
Meninos acenam com bandeiras do Líbano e do Hezbollah enquanto passam por prédio danificado em meio a retorno de deslocados no sul de Beirute — Foto: Fadel Itani/AFP
Quando autoridades libanesas e israelenses se sentaram à mesa em abril para as primeiras conversas diretas em décadas,líderes em Beirute classificaram o encontro como um avanço. Era uma oportunidade,finalmente,de recuperar parte do controle sobre o destino do país,depois que o Hezbollah o arrastou para mais uma guerra com Israel.
Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 paísesQuer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
Passados quatro meses e sete rodadas de negociações,porém,há pouco para mostrar. O impasse representa um golpe para o presidente do Líbano,Joseph Aoun,que assumiu o cargo ano passado com um mandato popular para retirar do movimento xiita o poder que exerce no país.


Aoun,eleito pelos parlamentares libaneses,prometeu restaurar o monopólio estatal sobre as armas e reduzir a influência política do Hezbollah. O governo que formou passou boa parte do ano passado avançando nessa promessa,trabalhando para afastar os braços do grupo do aeroporto internacional do país,do porto comercial de Beirute e dos bancos,utilizados para contrabandear armas e divisas.
Continuar Lendo
Quando o grupo abriu fogo contra Israel em março,em solidariedade ao Irã,desencadeando outra guerra em grande escala,ficaram expostas as limitações dos esforços para controlá-lo. Por mais que o Estado libanês tivesse reduzido a influência,o Hezbollah ainda era capaz de arrastar o país para uma guerra.
Israel insiste que suas forças permanecerão na extensa área do sul do Líbano,tomada durante a atual guerra,até que o Hezbollah seja desarmado. Neste sábado,a Agência Nacional de Notícias do Líbano informou uma série de ataques aéreos e demolições israelenses durante a noite e pela manhã no sul do país. As forças israelenses vêm realizando demolições e ataques quase diariamente há cerca de quatro meses nas áreas que ocupam.
O Hezbollah condenou as negociações,afirmando que não considerará entregar suas armas enquanto as forças israelenses não se retirarem do território libanês. E,embora autoridades libanesas afirmem que querem eliminar o poderio militar do grupo,o governo tem pouca capacidade — se é que tem alguma — de efetivamente fazê-lo.

O presidente libanês,Joseph Aoun — Foto: Petros Karadjias/AFP
Depois que a mais recente rodada de negociações entre Israel e Líbano terminou sem resultados neste mês,cresce o consenso de que a diplomacia chegou a um impasse. E que,apesar de suas promessas abrangentes,o Estado libanês voltou ao ponto em que esteve durante décadas: paralisado.
— Eles estão em completo desacordo — disse Paul Salem,pesquisador sênior não residente do Center for Strategic and International Studies. — Não é um beco sem saída,mas é um impasse neste momento.
Durante décadas,o Hezbollah manteve controle ferrenho sobre o Estado libanês. Com um arsenal muito maior que o do Exército do país e uma base de apoio fiel entre a comunidade muçulmana xiita do Líbano,o grupo militante apoiado pelo Irã atuou como árbitro máximo do poder em um país cujo governo há muito tempo é debilitado por disfunção,corrupção e paralisia política.
Depois de um cessar-fogo em novembro de 2024,o grupo parecia enfraquecido,e o país,exausto. Pela primeira vez em décadas surgiu uma onda significativa de apoio popular à retirada do poder das mãos do Hezbollah. Após a retomada dos conflitos em larga escala,em março,tanto o governo quanto o grupo tentam demonstrar quem detêm o poder de fato. Cada um,à sua maneira,buscou mostrar quem é capaz de pôr fim à guerra e reverter a nova ocupação israelense.
Em junho,os Estados Unidos e o Irã assinaram um acordo preliminar para suspender o conflito entre os países,que também incluía uma interrupção dos combates no Líbano. Isso foi uma prova,argumentou o Hezbollah,de que somente seu principal aliado poderia pôr fim à guerra.
Oriente Médio: Incertezas sobre o papel dos EUA guiam pacto de segurança entre Arábia Saudita,Paquistão e Turquia
Desde então,o governo libanês vem tentando demonstrar que,iniciando conversas diretas com autoridades israelenses. Dada a longa história de hostilidade entre os dois países — nenhum dos dois havia reconhecido formalmente a soberania do outro —,analistas afirmam que os próprios encontros representaram um avanço significativo.
— O fato de as conversas existirem,de o Estado libanês e o Estado israelense terem dito que querem e continuarão a conversar diretamente entre si,é algo importante para o conjunto de instrumentos disponíveis na região — disse Salem.
As negociações levaram os dois lados a concordar,em princípio,com um acordo em etapas: Israel se retiraria de pontos específicos do sul do Líbano à medida que o Exército libanês avançasse para proteger essas áreas e manter o grupo afastado delas. Mas a implementação inicial desacelerou nas últimas semanas,com a recusa de Israel em ampliar o programa,argumentando que os esforços dos militares libaneses ficaram aquém do necessário.
Isso deixou o sul do Líbano preso ao mesmo conflito latente em que está mergulhado há meses. As forças israelenses continuaram demolindo edifícios e a infraestrutura nos vilarejos. O Hezbollah segue disparando contra as forças israelenses em território libanês. E centenas de milhares de cidadãos continuam deslocados de suas casas.
— As pessoas querem deixar para trás este capítulo de tantos conflitos com Israel,percebidos como algo que atende a uma agenda externa e não aos interesses dos libaneses — afirmou Mohanad Hage Ali,pesquisador sênior do Carnegie Middle East Center,em Beirute. — Mas agora as negociações estão paralisadas,e as pessoas estão esperando. Houve uma janela de oportunidade que as pessoas temem que esteja se fechando.