
Dr Kevin Tracey — Foto: Divulgação
GERADO EM: 14/04/2026 - 15:33
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O nervo vago é o nervo mais extenso do corpo humano. Apesar do nome,ele é,na verdade,um par de nervos,localizado nos dois lados do corpo,que serve como um canal de comunicação bidirecional entre o cérebro e o coração,os pulmões e os órgãos abdominais,além de estruturas como o esôfago e a laringe,ajudando a controlar processos involuntários,incluindo respiração,frequência cardíaca,digestão e respostas imunológicas.
No entanto,sua ação vai muito além disso. O neurocirurgião americano Kevin J. Tracey,que também é pesquisador,descobriu que o cérebro e o sistema imunológico estão intimamente ligados pelo nervo vago. Esse achado abriu um grande campo de pesquisa e possibilidade de novos tratamentos,por meio da ativação do nervo vago para doenças inflamatórias,como artrite reumatoide,câncer,doenças cardiovasculares,diabetes,obesidade e neurodegeneraçãoo,como Alzheimer e Parkinson.
Nos últimos anos,começaram a surgir milhares de dicas nas redes sociais sobre como estimular o nervo vago para obter benefícios como prevenir doenças,aumentar o bem-estar e melhorar a saúde mental. Diante desse aumento e também de muita desinformação,Tracey decidiu escrever um livro inteiro sobre esse nervo tão importante para o corpo humano e,muitas vezes,mal compreendido. Chamado "O nervo vago: as descobertas sobre o nervo que regula sistemas vitais do nosso corpo e pode curar doenças crônicas e autoimunes",a obra foi lançada recentemente no país pela editora Sextante.
Em entrevista ao GLOBO,Tracey,que é referência mundial nas áreas de inflamação e medicina bioeletrônica e presidente e professor do Instituto Feinstein,nos EUA,fala sobre a importância do nervo vago para a nossa saúde e explica como podemos ativá-lo por meio de hábitos e práticas simples do dia a dia para melhorar nossa saúde em geral.
Por que você decidiu escrever um livro sobre o nervo vago?
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Escrevi este livro porque existem bilhões de publicações na internet sobre o nervo vago e acho muitas delas profundamente confusas,algumas erradas e outras interessantes,mas não comprovadas. Então,tentei reunir essas informações para que as pessoas pudessem concordar sobre o que sabemos,o que não sabemos,o que está errado,o que está certo e o que é interessante,mas que deveríamos estudar mais a fundo.
Por que o nervo vago é tão importante para a nossa saúde?
Porque é um importante canal de informação,um caminho pelo qual o corpo comunica ao cérebro o que está acontecendo no corpo e o cérebro comunica ao corpo o que fazer a respeito. Os sinais que viajam pelo nervo vago — são 100 mil nervos de cada lado do pescoço,totalizando 200 mil nervos vagos — foram aprimorados por milhões de anos de evolução para desempenhar uma função específica,transmitir uma mensagem específica com um propósito específico e,em conjunto,essas funções produzem harmonia. É como 200 mil cordas de violino e,quando todas tocam em perfeita harmonia,o resultado é uma bela sinfonia,que é a homeostase,o equilíbrio da função de todos os órgãos. Embora médicos e cientistas estudem o nervo vago há 2 mil anos ou mais,só agora,com ferramentas modernas,estamos criando mapas precisos de todas essas fibras. E esses novos mapas nos levaram a entender que essas fibras não controlam apenas os órgãos que conhecemos,como também controlam a inflamação,o que abriu um novo mundo de oportunidades.
Em seu livro,você escreve que o nervo vago está muito próximo do sistema imunológico. O que muda quando começamos a olhar para o corpo como um sistema integrado entre o cérebro e o sistema imunológico?
Muda muita coisa. Por décadas,os estudiosos do cérebro e da neurociência não estudavam imunologia,e vice-versa. Mas hoje,esses campos estão convergindo na área da neuroimunologia e na medicina bioeletrônica,porque,no fundo,o corpo e o cérebro estão conectados mais do que se imagina. Platão já dizia isso: se você quer curar a alma,cure o corpo,e se quer curar o corpo,cure a alma. Essa ideia,todo mundo conhece. Os universitários,estudam,ficam exaustos,fazem as provas e adoecem depois porque baixaram a guarda. Todos sabemos que existe uma relação entre o sistema nervoso e o sistema imunológico. Mas não podíamos fazer nada a respeito porque ninguém entendia como funcionava. Estudando o nervo vago,descobrimos uma nova maneira de encarar a questão. Por exemplo,descobrimos que os sinais do nervo vago funcionam como os freios de um carro,impedindo que ele desça a ladeira em alta velocidade. Essa "linha de freio",pode reduzir a inflamação. Pensando dessa forma,podemos realizar experimentos concretos em laboratório,estudar os sinais nas fibras do nervo vago e aprender como os sinais elétricos são convertidos em sinais químicos,e como esses sinais químicos inibem a inflamação. Isso é interessante.
