
Levantar,ir e fazer o seu melhor naquele dia é o mandamento fundamental — Foto: Unsplash
Tem uma frase que ouvi muitas vezes da minha avó e da minha mãe e que acabou ficando comigo: “Se é para fazer,faça bem feito. Além de o tempo ser o mesmo,você fica com a consciência de que deu o seu melhor.” Quando era mais novo,entendia aquilo quase como uma orientação sobre responsabilidade. Hoje percebo que havia ali também uma ótima lição sobre saúde emocional. Porque fazer o nosso melhor é algo que depende de nós. O reconhecimento dos outros,não.
Todos gostamos de ser reconhecidos. Um elogio,um agradecimento,uma promoção,uma mensagem dizendo que nosso trabalho fez diferença. Isso nos faz bem e é absolutamente humano. O problema aparece quando deixamos de desejar reconhecimento e passamos a depender dele. Quando precisamos da aprovação dos outros para confirmar que aquilo que fizemos teve valor. E essa é uma conta perigosa,porque colocamos nosso bem-estar nas mãos de algo sobre o qual temos pouco controle.
Podemos estudar para uma prova,mas não controlar o resultado. Podemos preparar uma ótima apresentação,mas não determinar como será recebida. Podemos nos dedicar ao trabalho,ajudar alguém,cuidar de uma amizade ou treinar para uma competição. Temos controle sobre a dedicação,o preparo,a disciplina e nossas atitudes. A reação dos outros pertence aos outros. Parece óbvio,mas gastamos uma quantidade enorme de energia tentando controlar justamente essa segunda parte.
Esperamos o elogio que não veio. Ficamos incomodados porque alguém não reconheceu nosso esforço. Comparamos nossa trajetória com a de quem recebeu uma oportunidade que gostaríamos de ter recebido. E ainda temos um complicador: as redes sociais transformaram boa parte da vida em um grande placar. Curtidas,seguidores,visualizações,comentários. Tudo parece mensurável e comparável.
Só que viver sempre à espera de aprovação cobra um preço. Frustração,comparação,sensação de injustiça e necessidade constante de reconhecimento alimentam o estresse. E aquilo que começa na cabeça chega ao corpo. O estresse crônico interfere no sono,aumenta a tensão muscular,dificulta a recuperação,pode contribuir para alterações da pressão arterial e ainda prejudica nossos hábitos. Dormimos pior,temos menos disposição para nos movimentar e ficamos mais vulneráveis a escolhas alimentares ruins. Por isso,aprender a lidar com expectativas também é cuidar da saúde.
Na atividade física vejo isso com frequência. Nem todo treino será excelente. Haverá dias em que você correrá menos,levantará menos peso ou jogará pior. Se a satisfação depender apenas do resultado,será fácil se frustrar. Mas,se você entender que naquele dia apareceu,treinou e entregou aquilo que era possível,existe uma vitória ali. A saúde é construída muito mais pela consistência do que por performances extraordinárias. Acho que podemos levar essa lógica para a vida.
Em vez de terminar um trabalho pensando apenas “será que gostaram?”,talvez devêssemos nos perguntar primeiro: “Eu fiz o melhor que podia com as condições que tinha?” Se a resposta for sim,existe uma tranquilidade importante nessa constatação. Isso não significa ignorar críticas. Precisamos ouvir,aprender,corrigir e melhorar. Feedback é fundamental. Reconhecimento também é gostoso e pode ser um grande combustível. O problema é fazer dele o único combustível.
Com o passar dos anos,tenho entendido melhor aquela frase que atravessou gerações na minha família. Minha avó dizia para minha mãe. Minha mãe repetia para mim. E percebo que ela nunca foi apenas sobre fazer as coisas direito. Era também sobre onde colocar nossa energia. Faça bem feito porque isso está sob seu controle. Prepare-se,dedique-se,seja responsável,trate bem as pessoas e tente entregar o seu melhor. Depois,aceite que uma parte do resultado já não pertence a você.