loja de moda praia e,na base da permuta,conseguiu 10 conjuntos de biquíni para a esposa.

A gonçalense Thalita Loroza,de 33 anos,é uma das fabricantes de biquíni que distribui para as praias do Rio — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
— Eu fiquei com um,presenteei outros três e vendi seis,cada um por R$ 100. Com o dinheiro,voltei e comprei mais. Fiquei um ano e meio fazendo isso,até que vi uma oportunidade de negócio e criei a minha própria fábrica. No início não entendia nada de modelagem,mas tinha o sonho de trabalhar com moda — conta ela,que acumula no perfil da marca no Instagram mais de 300 mil seguidores. As vendas são online,mas ela já teve loja física em Niterói,São Gonçalo,Duque de Caxias,Realengo e Bangu.
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Ela mesma busca referências para os modelos e os desenvolve,desde 2019,com uma modelista de Cachoeiras de Macacu,que conheceu em um grupo de costureiras de São Gonçalo. A clientela é do Brasil todo,além de estrangeiros,que compram para revender dentro e fora do Rio. Thalita também exporta peças para Portugal,França e,nos próximos meses,vai abrir um ponto de revenda em Málaga,na Espanha — simplesmente a vitrine da moda praia europeia.
— Eu e minha irmã vimos um mercado potencial muito grande. Os estrangeiros compram muito comigo. Outro dia vieram francesas comprar 300 peças. Vem muitos argentinos e bolivianos comprar para revender em Búzios — conta a empresária.
Nas praias de Copacabana e Ipanema,as vendas estão aquecidas,quase tanto quanto o sol.
— As gringas preferem as peças com cores do Brasil. O modelo triângulo é o que mais sai — explica um vendedor de Ipanema. Os preços variam entre R$ 80 e R$ 120,a depender do tipo de tecido,que pode ser texturizado,de poliamida ou poliéster.

A escolha da economista lutuana Ksenia Mityanina foi toda em verde-amarelo — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo
Enrolada numa canga que reproduz o desenho da bandeira brasileira,a lituana Ksenia Mityanina,do Nordeste da Europa,levou vários biquínis encomendados pelas amigas. Isso,claro,depois de comprar o dela.
— Eu amo as cores do Brasil,acho a combinação mais icônica de moda praia. Meu marido é brasileiro,então para mim é parte da minha cultura e da minha família. As minhas amigas sempre pedem para levar biquínis brasileiros. Estou levando cinco — conta ela,que é economista.
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O tal modelo triângulo do momento tem calcinha com alça ajustável e o sutiã cortininha,ideal para fazer a marquinha do bronzeado. É um dos mais vistos nas areias. Duas amigas da Suíça,Luana Wettstein e Valeria Flores,de 20 anos,deixaram os modelos europeus dentro da mala.
— O que mais gosto são as combinações de cores e o design,que ajusta perfeitamente no corpo,além de ser muito barato — conta Luana,que usava um biquíni de crochê.

Meio brasileiras,meio suíças,as amigas Valéria Flores e Luana Wettstein já vestiam os biquínis brasileiros em Ipanema — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo
A amiga acrescentou que,para além da estética,se sentiu mais confiante com o modelo brasileiro.
— É lindo,mais justo e ainda confortável. Eu me senti realmente mais bonita e mais confiante com ele. Acho que isso é o mais importante — conta Valeria.
Esse burburinho não é de hoje. O chamado “Brazilcore”,tendência que celebra a identidade nacional,extrapolou as camisas da seleção,virou estampa de biquíni,canga e acessórios,e até influenciou um estilo de vida.
Para Adriana Setti,diretora de conteúdo da The Summer Hunter – plataforma online que mapeia tendências de verão –,há décadas o país,e especialmente o Rio,são como uma espécie de laboratório estético global. Aqui nascem proporções,cortes,atitudes e códigos que depois se espalham pelas praias da Europa e além.
— O Brasil se consolidou como referência,mas esse protagonismo não é linear,vem em ondas. Em momentos de maior visibilidade internacional (como em Copas do Mundo,eventos culturais,as conquistas no cinema),esse interesse se intensifica. O imaginário tropical volta com força: verde e amarelo,sensualidade,corpo à mostra,uma certa ideia de liberdade — afirma Adriana. — Nos últimos 20 anos,os biquínis ficaram mais cavados,mais ousados,mais criativos. Na Espanha,o modelo de calcinha de biquíni mais cavado (sem ser fio dental) é chamado de “brasileña”,que não deixa dúvidas sobre a origem da referência — conta.

Brazilcore na veia. Canga de bandeira nacional dos amigos Herbert Alves e Anny Granato,em Copacabana — Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo
A recente passagem de divas pop no país,como os shows de Madonna e Lady Gaga em Copacabana,a viagem em família da cantora Dua Lipa no Rio,e os passeios de Rosalía,da região central à sul da cidade,também contribuíram para o hype.
— Todas elas usaram as cores do Brasil no vestuário em algum momento. Isso ressignificou muito a imagem do país para o próprio povo brasileiro. A gente saiu daquela polarização política e voltou a ter orgulho da nossa camisa e do verde e amarelo — contou o ator Hebert Alves,de 30 anos,sentado na canga de bandeira nacional.
O biquíni foi criado na França nos anos 1940,mas foi no Rio que se popularizou e se tornou símbolo nacional. A primeira vez que ele surgiu em uma praia carioca,mais precisamente no Arpoador foi em 1948,ironicamente,usado por uma alemã acariocada,Miriam Etz.
— Foi um importante momento no processo de ruptura com padrões conservadores do comportamento feminino local da época — explica Paula Acioli,pesquisadora e analista de moda,autora do livro A Culpa é do Rio! A cidade que inventou a moda do Brasil.

Helô Pinheiro na Praia de Ipanema na década de 1960 — Foto: Reprodução/Arquivo particular
Ela explica que o “biquíni brasileiro” se popularizou a partir dos anos 1960 com a difusão do estilo praiano do Rio e com o sucesso da música Garota de Ipanema,inspirada na musa Helô Pinheiro,de 1962. Cheia de criatividade,a estética local virou referência global.
— Quando a praia passa a ser extensão da vida social,tudo muda — afirma,citando a jornalista Marcia Disitzer,autora do livro “Um Mergulho no Rio,100 anos de moda e comportamento na praia carioca”. — A partir do final dos anos 1990,com o amadurecimento do setor e a internacionalização de marcas de moda praia,o Rio passa a se consolidar também como exportador,não só de tendências,mas também de coleções — afirma Paula.