Como o nervo vago controla a inflamação?
Se você fosse um cientista estudando inflamação há 25 anos,a resposta seria que não havia como o nervo vago fazer isso porque a inflamação é causada por glóbulos brancos que circulam na corrente sanguínea,e o nervo vago se conecta a locais específicos,em órgãos específicos. Mas o que descobrimos é que as conexões ocorrem no baço. O baço é um órgão localizado no abdômen,abaixo do coração. Ele é repleto de glóbulos brancos. Alguns nascem ali,outros descansam ao passar por ali. Quando são necessários,saem do baço e entram na corrente sanguínea para patrulhar em busca de infecções e lesões. Ao encontrarem alguma,esses glóbulos brancos são ativados e produzem a inflamação. O que aprendemos é que o nervo vago pode enviar sinais elétricos para a região do baço. Esses sinais elétricos são convertidos em sinais químicos,e esses sinais químicos acalmam os glóbulos brancos. Assim,os glóbulos brancos saem do baço,e quando encontram um lugar,como uma articulação com artrite,em vez de atacá-la e piorar a situação,os sinais nervosos a acalmam e começam a curá-la. Essas células curativas podem reduzir a artrite,a inflamação intestinal,a inflamação cerebral,e é assim que as próprias células,tendo sido desligadas pelos sinais do nervo vago,se tornam agentes do bem.
E como essa descoberta funciona na prática?
Você pode levar esse mesmo conhecimento para os ensaios clínicos e,com um colega,fundei uma empresa para isso,chamada Set Point Medical,que inventou um novo dispositivo,um estimulador do nervo vago,e o usou para tratar pacientes com artrite reumatoide. E funciona. Alguns meses depois da publicação do meu livro,a FDA (agência que regula medicamentos e dispositivos médicos nos EUA) aprovou o uso da estimulação do nervo vago para tratar artrite reumatoide. Isso mudou tudo,porque agora pacientes que antes não conseguiam melhorar com os medicamentos,estão considerando o tratamento com um chip,que é do tamanho de uma cápsula de óleo de peixe ou de um comprimido de Tylenol. Esse chip é colocado no nervo vago no pescoço e muitos desses pacientes têm apresentado resultados extremamente positivos. Isso altera a ideia preconcebida de que o sistema imunológico e o sistema nervoso são separados,passando a integrá-los,e também muda a visão preconcebida que o mundo tinha de que toda inflamação precisa ser tratada com medicamentos,para que agora,talvez,possa ser tratada com dispositivos.
Para quais outras doenças já existe esse tipo de tratamento?
É uma longa lista. A estimulação do nervo vago já foi aprovada para epilepsia,depressão,tratamento da abstinência de opioides e para melhorar a terapia de reabilitação após um AVC,além de enxaqueca. São muitas indicações,mas quando se trata de inflamação,se isso funciona para artrite reumatoide — e funciona! —,quais outras condições inflamatórias são tratadas com os mesmos medicamentos usados para tratar artrite reumatoide? A lista é longa. A doença inflamatória intestinal é tratada com esses mesmos medicamentos,e já vimos ensaios clínicos bem-sucedidos,ainda que pequenos,utilizando essa abordagem para tratar doença de Crohn e colite ulcerativa. A Setpoint está atualmente realizando ensaios clínicos para esclerose múltipla. Tenho conhecimento de ensaios clínicos em vários estágios,alguns planejados e outros com um pequeno número de pacientes,para diabetes,síndrome metabólica,obesidade,outras doenças autoimunes e outros tipos de artrite. Acho que as pessoas estão se perguntando se algum dia será possível usar algum tipo de dispositivo de estimulação nervosa,do nervo vago ou de outro nervo,para tratar até mesmo a doença de Alzheimer e o câncer.
E o que você acha?
Acredito que haverá um papel para algum tipo de terapia bioeletrônica em todas essas doenças. Não acho que será amanhã. Acho que a esclerose múltipla e a doença inflamatória intestinal poderiam ser tratadas relativamente rápido. Já para doenças como câncer,Alzheimer e diabetes,será necessário um pouco mais de pesquisa,mas acredito que se provará útil em algum momento nos próximos anos.
A estimulação do nervo vago substitui os medicamentos tradicionais ou os complementa?
Ambos. Estamos vendo alguns pacientes com artrite reumatoide apresentarem resultados clínicos excelentes que não precisam mais tomar medicamentos e não apresentam sinais nem sintomas da doença. Nesses casos,você diria que o dispositivo substituiu o medicamento. Conheci outros pacientes que continuam tomando a medicação em doses menores,com menos frequência ou em doses mais baixas. Isso é uma vantagem. E o terceiro grupo é composto por pacientes que dizem: "Bem,eu tenho esse estimulador do nervo vago e não noto muita melhora". Mas é preciso ter cuidado ao considerar isso,porque atualmente o imunorregulador é aprovado pela FDA para pacientes que já tentaram medicamentos que não funcionaram. Se você conhece alguém que já lidou com alguma doença,consegue pensar em alguma em que tratar tardiamente seja melhor do que tratar precocemente? Claro que não. É sempre melhor tratar precocemente e,no momento,os resultados que estamos vendo são todos em pacientes que já receberam tratamento. Então,acho que a questão que surgirá nos próximos anos,à medida que mais e mais pacientes forem tratados e mais experiência se acumular,é se,ao tratarmos precocemente,os resultados serão ainda melhores. Eu apostaria que sim.
E o que funciona para ativar o nervo vago?
É o que a vovó e o seu médico dizem para você fazer. Tenha uma dieta equilibrada,controle seu peso,pratique exercícios regularmente,tente dormir o suficiente,evite o excesso de ansiedade em sua vida,tenha uma estratégia para lidar com a ansiedade,concentre-se nas coisas que você pode controlar e não nas que não pode,tenha um hobby,mantenha-se conectado emocional e cognitivamente com as pessoas que você ama. Estas são as estratégias de autoajuda comprovadas que podem e devem ser feitas com segurança. Há evidências de que todas essas coisas,juntas e separadamente,estão associadas a uma frequência cardíaca de repouso mais lenta. Portanto,pode-se dizer que todos esses estilos de vida saudáveis são uma forma de se exercitar,tonificar ou estimular o nervo vago porque ajuda a diminuir a frequência cardíaca em repouso,tornando-o mais ativo. Mesmo que você faça apenas algumas dessas coisas,já aumentará os benefícios de uma vida mais longa e saudável,ou de uma vida melhor e mais saudável.
Meditação,técnicas de respiração e atividade física também são boas estratégias?
A resposta curta é sim,mas com ressalvas importantes sobre o "como",que quase todas as fontes online omitem. Quando alguém diz que está "estimulando o nervo vago" por meio de exercícios respiratórios ou um banho frio,provavelmente está ativando um pequeno subconjunto dessas fibras. A respiração diafragmática profunda,por exemplo,expande os pulmões e ativa as fibras sensoriais do nervo vago que transmitem sinais de pressão para o cérebro. O cérebro pode então enviar sinais de volta por meio de outras fibras motoras do nervo vago para diminuir a frequência cardíaca e baixar a pressão arterial. Mas a chave para essa questão é que a respiração,a exposição ao frio,a meditação e o exercício não visam seletivamente o nervo vago. Essas práticas ativam simultaneamente algumas fibras do nervo vago e também milhões de outras fibras nervosas por todo o corpo,incluindo nervos simpáticos,nervos sensoriais somáticos e vias espinhais. Um mergulho em água fria ativa os nervos sensíveis à temperatura em toda a superfície da pele e desencadeia uma resposta simpática massiva de luta ou fuga. Exercícios respiratórios intensos,como o método Wim Hof,produzem picos de epinefrina muitas vezes maiores do que uma resposta típica ao estresse. Essas intervenções produzem mudanças fisiológicas reais. Mas atribuir essas mudanças especificamente à "estimulação do nervo vago" é,na melhor das hipóteses,uma simplificação excessiva. É mais preciso dizer que essas práticas envolvem o nervo vago como um participante em uma resposta neural muito maior e mais complexa. Há boas evidências que mostram que essas práticas podem reduzir marcadores inflamatórios,melhorar a variabilidade da frequência cardíaca e aumentar o bem-estar. Mas não temos provas diretas em humanos de que os benefícios sejam mediados especificamente pelas fibras do nervo vago. A resposta honesta é que o nervo vago provavelmente está envolvido,mas ainda não sabemos exatamente como,e qualquer um que diga que descobriu a resposta está se adiantando à ciência.
Onde você acha que estaremos daqui a 10 anos?
Acho que daqui a 10 anos isso será uma terapia padrão para tratar muitas das doenças que hoje usamos com medicamentos perigosos,caros e invasivos. Acho que daqui a 10 anos olharemos para trás e diremos: "Nossa,é uma pena que tenhamos que submeter todos esses pacientes ao custo de medicamentos invasivos que têm alertas de tarja preta,causam imunossupressão e só funcionam em metade dos casos". Acho que um dia vamos olhar para trás e pensar que essas drogas eram usadas,e dizer: "Não acredito que as pessoas daquela época usavam essas drogas". É como a ventosaterapia ou a sangria como catártico. "Não acredito que eles faziam essas coisas antigamente". E acho que um dia,quando tivermos muitas opções de dispositivos bioeletrônicos,vamos nos perguntar por que não fizemos isso antes.
O que é a medicina bioletrônica?
A medicina bioeletrônica é,um campo que engloba neurociência,mecanismos moleculares e engenharia biomédica. Pense da seguinte forma: se você quisesse criar um novo medicamento para alguma doença,você escolheria a doença,se concentraria nos anticorpos ou em novas moléculas para atingir o alvo e curar a doença. Na medicina bioeletrônica,você escolhe a doença e depois descobre o mecanismo molecular dela. É a mesma coisa,mas aí você pergunta quais são os nervos que transmitem sinais no corpo para esse mecanismo,que você pode identificar e potencialmente controlar com um novo dispositivo. Então você constrói um dispositivo para controlar o nervo e levar a terapia até o alvo. Você está fazendo o que um medicamento faria,só que através do próprio sistema nervoso do corpo,e isso tem muitas vantagens,porque você pode ligar e desligar o dispositivo. Na verdade,é possível administrar a terapia através dos nervos,direcionando-a para um local específico,sem precisar percorrer toda a corrente sanguínea. Além disso,os efeitos colaterais costumam ser bem menores,pois é possível implantar dispositivos do tamanho de uma cápsula de Tylenol. Então esses pequenos dispositivos podem ser inseridos sob a pele e os pacientes não têm medo desse tipo de intervenção. Eventualmente,esses dispositivos serão conectados a diversos wearables,permitindo que você monitore o que está acontecendo em seu corpo apenas olhando para o seu smartphone. E assim por diante. É uma convergência empolgante na medicina bioeletrônica,unindo o avanço da neurociência e da medicina molecular com o poder do Vale do Silício e da engenharia biomédica.
Por que existe todo esse interesse na internet sobre formas de ativar o nervo vago?
Digamos que existem bilhões de impressões na internet sobre o nervo vago,e parece que esse número está crescendo. Elas estão em tudo,seja Instagram,Facebook ou TikTok. Isso começou há pelo menos cinco ou sete anos e acho que começou com pessoas buscando explicações sobre como incorporar mais bem-estar em suas vidas,e uma série de outros fatores aconteceram ao mesmo tempo. Uma delas é que houve uma explosão de dispositivos vestíveis e,obviamente,quase todos podem medir sua frequência cardíaca e,se você tiver uma frequência cardíaca basal lenta,esse é um sinal de que algumas das fibras nervosas do seu nervo vago estão ativadas,então essa é uma conexão que você pode fazer. No mundo da psicologia,houve uma explosão de interesse em considerar o nervo vago como uma espécie de controlador mestre da paz e da harmonia,e existem todos os tipos de teorias sobre como essas conexões funcionam. Quase nenhuma dessas teorias se baseia na biologia do desenvolvimento ou na neurociência. Eles são baseados em modelos e teorias psicológicas,o que é ótimo,mas não posso atestar sua veracidade ou utilidade,embora certamente tenham atraído muita atenção. Acho extremamente importante entender que só porque todo mundo está falando sobre o nervo vago,não significa que tudo o que está sendo afirmado seja comprovado pela ciência. E,finalmente,a ciência,a boa ciência do nervo vago,explodiu nos últimos cinco ou dez anos. Quando você observa os avanços científicos que estão ocorrendo com foco no nervo vago,isso torna muito real o desejo das pessoas de saber mais. Então,acho que todas essas coisas aconteceram ao mesmo tempo e houve uma explosão de interesse.